[Índia] Viagem ao Rajastão + Délhi + Agra.

Quando decidimos visitar a Índia, eu senti um misto de alegria e medo. Alegria porque eu sempre tive curiosidade em conhecer o segundo país mais populoso do mundo, cujas culturas religiosas e gastronômicas - principalmente - sempre me interessaram. Medo porque tudo o que se ouve falar sobre o país normalmente pende para o negativo, desde a desigualdade gritante e o sistema de castas, passando pela violência contra a mulher, até os problemas sanitários e de infraestrutura. Mas, como dizemos num grupo de apoio e promoção à liberdade de a mulher poder viajar sozinha "Tá com medo? Vai com medo mesmo."

 No caminho entre Jodhpur e Udaipur, paramos num hotel para almoçar.

No caminho entre Jodhpur e Udaipur, paramos num hotel para almoçar.

Eu não fui sozinha, mesmo assim tinha uma visão estereotipada do que era a Índia. Eu sabia disso. Mas não sabia que estava cometendo um grande erro ao dizer que estava indo para A ÍNDIA. Como no Brasil existem muitos Brasis, nos EUA existem muitos EUAs, na Índia a mesma coisa acontece: a pluralidade está ali, presente. E mesmo que se possa dizer que há uma unidade que teima em colocar tudo junto, quando a gente vai e se joga percebe que o negócio não é pasteurizado assim, não. E que bom que não é!

Primeiro eu preciso dizer que nossa viagem à porção noroeste da Índia não chega nem perto da versão roots que muita gente faz, com mochila nas costas, hospedando-se em hostels e trabalhando com orçamento apertadíssimo. Mas também não foi nada luxuosa, já que muitos aproveitam que estas acomodações são bem menos caras por lá e acabam investindo mais nisso. Tivemos uma experiência que posso chamar de confortável, experimentando um homestay no meio e um Heritage Hotel no fim da viagem. No mais, ficamos em B&B, que podem ser comparados quase que a pensões meio moderninhas, administradas com esmero e cuidado. Tudo correu muito bem, nossa programação estava bem amarradinha e a agência que contratamos foi muito feliz e eficiente em tudo o que nos propôs. Recomendo muito o serviço deles, porque nos deu a possibilidade de fazer a viagem como gostamos: fechamos hospedagem e transporte. O resto a gente decidiu com base no que estudamos, mais as dicas que eles nos deram. Escolhíamos nossos destinos diários de acordo com o espírito do dia. No mais, seguem as impressões. 

POLUIÇÃO

 Dentro do Red Fort, em Délhi. Aqui dá pra ver a névoa que paira no ar o tempo todo. Fumaça. 

Dentro do Red Fort, em Délhi. Aqui dá pra ver a névoa que paira no ar o tempo todo. Fumaça. 

Assim que pousamos, pude experimentar o que é expor-se a uma situação de extrema poluição atmosférica. Tenho asma, embora tenha tido poucas crises durante toda a minha vida. Tive uma sensação de quase sufocamento, ainda no aeroporto, que me deixou bastante nervosa por alguns minutos. Até que meu organismo se ajustou ao que seria a nossa realidade pelos próximos 15 dias. Assustou bastante! 

 Levei algumas máscaras cirúrgicas para tentar driblar a poluição, mas elas não servem pra isso. Só esquentam e deixam o trabalho de respirar mais difícil. Há umas máscaras próprias para, mas que não encontramos. 

Levei algumas máscaras cirúrgicas para tentar driblar a poluição, mas elas não servem pra isso. Só esquentam e deixam o trabalho de respirar mais difícil. Há umas máscaras próprias para, mas que não encontramos. 

Das cidades que visitamos, todas elas tinham essa fumaça pairando no ar, em maior ou menor intensidade. Délhi e Jaipur foram as mais problemáticas quanto a isso. Já Agra, Jodhpur e Udaipur pareceram ter um ar menos carregado. Nos disseram que parte considerável da responsabilidade da má qualidade do ar é o hábito de se queimar terrenos para limpá-los antes de plantar. Há uma quantidade imensa de carros nas ruas, as famílias mais abastadas costumam ter vários veículos, um para cada integrante, quando não mais de um. Claro que há o problema da falta de saneamento e outras coisas que não sabemos. Esta é a realidade local. 

PESSOAS

Nessa viagem eu percebi que não existe "cara de indiano". Como o país é enorme e faz fronteira com vários países diferentes, você vê gente de todos os tipos e cores. Olhos puxados, olhos claros, peles parda, morena, amarela e negra, cabelos encaracoladíssimos e outros super-escorridos... É uma variedade de gentes tão incrível! 

As pessoas que nós encontramos pelo caminho ficavam, em geral, muito satisfeitas quando pedíamos para tirar fotos delas. Ficavam alegres quando viam o resultado. Muitas quiseram tirar fotos com a gente pra levar de recordação, na certa pra mostrar pros amigos aquele povo tão diferente que estava visitando o país deles.

Nós, meu marido e eu, éramos apontados na rua, acho que como exóticos. Na visita ao Red Fort não foram poucas as vezes em que amigas cutucavam-se umas às outras, fazendo sinal com a cabeça e apontando em minha direção, como se dissessem: “Olha que mulher esquisita!”.

Vez ou outra, alguém se atrevia a pedir uma foto. Bastava ver um indiano olhando pra gente com cara de dúvida e olho comprido que era batata: queriam tirar foto com a gente. E tome selfie, grupelfie, foto abraçadinho com gente estranha. Sempre seguida pela pergunta básica “Where you from?” Um pai se aproximou de mim com os 3 filhos pequenos e me disse: “minha filha gostaria de conversar com você, pode?”. Ela queria saber se eu estava gostando da Índia e treinar o inglês.

Passado um tempo a coisa foi evoluindo e surpreendentemente pessoas começaram a formar fila (!!!) pra tirar fotos com os estrangeiros aqui. Bastava a gente aceitar uma pose e lá vinham 10 candidatos. E todos queriam fotos individuais conosco. Acho que foi o mais próximo que chegamos da vida dos famosos até agora. 

DINHEIRO

A moeda local é a rúpia. Tivemos de fazer um esforço de início para não confundirmos o valor da rúpia indiana com o da rúpia srilanquesa: a indiana vale, frente ao dólar, pouco mais que o dobro do que vale a do Sri Lanka. Todas as notas têm a face de Gandhi nelas e as notas têm tamanhos diferentes dependendo do valor. 

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Achamos a Índia muito, mas MUITO MAIS BARATA QUE O SRI LANKA. Ficamos em hotéis muito melhores que os da média aqui da ilha, e que foram muito baratos comparativamente. Uma pena que este país onde vivemos hoje não saiba valorizar o setor de hospitalidade no que realmente importa: serviço. Mas isso é papo pra um post próprio. 

TRÂNSITO

Eu tinha uma expectativa de Délhi, especialmente do trânsito, que não se confirmou. Acho que a experiência de morar no Sri Lanka por quase 2 anos me preparou de alguma maneira para isso. O trânsito é caótico, sim. Parece que não há leis de trânsito e as conversões que os motoristas estão acostumados a fazer nos são muito estranhas. Mas não tinha vaca em cada rua ou esquina e os carros fluíam com certa regularidade e sem maiores problemas. Notamos que a maioria dos veículos tinha marcas de encostadas e arranhões nas laterais, ou batidinhas na frente ou atrás, que pareciam tão normais e corriqueiras que os proprietários não se dariam nem ao trabalho de consertá-las. Fiquei pensando como devem ser as regras para fazer um seguro de automóvel por lá...

Os motoristas fazem “U-turn”/ retorno no trânsito a todo instante. E parece que não estão dando uma de espertos - não vi placas proibindo as manobras. Uma vez, chegando de volta ao hotel, nosso motorista fez o seu numa terceira fila por fora, enquanto vinha um tuktuk no sentido contrário e um micro-caminhão forçava a passagem pela perpendicular. Só faltou a vaca no meio. Nos divertimos com a confusão e o motorista tirou onda: “Quer dirigir um carro aqui na Índia, Senhor?”. E deu uma gargalhada.

Jaipur e Jodhpur têm o trânsito mais próximo daquele que eu realmente esperava encontrar. Especialmente a primeira, já que estão construindo o metrô e isso toma uma parte considerável da pista de rolamento, tornando tudo um caos e fazendo com que você permaneça muito tempo dentro do carro. Porém foi em Jodhpur onde foi possível eu filmar um gargalo de trânsito num cruzamento que foi pra lá de interessante. Em Agra, nosso motorista nos contou que ali um condutor tinha de ter 3 coisas pra dirigir bem: "boa buzina, bom freio e boa sorte". Dá pra ter uma idéia de como as coisas funcionam por lá.

Pode ser que alguém que venha de um lugar onde o trânsito seja mais certinho tenha um susto com o tráfego destes lugares. Viver no Sri Lanka me deixou mais acostumada com isso. Ah! Foi nas rodovias entre as cidades onde vimos mais vacas, rebanhos de cabras e búfalos no meio da pista. Entre Jodhpur e Udaipur tivemos de parar o carro uma vez, para esperar um rebanho de carneiros passar com seu pastor. 

Usamos carro entre Agra e Jaipur e entre Jodhpur e Udaipur. Entre Délhi e Agra, Jaipur e Jodhpur fomos de trem. 

TREM

A agência que contratamos providenciou os tickets para nós. Já estávamos cientes dos esquemas de abordagem ao turista que acontecem na chegada às estações, então não sofremos com eles. A grande aventura foi encontrar o carro certo de trem e achar o caminho correto para chegar até à plataforma sem demonstrar estar muito perdido pra acabar caindo na conversinha de alguém "desinteressado" querendo ajudar. Fui observando as pessoas pelo caminho e abordei um indiano que viajava com uma alemã pra saber se ele poderia ajudar. Tranquilo! Uma vez achada a plataforma, foi só aguardar o trem. Tínhamos cadeiras nas cabines com ar-condicionado (que nem seria preciso porque a temperatura estava boa durante a viagem inteira, quase inverno). Estes carros são mais confortáveis e foi muito tranquilo localizar nossos assentos e acomodar nossas bagagens. Estresse quase zero!

ARQUITETURA

A visita ao Rajastão implica a ida aos pontos turísticos relacionados à arquitetura Mughal. É incrível a riqueza que o estado tem a oferecer aos olhos neste quesito. As edificações são monumentais, tão maravilhosas que precisam ser apreciadas com tempo.

 É incrível! E impossível não cantarolar mentalmente a música de Jorge Benjor. 

É incrível! E impossível não cantarolar mentalmente a música de Jorge Benjor. 

O Taj Mahal, mausoléu que por si só justifica a ida à Índia pra muita gente, é um grande exemplo disso. Mas, surpreendentemente, não foi ele que me arrebatou mais. Talvez por ter uma expectativa muito grande e por já ter visto tantas fotos dele, o encantamento foi enorme, mas não o maior. Então, se você tem vontade de ir à Índia só pra ver a prova de amor de Sha Jahan pra sua esposa favorita, acho melhor você aproveitar que já vai viajar muitas horas mesmo e planejar idas a outras construções tão merecedoras de seu tempo quanto ele. Te garanto que você não vai se decepcionar! 

PROBLEMAS

Todos os problemas do país estão ali, pra quem quiser ver. Mas se você se concentra neles pode ter uma experiência muito menor do que pode ter neste país tão incrível e cativante. Digo que temos no Brasil problemas muito semelhantes aos deles. E muitas vezes a gente escuta brasileiros falando da Índia como se viessem da Escandinávia.

Uma das grandes diferenças que posso citar é a sensação de segurança. É claro que, como eu viajava com Bruno, não tive problemas relativos a assédio e outras coisas que só nós mulheres sabemos que vamos enfrentar. Mas eu andei por todas as cidades no meio da rua olhando o mapa no meu celular. Numa delas, fiz isso sozinha. E não vi nada relacionado a furtos ou roubos. 

Há pedintes aos montes. Mas se nós tivéssemos a mesma população da Índia, provavelmente seria igual no Brasil. Crianças correm pra te pedir dinheiro. Insistem muito. Se você não tem dinheiro, pedem chocolate. Se não tem chocolate, pedem outra coisa. Vai de cada um lidar com isso. O grande negócio na Índia é desenvolver sua paciência. Você será abordado a todo instante. Haverá problemas no percurso. Por isso, na minha opinião, não vale fazer um roteiro muito apertado e cheio de cidades em pouco tempo. Isso pode te causar um nível de estresse tão grande ao ponto de prejudicar muito a sua viagem.

"UNIVERSIDADE DA CONVERSINHA"

Foi como apelidamos a habilidade do indiano tentar vender coisas/ facilidades aos turistas, mesmo quando parece que estão apenas querendo ajudar. Isso acontece com pessoas nas ruas que param para puxar assunto, passando pelos carinhas fantasiados de funcionários do guichê de informação nas estações de trem, os motoristas, guias turísticos, chegando até aos vendedores de artigos diversos. Todos, em maior ou menor grau, vão tentar te tirar o máximo de dinheiro possível vendendo alguma facilidade "just for you, madam". É divertido, muitas vezes é chato, noutras vezes você acaba sendo desagradável pra deixar claro pra pessoa de que não está interessado. E outras vezes você cai na conversinha! Acho que é praticamente inevitável. 

Em Jaipur fomos visitar o City Palace. Comprarmos as entradas, caríssimas por sinal:  as mais caras que pagamos na Índia: 39 dólares cada. Acabamos cedendo à insistência de um rapaz em ser nosso guia na visita. No ticket dizia que o guia estava incluído no preço. Ele fez a visita ser interessante, é claro, mas no final nos levou para as lojinhas que ficam dentro do complexo e o vendedor nos enrolou bonito. Veio nos mostrar, usando um isqueiro, como descobrir se uma pashmina é de fato uma pashmina, ou se é sintética. Compramos coisas boas e tal, mas não estávamos planejando comprá-las ali, naquele momento. Depois vi que pagamos mais do que em outros lugares que pesquisei. E o vendedor dizia "quando a senhora usar esta echarpe, vai se lembrar de mim!". Lembro mesmo, seu fédaputa. Hahahahaha!

Em outro lugar que fui, em Jaipur também, um rapaz simpaticíssimo me ofereceu Masala Chai, me acomodou num sofá e começou uma apresentação que parecia com um "Powerpoint" de tecidos e colchas de cama. Me deu vontade de filmar. Ele ia abrindo mil e uma coisas diferentes, ao mesmo tempo em que dizia produzir peças para a Anthropologie e outras marcas famosas nos EUA e Europa. Marcas que cobrariam caríssimo por aquilo que ele me venderia a preços incríveis. Era quase uma liquidação da Ricardo Eletro, misturada com um queimão de estoque do Varejão das Fábricas. Ávidos por compras: tremei!

Neste galpão onde a fábrica dele se localizava, haviam pessoas estampando tecidos, tecendo tapetes, bordando e costurando roupas. Depois que saí fiquei me perguntando qual seria a real situação de trabalho daquelas pessoas ali, já que sabemos que na Ásia existe muito trabalho semi-escravo envolvido nas indústrias de moda/têxtil. Fui parar ali porque o motorista "não entendeu" meu pedido, quando disse que queria comprar roupas. Ele achou que eu gostaria de comprar o tecido e mandar fazer a minha roupa. Neste lugar onde fui (não tinha identificação na porta nem nada que me faça lembrar o nome do lugar) o mesmo rapaz simpático me disse ser capaz de entregar um serviço de costura, como uma camisa social masculina, por exemplo, em 2 horas (!!!). 

Eu sei que o motorista tem esquema com o dono do lugar, recebendo comissão pelas vendas aos clientes que ele traz e tal. Era pra eu ter me irritado com a tentativa deles em me fazer comprar, mas eu pensei comigo que era uma boa forma de conhecer a cultura deles e me deixei levar. Como boa brasileira, fiquei com vergonha de ficar sentada ali por tanto tempo vendo o vendedor descer a loja dele inteira pra mim. Acabei comprando uma colcha bordada pra minha cama. O vendedor não gostou muito do tamanho da minha compra, mesmo que tenha dito no início que me mostraria tudo "sem compromisso, madame!". Ele deve ter-me mostrado por volta de 50 itens diferentes. Mas eu não estava ali pra comprar coisas pro meu quarto. Disse a ele, me livrei dos argumentos infindáveis e paguei.

A estratégia destas pessoas para te vender é te seduzir por citações a marcas famosas no ocidente, das quais elas são fornecedoras (não duvido); te maravilhar com a quantidade de artigos que são capazes de te mostrar, praticamente descendo a loja inteira; fazer referências sempre muito positivas à você, cutucando a sua vaidade e dizendo que é tudo sem compromisso, que você só compra se quiser. Mais ou menos, estão ali todas as técnicas de vendas do Grupo Friedman (eu fui vendedora de loja e fiz o curso na minha adolescência). É muito difícil não ser capturado pelo modo como eles estão acostumados a fazer negócio. Fora quando você decide comprar e precisa barganhar.

Aliás, ouso dizer, pela minha experiência, que um vendedor indiano só pode ser considerado "sério" se ele aceitar barganhar o preço. Se vier com conversinha mole e não aceitar ou oferecer brindes, melhor pensar duas vezes. Provavelmente ele estará te vendendo coisas muito mais caras que em outros lugares. Eu sei...

O JEITO INDIANO DE SE VESTIR

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Uma das coisas mais incríveis que eu observei na viagem foi a capacidade do indiano se vestir de maneira elegante e original. E não estou me referindo a pessoas ricas. Mesmo pessoas que vestiam andrajos, como pastores de ovelhas/cabras, tinham uma elegância no uso das roupas e adereços que pareciam, ao mesmo tempo, extremamente bem pensados e usados daquela forma por simples acaso. O que quero dizer é: muitas vezes eu vi mulheres indianas usando roupas com uma echarpe jogada nos ombros de uma maneira tão displicente quanto elegante. Eu poderia jogar aquela mesma echarpe sobre o meu corpo um milhão de vezes que não ficaria igual. Há um pertencimento da roupa à pessoa. Algo como se elas não pudessem ser compreendidas uma sem a outra. Véus, turbantes, pashminas, echarpes simples, cores, tecidos... tudo tão incrível e genuíno! Fiquei pensando na dificuldade que eu tenho de me vestir e me sentir bem nas roupas que uso. 

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Quando ficamos numa casa de família em Jodhpur, a matriarca da casa nos contou que as indianas da região nem sempre usaram as roupas coloridas que usam com frequência hoje. Antigamente usavam-se só tecidos de algodão, que demoram para secar e são mais trabalhosos para lavar. Como o Rajastão é uma região muito seca e desértica, as cores eram próximas ao marrom, cinza ou bege. Cores que disfarçavam mais a sujeira causada pelo acúmulo de poeira das ruas, possibilitando o uso da roupa mais vezes antes de lavar. Com a chegada dos tecidos sintéticos, consequentemente mais baratos e fáceis de lavar e secar, as mulheres se tornaram muito mais coloridas e hoje podemos nos maravilhar com o festival de cores nas ruas. O mais incrível é que você vê grupos grandes de mulheres juntas e raramente uma está usando a mesma cor que a outra. Será que elas ligam umas pra outras pra perguntar que cor vão usar hoje?

A COMIDA

Um capítulo à parte, as comidas são tão incríveis e coloridas quanto as roupas. Há um elemento comum à maioria dos pratos que é o molho. A variedade de pratos mais secos é muito menor. Nós comemos em lugares bastantes simples, em restaurante de estrada, em casa de família, em restaurantes de hotel e em lugares famosos. Na maioria das vezes eu comi pratos vegetarianos, mas não me furtei de comer frango quando tive vontade. Como bem nos recomendaram pela agência, a carne de frango é muito consumida no país. A chance de a carne que te oferecem ser fresca é muito grande. Basta tomar o cuidado para ver se está bem cozida. Bruno foi muito mais corajoso e se jogou nos pratos feitos com carne de bode. Não negou o sangue pernambucano e não teve um problema de estômago sequer. 

  Poha , o arroz pro café da manhã. Delícia!

Poha, o arroz pro café da manhã. Delícia!

De tudo o que provei, fiquei maravilhada com o Butter Chicken, que é o prato indiano mais famoso no mundo; com a Poha, um arroz previamente achatado, feito com especiarias e vegetais diversos, servido no café da manhã. Pani Puri, que é uma comida de rua e consiste numa massa frita e oca, recheada com batata cozida, cebola e grão de bico e com um caldo à base de especiarias que é adicionado só na hora de comer. Shrikhand, uma espécie de iogurte muito denso e doce, temperado com açafrão, água de rosas e pistaches que é de morrer! Rasmalai, um doce feito à base de queijo e leite aromatizado que é uma delícia. Também comi bastante Gulab Jamum e descobri uma variação deste doce chamada Kala Jamum, muito gostosa também. A variedade é tanta que você fica perdido na hora de pedir. Melhor variar sempre pra poder experimentar um pouco de tudo. 

 Jantar servido na casa onde nos hospedamos em Jodhpur. Neste dia havia arroz, cordeiro, lentilhas, couve flor, panner (uma espécie de queijo feito a partir da adição de suco de limão ao leite), e um ensopado feito com uma massa de semolina, parecida com um mini nhoque. Tudo muito gostoso! 

Jantar servido na casa onde nos hospedamos em Jodhpur. Neste dia havia arroz, cordeiro, lentilhas, couve flor, panner (uma espécie de queijo feito a partir da adição de suco de limão ao leite), e um ensopado feito com uma massa de semolina, parecida com um mini nhoque. Tudo muito gostoso! 

A grande diferença entre comer em um restaurante e comer em casa é o tipo de pão que se come. O Naan, pão famoso feito em forno Tandoori (um grande vaso de barro com brasas quentíssimas no fundo. Assam-se os pães nas paredes do forno) só se come fora de casa, porque as residências não têm deste forno que ocupa muito espaço e que demora para aquecer e estar pronto pra uso. O pão comumente feito e consumido nas residências é o Chapati, massa aberta como para pastel e cozida/chapeada numa panela especial de ferro fundido. Fazem-se, também, algumas variações do Paratha, outro tipo de pão chapeado. 

KARMA

A população hindu tem o hábito de alimentar animais ao longo do dia para favorecerem o Karma. Vacas recebem Chapati com Ghee para comer pela manhã. Cães recebem Chapati com óleo de mostarda no fim do dia. Vi pessoas comprando pipoca para jogar para os pássaros e peixes perto dos lagos. Por consequência disso, as ruas têm resto de comida frequentemente. 

SERVIÇOS NAS RUAS

Em todas as cidades encontramos profissionais oferecendo seus serviços nas ruas. Barbeiros, cabeleireiros, costureiros, passadeiros... Ouvimos dizer que é possível ver até dentista trabalhando na rua, mas destes não vimos. Cada rua tem seu passadeiro exclusivo em Délhi. As pessoas trazem suas roupas para serem cuidadas por eles. Uma conhecida indiana me contou que lenços de mão são passados de graça. 

O QUE FICOU

Fotografei incrivelmente durante toda a viagem. Especialmente as pessoas. Muita gente sorrindo, trabalhadores que ficavam orgulhosos quando pedíamos para tirar fotos deles. Eles sorriam felizes quando mostrávamos o resultado na tela. Crianças, jovens, casais, velhos... Foi uma overdose de contato humano que havia muito tempo eu não tinha. A maior memória da viagem é essa: as gentes! Ficamos tão encantados com tudo e já queremos planejar a nova viagem.

As Índias que nos aguardem por mais vezes. 

[Roma] A cidade das 7 colinas esconde muitas cidades diferentes em si mesma.

Quando eu planejei nossa ida à Itália, a opção por terminar a viagem em Roma pareceu natural. A gente não queria fazer uma viagem de pinga pinga, onde se vê tudo e não se curte nada. Mas eu não tive a intenção de iniciar a viagem por uma cidade menor e ir me movimentando pelas cidades maiores gradativamente. Simplesmente aconteceu. E como eu disse num post anterior, acredito que esta decisão se mostrou a mais acertada. À medida em que as cidades vão aumentando em área, população, importância história e, consequentemente, volume de turistas, você percebe que a jornada vai ganhando uma velocidade diferente, mais agitação, mais coisas para ver, mais lugares dos quais você terá de abrir mão para que possa curtir, de verdade, os outros que você preferiu não riscar da lista.

Roma, pra mim, foi sinônimo de encantamento e angústia ao mesmo tempo. Porque eu sabia o que eu estava perdendo. E mesmo que eu me arrebentasse de alegria ao visitar um lugar qualquer da cidade com que eu sempre sonhei, eu sempre tinha aquela sensação de que o tempo me escorria pelas mãos. A cidade é incrível. Com um quê de familiaridade, para quem conhece Nova Iorque. A agitação da cidade está por todo lado. Gente apressada pelos quatro cantos. Um mau-humor que se pode perceber nitidamente, mesmo que você não seja alvo direto dele.

Foi em Roma onde encontrei menos pessoas fluentes e/ou dispostas a falar inglês. Não sei bem se por ignorância da língua, ou se por má vontade mesmo. Mas, proporcionalmente, era de se esperar que os romanos fossem bilíngues. Por outro lado, dá pra compreender um pouco quando você tem o seu espaço sempre invadido por gente querendo saber onde foi que errou no caminho. Consigo entender o mau-humor romano fácil, ranzinza que sou.

Nós tínhamos 4 dias na cidade, que foram reduzidos a 3 para que pudéssemos dar uma escapadela até Nápoles para visitar uma prima querida que mora por lá. As únicas coisas que estavam planejadas eram o apartamento alugado, o jantar num restaurante, de uma estrela Michelin, que ficava ao lado e a audiência papal. Como iríamos ao Vaticano, teríamos somente 2 dias para aproveitar Roma. Então achei melhor a gente deixar as coisas acontecerem. E lá fomos passear pelas ruas a descobrir lugares. 

 Uma panorâmica vertical da nave da Santa Maria Maggiore. Foi engraçado porque eu entrei e imediatamente o trabalho do teto tirou a minha atenção do resto. Fiquei olhando pra cima maravilhada e com a boca aberta por um bom tempo. E nem era a  Capella Sistina , heim? Achei incrível! 

Uma panorâmica vertical da nave da Santa Maria Maggiore. Foi engraçado porque eu entrei e imediatamente o trabalho do teto tirou a minha atenção do resto. Fiquei olhando pra cima maravilhada e com a boca aberta por um bom tempo. E nem era a Capella Sistina, heim? Achei incrível! 

A primeira parada foi na Igreja Santa Maria Maggiore, que fica próxima ao apartamento onde ficamos. É uma igreja linda e, ao que pareceu, menos visitada que outros lugares da cidade. Descobrimos que havia um tour sendo oferecido para vermos um mosaico bizantino, no segundo andar da igreja e lá fomos nós. 

 O mosaico bizantino do século XIII faz parte do que era a fachada original da Igreja. Ela foi aumentada algumas vezes e sofreu com o terremoto de 1348. O terraço que hoje existe protegendo o mosaico é uma das adições feitas ao longo do tempo. 

O mosaico bizantino do século XIII faz parte do que era a fachada original da Igreja. Ela foi aumentada algumas vezes e sofreu com o terremoto de 1348. O terraço que hoje existe protegendo o mosaico é uma das adições feitas ao longo do tempo. 

Saindo da igreja, minha mãe manifestou vontade de ir até à Fontana di Trevi. E aí eu comecei a perceber que a cidade tem várias camadas, que depois eu descobri serem parte das tais 7 colinas onde a cidade repousa. Você está andando numa rua e do nada aparecem escadarias/ladeiras para descer ou subir e tudo se transforma em um labirinto que eu estava louca pra me deixar perder, só pra encontrar aqueles lugares que quase ninguém vê. Como mundos à parte, que se abrem quando você ousa ir no contrafluxo. Mas o tempo corria contra, a gente estava com pressa. Nunca me identifiquei tanto com o coelho branco de Alice no País das Maravilhas como nestes dias passados em Roma. A gente estava sempre atrasado para a próxima atração. O desafio era encontrar o buraco certo. 

 Achamos o 'buraco" certo! 

Achamos o 'buraco" certo! 

Foi a partir desta ida à Fontana di Trevi que eu pude ter contato com o mau-humor italiano. Pedir informações foi complicado. Mesmo com o Google Maps alguns caminhos pareciam difíceis de serem localizados, justamente por conta destas camadas que a cidade tem. Conseguimos achar a fonte por pura ajuda de São Google e algumas teimosias de minha parte. Meu marido já estava ficando irritado porque eu ia sempre por caminhos decididos por instinto + aplicativo. Antes de chegarmos, eu e minha mãe tentamos tomar um sorvete. Fomos totalmente ignoradas pelo atendente do balcão e saímos com a boca cheia de água. Mal sabia o carinha que os italianos já nos tinham conquistado durante a viagem e não seria o mau humor de alguns romanos que nos tiraria o deleite de estarmos passeando por ali. Sem falar que depois encontramos A GELATERIA, cujos sabores e aspecto dos gelatos deixaram os do outro mau humorado com vergonha. 

 O mármore Travertino de que é feita a fonte foi trazido de Tivoli, distante 35 quilômetros de Roma. 

O mármore Travertino de que é feita a fonte foi trazido de Tivoli, distante 35 quilômetros de Roma. 

O que eu achei mais genial da Fontana di Trevi é que você está lá, andando numa ruela estreita cheia de gente e aparente nada de extraordinário. De repente, abre-se um espaço enorme e você dá de cara com aquela coisa maravilhosa na sua frente. Eu imaginava a fonte muito menor do que é. É gigantesca! 

 Essas lojas de embutidos e produtos alimentícios vários são uma perdição. Eu não entro em loja de roupa e calçado, mas posso passar um dia inteiro dentro de um lugar assim. 

Essas lojas de embutidos e produtos alimentícios vários são uma perdição. Eu não entro em loja de roupa e calçado, mas posso passar um dia inteiro dentro de um lugar assim. 

 O sorvete da  Gelateria Valentino  é um dos melhores que eu tomei na Itália. Eu iria visitar a fonte de novo só pra tomar um sorvete deles, sentadinha vendo o povo.

O sorvete da Gelateria Valentino é um dos melhores que eu tomei na Itália. Eu iria visitar a fonte de novo só pra tomar um sorvete deles, sentadinha vendo o povo.

Passeamos ao redor da fonte, fizemos o pedido da moedinha pra voltarmos rápido, conversamos um pouco e observamos as pessoas felizes que estavam ali. Depois, fomos atrás de um gelato numa ruazinha à direita da fonte, localizado pelo meu amigo de viagens, o Foursquare. Além de encontramos um gelato delicioso, que oferecia opções sem açúcar (meu pai é diabético), ainda vimos umas lojinhas incríveis e até um Gepetto em ação! Obrigada, sr. mau-humorado!

 Olha que lindo!!!! 

Olha que lindo!!!! 

De lá fomos andando até chegar no Fórum Imperial, que compreende um conjunto de ruínas incrível, onde você pode se deixar ficar só imaginando as coisas que aconteceram por ali. Lá encontramos um estudante de música exercitando o que aprendeu e ganhando uns trocados. Que lugar engenhoso pra treinar, heim? 

O Fórum fica perto do Coliseu. Não tínhamos nada reservado, mas eu resolvi entrar pra ver se dava pra comprarmos ingresso. Faltava ainda pouco mais de uma hora pra fechar e não tinha fila! Que construção incrível! Observar o por-do-sol lá fora, através das janelas do prédio foi um capítulo à parte. E fiquei maravilhada em encontrar corvos bicolores por lá. 

No dia seguinte fomos ao Vaticano, mas sobre a audiência Papal e a visita ao Museu e à Capela Sistina eu vou falar noutro post. 

Como tínhamos pouco tempo e meus pais já estão com mais de 60/70 anos, resolvemos pegar um daqueles tours de ônibus pra passear pela cidade e decidir o que fazer. Enquanto isso, a gente descansava um pouco, né? Optamos pelo serviço do Roma Christiana, para podermos ver as igrejas da cidade. Demos uma volta inteira e resolvemos descer para ver a Igreja de São João Latrão. Como os restaurantes italianos fecham entre o serviço de almoço e jantar e já eram perto de duas da tarde, resolvemos almoçar primeiro pra depois visitar a igreja. 

Localizei o restaurante I Buoni Amici. Escolha acertadíssima, num bairo pouco turístico, o ambiente sem frescura e completamente tomado por locais nos proporcionou uma experiência romana por excelência. Lá estavam os copos sem frescura pra tomar vinho, os vinhos da casa, os garçons na correria e sem muito tempo pro papo. Eu estava há muito tempo querendo provar um autêntico Cacio e Peppe e foi isso que pedi. Meus pais e Bruno também foram de massa. Um vinho despretencioso, um prato de presunto cru com pão e azeite e estávamos felizes. Tudo transcorreu normalmente. Passamos tempo só curtindo a possibilidade de sermos locais também. Minha mãe treinou seu italiano, fomos muito bem tratados, comemos, bebemos, pagamos a conta e saímos felizes pra igreja.

As visitas às igrejas de Roma me fizeram ficar encantada com o nível de qualidade do trabalho humano naquelas paredes, tetos e pisos cheios de detalhes. Não sou católica, mas sempre gostei de visitar templos religiosos. E em Roma eu descobri que gosto de fazer estas visitas porque o elemento humano envolvido na construção daqueles edifícios incríveis, o sofrimento, a fé e tudo o mais me causam um impacto muito grande. Eu fico boquiaberta. 

Terminamos o dia dando mais uma volta de ônibus panorâmico pela cidade à noite. Descemos próximos à estação de trem e fomos à pé pra casa, nos preparar para irmos à Nápoles no dia seguinte. 

[Florença] Melhor dois dias curtindo esta jóia que só sonhando em visitar...

Berço da família Médici, os criadores do bancos como entendemos hoje, Florença é uma cidade incrível que, infelizmente, visitei por curtos 2 dias e meio. Mesmo assim, as memórias da cidade estão sempre frescas. Aproveitar o que estava disponível pra nós só não foi mais fácil por conta do tempo escasso, mas o gostinho de quero mais que ficou me leva a pensar que já já estarei por lá novamente. 

 Vista panorâmica da cidade na Praça Michelângelo.

Vista panorâmica da cidade na Praça Michelângelo.

Perto do hotel em que ficamos, muito bom por sinal, encontramos uma cantina disposta a atender um grupo de 8 pessoas quando faltava menos de 1 hora para a cozinha fechar. Eu, que estava numa expedição culinária regional, não me contive quando vi Ribollita no cardápio e pedi. Antes dela, uma salada e muito vinho. A sopa, que na verdade tem uma textura de quase purê, é feita com vegetais, caldo de vegetais e miolo de pão. Tipo de comida de gente simples e pobre. Os sabores são bem apresentados e o resultado final, apesar de não ter uma apresentação bonita, foi muito bom. 

  Ribollita .

Ribollita.

Aliás, quero abrir um parêntese sobre beleza de comida aqui. Nós, no Brasil, estamos numa busca absurda por fazer nossos pratos ficarem bonitos para atrair mais pessoas e tal. Eu percebi na Itália que isso é um sintoma incrível da nossa aclamada "síndrome de vira-latas". A não ser no restaurante estrelado Michelin a que fomos em Roma, todos os outros lugares onde comi os pratos foram apresentados rusticamente como são, sem frescura alguma e com muito orgulho. E digo mais: parte das sobremesas italianas constituem coisas muito semelhantes aos nossos pavês. E enquanto a gente esconde estas coisas no fundo da geladeira, preferindo servir "sobremesa chique", os italianos estão lá, servindo os Tiramisu e as Zuppa Inglese deles do jeitinho que se serve em casa. Fica claro que, muito mais do que o "como servir", a preocupação é "com o ingrediente". Isso faz com que metade da qualidade do prato já esteja garantida. O resto fica a cargo da capacidade do cozinheiro ao reconhecer até onde deve interferir. É claro que apresentação é importante, que a gente come primeiro com os olhos e tudo. Meu ponto é que isso não deve tirar a atenção do sabor e da qualidade do prato. Porque fazer riscos no prato com reduções mil, brunoises e juliennes bem cortadas e servir um prato ruim não dá. Outra coisa que percebi: italianos não servem comidas fumegantes. Não comi nem bebi nada que tenha chegado à minha mesa e tenha sido capaz de me queimar a boca. A ciência da temperatura de servir é algo digno de nota por lá. E chega a ser óbvio: se queimo a língua, passo a não conseguir sentir o sabor da comida propriamente. Fecha parênteses. 

Minha lista de coisas a provar em Florença era gigante. Eu seguia sem encontrar um panetone pra comprar. Queria provar um Lampredotto e já vinha me preparando psicologicamente para comer este famoso sanduíche de tripas, mas o tempo era tão escasso que tive de abrir mão. O jantar daquele dia prometia ser memorável: tínhamos reserva no Il Latini, restaurante concorridíssimo da cidade, que costuma ter uma multidão esperando por mesas assim que eles abrem as portas, às 19h30. Chegamos lá e comprovamos. Era muita gente aglomerada. Parecia rinha de galo. Eu fui indo direto pra porta porque tinha reserva e já sabia da treta. À medida em que chegava perto da entrada, as pessoas foram tentando me barrar. "Eu tenho reserva!" gritei para o rapaz que tomava conta da porta. "8 pessoas!". - Ah, Sra Paula, por favor entre. Eu nunca vi tantas caras furiosas olhando pra mim na minha vida. Meus familiares também foram barrados atrás de mim, uma loucura! Mas todo mundo conseguiu entrar ileso e se sentindo o máximo por ter reserva num lugar tão disputado. Se eu estivesse trabalhando por gorjetas, aquele era o momento de pedi-las. Iria ganhar muitos euros! 

O restaurante é incrível! Você entra e vê um monte de presuntos crus pendurados no teto. A nossa mesa estava lá, enorme, só pra gente. O garçon chegou, se apresentou, nos falou sobre o sistema de funcionamento da casa - à la carte ou menu fechado. Escolhemos e esperamos.

 O vinho da casa. Honestíssimo pelo preço/garrafa cobrado.

O vinho da casa. Honestíssimo pelo preço/garrafa cobrado.

 Presunto cru, meu amor!

Presunto cru, meu amor!

 Salada de farro e torradas com patê de fígado.

Salada de farro e torradas com patê de fígado.

Foi uma festa italiana incrível, culminando em Cotolettas Fiorentinas. Enormes, servidas à maneira deles, muito tostada por fora e quase crua por dentro. Isso significa que se você gosta de carne bem passada vai passar aperto. Porque eles nem perguntam como você gosta do ponto da carne. É assim!

 As famosas  Cotolettas!  Optamos por um menu fechado. Comida e bebida incluídas e à vontade. E era MUITA comida!

As famosas Cotolettas! Optamos por um menu fechado. Comida e bebida incluídas e à vontade. E era MUITA comida!

Fazia tempo que não comíamos carne de verdade! Especialmente eu e meu marido, já que no Sri Lanka a carne bovina é de péssima qualidade. A finalização foi com Vin Santo e Cantuccini. Não havia espaço para sobremesa, infelizmente. Comemos e bebemos muito, os garçons fazendo piada pra nos agradar. Um deles havia morado no Brasil e volta e meia vinha pra dizer o que tinha aprendido sobre nosso país. Meu tio ficou encantado com o vinho da casa e comprou umas 10 garrafas. Saímos todos com a certeza de que foi uma noite memorável de boa comida, ótima conversa, bom vinho e atendimento impecável. Meu pai estava todo feliz. Fomos dormir porque não tinha jeito, o dia já tinha acabado e tínhamos um passeio no dia seguinte à região de Chianti.

 O carrossel. 

O carrossel. 

Passamos nosso último dia na Piazza della República. Há uma feira incrível nos fins de semana. Nela você encontra tantas coisas excelentes pra comer e comprar que, se descuidar, passa o dia inteiro. Encontramos alguns brasileiros trabalhando em algumas barracas e daí tudo virava aglomeração. Comemos gorgonzola cremoso, mostarda de cremona feita com castanhas portuguesas, canolo de ricota com pistache e muito gelato! Tomamos cerveja, compramos presentes, andamos no carrossel...

 Doces, queijos, pães...

Doces, queijos, pães...

 ... embutidos, molhos, carnes curadas...

... embutidos, molhos, carnes curadas...

 Pratos prontos,  Ribollitas ,  Lampredottos .

Pratos prontos, Ribollitas, Lampredottos.

 Muita comida!

Muita comida!

 Estes  canoli  estavam divinos!!!

Estes canoli estavam divinos!!!

Até nos lembrarmos que ali pertinho estava o objetivo principal de nossa passagem pela praça: ao final dela, dobrando à esquerda e descendo alguns metros, observamos estupefatos a Cattedrale Santa Maria del Fiore! Fiquei pensando: "Será que os florentinos já estão tão acostumados com esta beleza que passam por ela sem olharem?". É uma construção tão magnífica que eu lamentei que haja tanta construção ao redor dela. Queria poder me afastar uns longos passos para poder admirá-la inteira. Ao invés disso, me vi circundando-a várias vezes, procurando absorver aquela maravilha que eu tinha diante dos meus olhos. Minha vontade era subir no mirante da torre, mas a fila estava enorme e não daria pra ver muito mais da cidade se fizesse isso. Mas consegui vê-la por dentro! 

É uma construção tão magnífica que eu lamentei que haja tanta construção ao redor dela. Queria poder me afastar uns longos passos para poder admirá-la inteira. Ao invés disso, me vi circundando-a várias vezes, procurando absorver aquela maravilha que eu tinha diante dos meus olhos. Minha vontade era subir no mirante da torre, mas a fila estava enorme e não daria pra ver muito mais da cidade se fizesse isso. Mas consegui vê-la por dentro! 

 Os afrescos na parte interior da cúpula. 

Os afrescos na parte interior da cúpula. 

Numa das voltas que dei, encontrei um restaurante bastante escondido e simpático. Consultei meu Foursquare pra ver se era bom e li um monte de italianos elogiando. Estávamos esperando metade do grupo que tinha se desgarrado em compras. Entrei, perguntei se haveria mesa disponível para 8 pessoas. A garçonete fez uma careta e chamou o dono. Ele me disse: "É claro! Vai demorar um pouco, pode ser?". Nos sentamos nas mesas do lado de fora, pedimos um vinho e fomos esperando o povo chegar. Daí, Patrício, o dono, passou a tomar conta da gente. Eu realmente entrei com receio de perguntar se nos atenderiam porque grupo grande é um problema e os italianos são muito práticos. Se é não é não. Diferente do que eu esperava Patrício foi de uma gentileza e simpatia conosco que eu fiquei encantada! Uma hora, minha irmã perguntou algo sobre o menu para ele, em inglês. Ele a interrompeu: "Pode falar português! Tão mais lindo que o inglês. O inglês é uma língua muito pobre!". Ganhou o grupo todo e a gente ficou felizinho tomando vinho lá fora, no frio. Logo a nossa mesa estava pronta e nosso grupo todo já havia chegado. Entramos, pedimos, comemos, bebemos, Patricio fez piadas, falou de futebol e foi tudo uma delícia! A comida estava bem gostosa, comi umas linguiças com feijão que estavam ótimas, mas o melhor do restaurante foi a acolhida. E eu que esperava receber um não logo de cara...

Tem muita coisa pra ver em Florença. Em 2 dias e meio não conseguiríamos ver muita coisa. Mas uma delas eu precisava fazer: ver a escultura original do Davi, de Michelângelo. Primeiro porque eu sempre gostei de esculturas: acho que são a minha expressão artística favorita. Segundo, porque tem uma alegoria psicológica atribuída a Michelângelo onde ele, respondendo a pergunta de como definia o que seria esculpido, disse que o Davi, por exemplo, já estava lá, dentro da pedra. Que ele, o escultor, tinha por trabalho somente ajudá-lo a sair de dentro dela. Terceiro por conta de um artigo divertidíssimo do The New York Times, onde conta-se a história da escultura desde antes de Michelângelo nascer e de como ela está fadada a se espatifar em mil pedaços num terremoto mais severo, caso o governo Italiano não tome as devidas providências a tempo. A Galleria dell'Academia foi construída para abrigar o primeiro Davi. Ao chegar no lugar onde está a estátua você precisa andar por um corredor com obras de Michelângelo dispostas dos dos lados, formando um corredor de esculturas.

Ao chegar no lugar onde está a estátua você precisa andar por um corredor com obras de Michelângelo dispostas dos dos lados, formando um corredor de esculturas. As duas (não tenho certeza se são só duas ou mais) últimas, logo antes do majestoso Davi, são obras inacabadas do mestre escultor e são tão incríveis quanto a sua obra prima. Porque eu poderia passar horas tentando adivinhar o processo de trabalho dele só olhando as marcas dos utensílios utilizados, as formas ainda indefinidas do que viria a ser o trabalho completo. Espetacular! O Davi é realmente de tirar o fôlego. E as outras obras também. Há uma outra sala onde há uns vídeos mostrando processos de escultores e outras coisas interessantíssimas. Valeu a ida à cidade. 

No mais, passeamos bastante, vimos um pouco do que estava mais acessível, passamos pela Ponte Vecchio, fomos à Piazza Michelângelo, de onde pode-se ver a cidade inteira (primeira foto do post), ouvimos músicos de rua, paramos para admirar as esculturas ao ar livre, os artistas que tentavam ganhar a vida mesmo no frio.

 Este artista passou o dia reproduzindo esta obra de arte no passeio, com giz de lousa. 

Este artista passou o dia reproduzindo esta obra de arte no passeio, com giz de lousa. 

Florença nos recebeu muito bem e manteve suas portas portas abertas pra quando a gente quiser visitá-la de novo. E pelo que estou sentindo de saudades, não deve demorar muito.

[Emilia Romana] Visitando a produção de Aceto Balsâmico e de Presunto Cru em Modena.

Depois da extasiante visita ao Caseifício, pegamos a estrada novamente para ver a produção do aceto balsamico. E passear pela região de Modena, mesmo sem tempo para descer do carro e explorar um pouco mais a região, foi muito agradável. As paisagens passando rapidamente pela janela, a cabeça leve por conta do Lambrusco, a boca ainda guardando o gosto de parmigiano, a família reunida em clima de festa. Posso dizer que por um milésimo de segundo eu tive a mesma sensação das reuniões de final de ano em casa dos meus avós maternos. Felicidade pouca!

 A fachada da Acetaia Villa San Donino. Tava um friozinho tão gostoso...

A fachada da Acetaia Villa San Donino. Tava um friozinho tão gostoso...

A produção de aceto em Modena é famosa e um negócio familiar. As acetaias, como são chamadas as casas das famílias têm produção limitadíssima e o aceto desenvolvido nelas não é em nada parecido com os que são vendidos em larga escala nos supermercados ao redor do mundo. Aqui a produção de uma garrafa de 150ml leva no mínimo 12 anos de envelhecimento, em baterias de barris antigos e históricos, muitas vezes dedicados a cada membro da família. 

 Nossa guia, Eleonora, pronta para nos contar sobre o processo produtivo artesanal do aceto balsâmico. Na frente dela, as baterias. Barris que vão diminuindo de tamanho até chegar a um bem pequeno, que fica na frente da bateria (fileira) e de onde sai o  aceto  finalmente pronto. Estes pedaços de pano tampam a abertura dos barris, deixando que o líquido respire e evapore. 

Nossa guia, Eleonora, pronta para nos contar sobre o processo produtivo artesanal do aceto balsâmico. Na frente dela, as baterias. Barris que vão diminuindo de tamanho até chegar a um bem pequeno, que fica na frente da bateria (fileira) e de onde sai o aceto finalmente pronto. Estes pedaços de pano tampam a abertura dos barris, deixando que o líquido respire e evapore. 

Vistamos a Acetaia Villa San Donino no período do inverno, portanto não nos foi possível ver a colheita das uvas e o processo de fabricação deste líquido negro, viscoso, ácido e doce tão precioso e que guarda tanta história. Mas no vídeo de apresentação da Acetaia e no posterior você pode ver um pouco sobre a produção. 

Diferentemente do que muita gente pensa, o aceto balsâmico apresenta um processo de fabricação distinto do vinho. O mosto de uvas, como a Trebbiano, é separado das cascas, fervido e reduzido. A fervura por longo período garante a evaporação do excesso de água e reduz a possibilidade de bactérias, naturalmente presentes ali, de transformarem o suco obtido em vinho. O resultado disso é um líquido denso, escuro e com alto teor de açúcares, que são quem garantem a coloração do aceto, por meio de sua caramelização gradual durante o contato com o fogo. A gente olha a cor escura do líquido e já pensa que foi feito com uvas vermelhas e com a casca. Totalmente diferente disso!

 Esta é a abertura do barril. O retângulo menor que você pode ver é o reflexo da luz ambiente na superfície do líquido que repousa lá dentro. Dá até pra ver um pedacinho do meu celular. O aroma é incrível!

Esta é a abertura do barril. O retângulo menor que você pode ver é o reflexo da luz ambiente na superfície do líquido que repousa lá dentro. Dá até pra ver um pedacinho do meu celular. O aroma é incrível!

Depois de terminada a redução, o líquido é decantado, escumado e armazenados nas baterias de barris, várias linhas decrescentes de 5 barris, do maior para o menor. A princípio estes barris são alimentados igualmente em termos de nível de líquido (proporcionalmente ao tamanho do barril). Subsequentemente, depois de tempos de evaporação e contato com a madeira - além dos microorganismos presentes em recipientes tão antigos, todos serão reabastecidos com mosto novo, menos o menorzinho, onde primeiro é colocado o mosto do barril imediatamente posterior.  Desde barril menor é de onde sairão as garrafas, especialmente desenhadas e de design patenteado, com o líquido depois de envelhecido por 12 anos, no mínimo. O vídeo abaixo mostra um pouco de como é feito o processo: 

Depois da visita e de toda a explicação sobre o processo de produção artesanal, fomos para a loja da acetaia, onde fizemos uma degustação de acetos de acordo com o envelhecimento. Provamos de várias maneiras: puro, com queijo parmigiano, com sorvete. Eu preferi o mais novinho, de 12 anos. Finalizada a visita, fomos ver os presuntos. Os presuntos!!!

 A primeira vez que te abrem a porta da câmara onde descansam os presuntos é como se você tivesse sido transportado para o céu. Que beleza! 

A primeira vez que te abrem a porta da câmara onde descansam os presuntos é como se você tivesse sido transportado para o céu. Que beleza! 

Chegamos ao Consorcio Prociutto Modena no horário de almoço. Portando, não haviam funcionários nem movimentação no processo de produção pra vermos, como no caso do parmigiano reggiano. Mas isso não impediu que seguíssemos a linha de produção deles para entender o processo de confecção desta delícia que é o presunto cru italiano. O Prociutto di Modena não é tão famoso quanto o de Parma, mas passa pelo mesmo processo de salga, cura e envelhecimento do seu irmão famoso. A única coisa que muda é a demarcação de origem.

 As peças, assim que chegam. Esqueci de dizer no  post  do  Parmigiano Reggiano  que o soro do leite e do queijo - que sobram da produção dos queijos - são usados na alimentação dos porcos que serão abatidos para a produção de  prociutto  e das demais carnes curadas e embutidos italianos. Há uma preocupação de aproveitamento de tudo o que se faz no país. 

As peças, assim que chegam. Esqueci de dizer no post do Parmigiano Reggiano que o soro do leite e do queijo - que sobram da produção dos queijos - são usados na alimentação dos porcos que serão abatidos para a produção de prociutto e das demais carnes curadas e embutidos italianos. Há uma preocupação de aproveitamento de tudo o que se faz no país. 

 Aqui, as peças depois de serem salgadas, numa câmara super fria. Elas passarão por duas salgas, em um período de 20 dias. Depois disso são postas a repousar numa câmara de temperatura controlada, por cerca de 70 dias. 

Aqui, as peças depois de serem salgadas, numa câmara super fria. Elas passarão por duas salgas, em um período de 20 dias. Depois disso são postas a repousar numa câmara de temperatura controlada, por cerca de 70 dias. 

 Depois deste primeiro repouso, as peças são lavadas e seguirão para a fase de  stagionatura,  quando é feita a vedação a parte exposta da carne, chamada de  sugnatura . Essa massa esbranquiçada é uma mistura de gordura de porco, sal e farinha. Tem a função de vedar completamente a peça, como a pele e a gordura fazem com as outras partes. A bolinha no meio é a cabeça do fêmur do animal. Depois disso, a peça permanecerá curando por aproximadamente 14 meses. 

Depois deste primeiro repouso, as peças são lavadas e seguirão para a fase de stagionatura, quando é feita a vedação a parte exposta da carne, chamada de sugnatura. Essa massa esbranquiçada é uma mistura de gordura de porco, sal e farinha. Tem a função de vedar completamente a peça, como a pele e a gordura fazem com as outras partes. A bolinha no meio é a cabeça do fêmur do animal. Depois disso, a peça permanecerá curando por aproximadamente 14 meses. 

Eram tantos pernis de porco pendurados nas câmaras climatizadas que foi impossível saber quantos porcos morreram para que aqueles pernis estivessem lá, tornando-se prociutto. No fim, fizemos degustação do produto e pudemos comprar pedaços (quem me dera comprar uma peça inteira daquilo!) embalados à vácuo pra levar pra casa. Pense numa felicidade? O único arrependimento que tenho é não ter comprado mais de um pedaço pra trazer, mas eu estava preocupada de entrar com tanta comida assim no Sri Lanka, ainda não conhecia o funcionamento da alfândega neste sentido. 

De lá nós saímos, satisfeitinhos, para a última etapa do passeio: um almoço tipicamente italiano. Mas sobre ele escreverei em outro post

 

[Emilia Romana] Visitando a produção do Parmigiano Reggiano.

Quando eu assisti ao episódio sobre o Massimo Bottura na série Chefs Table do Netflix, fiquei morta de vontade de visitar o processo de produção do Parmigiano Reggiano, um dos queijos que eu mais gosto no mundo. Foi esta vontade que definiu nosso início de viagem na Itália por Bologna e eu posso garantir que é um passeio tão interessante que chega a valer pela viagem inteira. 

Depois de muito pesquisar e visitar blogs brasileiros e estrangeiros, TripAdvisor e outras referências sobre a região da Emilia Romana; além de estabelecer alguns contatos pedindo sugestões a pessoas que moravam em Bologna, recebi a indicação da Italian Days. A empresa oferece pacotes diversos com passeios bastante interessantes, entre eles um que unia não só a visita a uma fábrica produtora do queijo, integrante do consórcio que tem a licença para produzir o queijo de nome Parmigiano Reggiano, como também a uma empresa produtora de presunto cru e uma produção familiar de Aceto Balsamico. Quando eu vi este passeio fiquei louca, imaginando como seria legal conhecer de perto o processo de produção destes produtos que eu tanto amo num mesmo dia. Pra arrematar, teríamos um almoço tradicional italiano, com todas as etapas de uma refeição típica italiana.

 Imagina abrir uma roda dessa e comer com os amigos tomando um vinho? Ai... 

Imagina abrir uma roda dessa e comer com os amigos tomando um vinho? Ai... 

O preço pode parece caro, mas eu te digo que vale cada centavo porque você não precisa fazer nada, só curtir, tirar fotos, perguntar tudo o que quiser, provar da produção, comer... E ainda pode visitar lojas das fábricas e comprar pedaços de tudo o que provou pra levar pra casa, a preços mais camaradas. Agora que o Ministério da Agricultura liberou a entrada deste tipo de produtos na malas de turistas ficou perfeito! Pensa só?

Tivemos de acordar muito cedo. O encontro com o motorista da van era pontualmente as 7 da manhã. Como estávamos em Bologna e visitaríamos as fábricas da região de Modena, viajamos um pouco pelas estradas italianas. Estava frio, nossa van só tinha gente da família, então foi super agradável ver um pouco da região interior das cidades italianas, bem como ver o sol despontar preguiçoso no horizonte. 

 Logo em frente ao Caseifício, esperando um grupo de ingleses chegar. Pense num frio?

Logo em frente ao Caseifício, esperando um grupo de ingleses chegar. Pense num frio?

Chegamos ao Caseifício um pouco antes das 8 da manhã e tivemos que esperar um grupo de ingleses que também faria parte do nosso grupo de visitas. Me senti um pouco triunfante de termos, nós brasileiros, famosos por sermos atrasados, deixado os pontuais ingleses para trás. Que bobagem! Estávamos de férias, ninguém tinha de correr. Mas estava frio pra cacete e esperar nestas condições não foi muito legal. Chegado o segundo grupo, fomos recepcionados pela guia que nos acompanharia por todo o dia. Eleonora foi adorável desde o início, sendo especialmente cuidadosa e atenciosa com meu pai, o mais velho da turma. Ela nos explicou como seria nosso dia e começamos. O que segue são as fotos, as informações e muitas saudades deste passeio delicioso que eu faria de novo, sem nenhuma dúvida! 

O Parmigiano Reggiano é o resultado da mistura de 50% de leite desnatado e 50% leite integral, mais soro de leite, além do coalho de origem animal (enzima colhida do estômago de bezerros). O leite é entregue cru, pela manhã bem cedinho, logo depois que é retirado das vacas. O leite que será desnatado é entregue no final da tarde e deixado para descansar, para que a gordura se separe. O processo de retirada da gordura é feito na própria cooperativa e o creme é usado para a produção de manteiga.

As vacas que produzem o leite que dá origem ao queijo são alimentadas dentro de padrões específicos para garantir o sabor e a concessão de D. O. C para o queijo. Os produtores do leite fazem parte do ciclo de produção e suas fazendas estão localizadas na região. Eles entregam seu produto para Caseifícios como este. Além da região demarcada, só pode ser chamado de queijo Parmigiano Reggiano aquele cujo processo de produção obedeça todas as normas. Isso inclui a alimentação, a criação e a ordenha das vacas também. Vamos ver como se faz?

 Este é um dos tachos de produção vazios para vermos sua profundidade. Se você observar as outras fotos, perceberá que parte dos tachos está subterrânea. Sem ver o tacho vazio a gente já acha que ele é enorme. Depois de ver esta imagem é impossível não ficar impressionado. Dá pra umas 6 pessoas tomarem banho neste tacho, com folga. Do lado direito da foto há uma haste. Nela se encaixa um braço de agitação, como o de uma batedeira, para mexer o leite durante parte do processo.

Este é um dos tachos de produção vazios para vermos sua profundidade. Se você observar as outras fotos, perceberá que parte dos tachos está subterrânea. Sem ver o tacho vazio a gente já acha que ele é enorme. Depois de ver esta imagem é impossível não ficar impressionado. Dá pra umas 6 pessoas tomarem banho neste tacho, com folga. Do lado direito da foto há uma haste. Nela se encaixa um braço de agitação, como o de uma batedeira, para mexer o leite durante parte do processo.

  Para fazer um quilo de queijo usam-se aproximadamente 16 litros de leite. A coagulação do leite, ainda cru e misturado nas quantidades que mencionei acima, leva em média uns 10 minutos. 

Para fazer um quilo de queijo usam-se aproximadamente 16 litros de leite. A coagulação do leite, ainda cru e misturado nas quantidades que mencionei acima, leva em média uns 10 minutos. 

 Após a coagulação, um funcionário usa uma ferramenta chamada  Spino , que é como um grande  fouet . Ele ajuda a quebrar a superfície do leite coalhado em pedaços pequenos, como podem ser vistos na foto abaixo.

Após a coagulação, um funcionário usa uma ferramenta chamada Spino, que é como um grande fouet. Ele ajuda a quebrar a superfície do leite coalhado em pedaços pequenos, como podem ser vistos na foto abaixo.

 Aqui, o leite coalhado. Este ainda não é o queijo, não se consegue unir estes pequenos coalhos para que se transformem em massa para queijo. Para isso, será preciso aplicar temperatura e agitação na próxima etapa.

Aqui, o leite coalhado. Este ainda não é o queijo, não se consegue unir estes pequenos coalhos para que se transformem em massa para queijo. Para isso, será preciso aplicar temperatura e agitação na próxima etapa.

 Daí o leite coalhado é aquecido a 55 graus celsius e agitado para que os sólidos se unam com facilidade, formando uma massa borrachenta.  

Daí o leite coalhado é aquecido a 55 graus celsius e agitado para que os sólidos se unam com facilidade, formando uma massa borrachenta.  

 O mestre queijeiro, que tem larga experiência e o único que pode determinar que a massa atingiu o ponto certo, avalia tudo. É um processo manual, minucioso e muito interessante de observar. A mão dele deve estar acostumada com o calor, né? Observe que além do braço agitador, há um termômetro perto dele para o controle da temperatura. 

O mestre queijeiro, que tem larga experiência e o único que pode determinar que a massa atingiu o ponto certo, avalia tudo. É um processo manual, minucioso e muito interessante de observar. A mão dele deve estar acostumada com o calor, né? Observe que além do braço agitador, há um termômetro perto dele para o controle da temperatura. 

 Ele avalia cada detalhe do processo cuidadosamente. Aqui, ele analisa o soro. 

Ele avalia cada detalhe do processo cuidadosamente. Aqui, ele analisa o soro. 

 Até que se atinja este ponto. Veja a diferença. Agora a massa já é elástica e pode ser moldada. Não há gosto de nada a não ser leite, porque o sal ainda não foi adicionado. Esta massa ficará repousando por aproximadamente 50 minutos, até que se una inteira no fundo dos tachos. Daí, ela será removida para que seja moldada. 

Até que se atinja este ponto. Veja a diferença. Agora a massa já é elástica e pode ser moldada. Não há gosto de nada a não ser leite, porque o sal ainda não foi adicionado. Esta massa ficará repousando por aproximadamente 50 minutos, até que se una inteira no fundo dos tachos. Daí, ela será removida para que seja moldada. 

 Assim que a massa está unida lá no fundo, os funcionários usam uma pá, que mais parece um remo de tão grande, e cuidadosamente descolam-na do fundo. Ela vem à tona e é envolvida num pano para escorrer. 

Assim que a massa está unida lá no fundo, os funcionários usam uma pá, que mais parece um remo de tão grande, e cuidadosamente descolam-na do fundo. Ela vem à tona e é envolvida num pano para escorrer. 

 Depois disso eles passam cortando a massa e dividindo-a em dois pedaços iguais, como no vídeo abaixo.

Depois disso eles passam cortando a massa e dividindo-a em dois pedaços iguais, como no vídeo abaixo.

 Os dois pedaços de massa são colocados, primeiramente, nestas formas de plástico branco (como a que está vazia à esquerda). Dentro delas são colocadas informações, em alto relevo, que ficarão impressas nas laterais do queijo. Assim, ele pode ser identificado. Lote, número de série, data de fabricação, coisas deste tipo. Coloca-se um peso por cima, para que a massa se ajuste, tome forma e torne-se compacta.. Depois a roda é colocada nestas formas de aço inoxidável, cheias de furinhos. É nelas que os queijos serão mergulhados numa mistura saturada de água e sal marinho, onde ficarão por aproximadamente 18 dias para que atinjam o teor de sal ideal. 

Os dois pedaços de massa são colocados, primeiramente, nestas formas de plástico branco (como a que está vazia à esquerda). Dentro delas são colocadas informações, em alto relevo, que ficarão impressas nas laterais do queijo. Assim, ele pode ser identificado. Lote, número de série, data de fabricação, coisas deste tipo. Coloca-se um peso por cima, para que a massa se ajuste, tome forma e torne-se compacta.. Depois a roda é colocada nestas formas de aço inoxidável, cheias de furinhos. É nelas que os queijos serão mergulhados numa mistura saturada de água e sal marinho, onde ficarão por aproximadamente 18 dias para que atinjam o teor de sal ideal. 

 Eles são mantidos submersos, para que gradativamente a massa absorva o sal da água. 

Eles são mantidos submersos, para que gradativamente a massa absorva o sal da água. 

 Depois disso os queijos vão para câmaras de temperatura controlada. até que sua casca se torne mais rígida e possa ser transportado para as prateleiras para a maturação.

Depois disso os queijos vão para câmaras de temperatura controlada. até que sua casca se torne mais rígida e possa ser transportado para as prateleiras para a maturação.

 Aqui, os queijos passarão pelo tempo mínimo de maturação, que é de 12 meses. Um máquina enorme passeia por estes corredores de tempos em tempos, virando cada roda de queijo ao contrário da posição original, tomando o cuidado de enxugar e limpar o excesso de umidade que transpira do queijo.  Somente após este período é que os testes dirão se aquele queijo está bom para ser vendido como  Parmigiano Reggiano , ou se será vendido como parmesão comum, ralado ou vendido em pedaços. Caso não passe no teste, a casca do queijo é raspada, para que todas as informações de identificação de controle sejam removidas. Se o queijo for aprovado na inspeção, recebe o último selo - marcado a ferro quente - identificando que aquele queijo é de fato um dos que podem ser considerados "o Rei de todos os queijos". Este processo é o que garante a Denominação de Origem do queijo. Abaixo um vídeo onde mostram como é o teste para saber se o queijo recebe o selo ou se terá as identificações raspadas e vendido de maneira diferente.

Aqui, os queijos passarão pelo tempo mínimo de maturação, que é de 12 meses. Um máquina enorme passeia por estes corredores de tempos em tempos, virando cada roda de queijo ao contrário da posição original, tomando o cuidado de enxugar e limpar o excesso de umidade que transpira do queijo.  Somente após este período é que os testes dirão se aquele queijo está bom para ser vendido como Parmigiano Reggiano, ou se será vendido como parmesão comum, ralado ou vendido em pedaços. Caso não passe no teste, a casca do queijo é raspada, para que todas as informações de identificação de controle sejam removidas. Se o queijo for aprovado na inspeção, recebe o último selo - marcado a ferro quente - identificando que aquele queijo é de fato um dos que podem ser considerados "o Rei de todos os queijos". Este processo é o que garante a Denominação de Origem do queijo. Abaixo um vídeo onde mostram como é o teste para saber se o queijo recebe o selo ou se terá as identificações raspadas e vendido de maneira diferente.

 Depois de muitas perguntas e super felizes, eis que fomos agraciados com este cafézão da manhã. Salame, queijos envelhecidos por 12, e 18 meses pra gente comparar (o de 12 foi meu favorito), além de pães doces e recheados de creme de chocolate. Tudo acompanhado com vinho  Lambrusco , que é também produzido na região. E um bom café, porque ninguém é de ferro! 

Depois de muitas perguntas e super felizes, eis que fomos agraciados com este cafézão da manhã. Salame, queijos envelhecidos por 12, e 18 meses pra gente comparar (o de 12 foi meu favorito), além de pães doces e recheados de creme de chocolate. Tudo acompanhado com vinho Lambrusco, que é também produzido na região. E um bom café, porque ninguém é de ferro! 

Após tomarmos este café reforçado, pegamos novamente nossa van e fomos direto para o Consórcio de Prociutto di Modena. Mas isso será objeto de outro post, porque este daqui já está enorme! 

[Itália] Se eu fosse você, começava sua viagem na Itália por Bologna.

Quando decidimos encontrar meus pais na Itália, automaticamente eu pensei em Modena. A região onde a cidade se encontra me chama a atenção por conta da produção de queijos, presuntos crus e aceto balsâmico. Mas eu também nutro um sonho de comer na Osteria Francescana do chef Massimo Bottura. 

Como eu só penso em comer quando programo uma viagem e, ainda de quebra, gosto de ir a lugares diferentes dos que as pessoas normalmente vão, decidi que seria muito bom começarmos nossa incursão italiana por Bologna. A cidade ainda não entrou no roteiro turístico para estrangeiros e funciona como base para ir a outras pequenas cidades como Modena, Parma, Ímola... Pra quem tem muito tempo dá pra fazer uma senhora viagem só por estes locais, que são cidades produtoras de alguns dos mais festejados ingredientes italianos, além de ser onde ficam as fábricas da Ferrari, Lamborguini e Ducatti. As opções são muitas e é difícil definir o que vai ser o objeto da sua viagem. Tudo vai depender da velocidade que você gosta que ela tenha, da quantidade de pessoas que estão no seu grupo e, claro, do tamanho do seu orçamento. 

 Um resumo da produção da Emilia Romana. 

Um resumo da produção da Emilia Romana. 

Chegamos à Bologna num domingo no início da tarde. Já no aeroporto gastei quase todo o italiano que aprendi previamente. Precisávamos comprar bilhetes para o Autobus, ônibus que faz o trajeto entre o aeroporto e o Centro Histórico. Por algum motivo que já não me lembro mais, não conseguimos comprar os bilhetes com cartão de crédito e tínhamos exatamente 11 Euros na carteira (a passagem pra duas pessoas ficava em 12 euros). Só tínhamos notas de 100, o que complicou um pouco as coisas. Fica a dica de levar notas menores. No fim, tive de ir a uma livraria que há no aeroporto pra poder trocar uma das notas grandes. Acabei comprando um livro muito bom, o Cucina Slow - 500 Ricette della Tradizzione Italiana, da Editora do movimento Slow Food, por 29 Euros. Se era do Slow Food, era garantia de que as receitas seriam bem garimpadas.

Chegar ao hotel usando o autobus foi muito tranquilo. Baixamos, previamente, o mapa da cidade no Google Maps - para usá-lo offline até termos condições de comprar um chip de celular. Foi uma forma econômica e local de chegar ao nosso destino. Hotel localizado, check-in feito, fomos passear. 

 Uma das ruas do labirinto que é a cidade de Bologna. Lugar perfeito pra deixar-se perder e encontrar lugares super-inusitados.

Uma das ruas do labirinto que é a cidade de Bologna. Lugar perfeito pra deixar-se perder e encontrar lugares super-inusitados.

 A cidade é cheia de pórticos. Isso faz com que você possa passear sem maiores problemas, inclusive, em dias de chuva. 

A cidade é cheia de pórticos. Isso faz com que você possa passear sem maiores problemas, inclusive, em dias de chuva. 

 A cada esquina, uma ruazinha te convida a desvendar um novo mundo. Ah, o que eu não faria com um mês pra percorrer esta cidade...

A cada esquina, uma ruazinha te convida a desvendar um novo mundo. Ah, o que eu não faria com um mês pra percorrer esta cidade...

 Bologna é uma cidade universitária. Umberto Eco lecionava na universidade daqui. No meio de um passeio sem rumo, topei com formandos celebrando a conquista com família e amigos. 

Bologna é uma cidade universitária. Umberto Eco lecionava na universidade daqui. No meio de um passeio sem rumo, topei com formandos celebrando a conquista com família e amigos. 

 Vários prédios medievais espalhados por todos os lados e uma atmosfera que mistura o novo com o antigo fez de Bologna uma das minhas preferidas da viagem toda. 

Vários prédios medievais espalhados por todos os lados e uma atmosfera que mistura o novo com o antigo fez de Bologna uma das minhas preferidas da viagem toda. 

Com a fome batendo usei meu foursquare pra ver os restaurantes mais recomendados por perto. E chegamos, depois de uma caminhada bastante pitoresca, à porta da Osteria Dell'Orsa. Lotado, com ares de boteco de fim de noite, daqueles que serve pratos de comida sem frescura, tivemos de esperar por uns 20 minutos até conseguir uma mesa. Como ainda éramos somente eu e meu marido (chegamos 2 dias antes do resto do grupo), pudemos nos dar ao luxo de escolher restaurantes aleatoriamente. Valeu a pena! É um restaurante que serve comida honesta. O Tagliatelle al Ragu deles custava 6 euros e foi o melhor que comi na viagem. As porções de salada e de principais são bem servidas e dá tranquilamente para duas pessoas dividirem. Já a massa é uma porção individual mesmo. Pedimos o vinho da casa e fomos bastante felizes nesta primeira refeição. Inclusive porque pude provar pela primeira vez a Zuppa Inglese, uma sobremesa que havia uns bons 3 anos que estava na minha lista de coisas a serem provadas. Que delícia!!!

 Ao que parece, o restaurante está sempre assim: lotado. Isso significa comida boa, né? 

Ao que parece, o restaurante está sempre assim: lotado. Isso significa comida boa, né? 

No dia seguinte eu fui aprender a fazer Torteloni, uma massa recheada de ricota com parmiggiano e ervas frescas, típica de Bologna. Encontrei, depois de muito pesquisar, a Maribel Angullo do Taste of Italy. Maribel é uma professora excelente, com um inglês muito fácil de compreender.  Ela nos mostrou todas as técnicas de fazer massa fresca, técnicas que eu achava que já sabia por conta da faculdade e descobri que não. O valor da aula é meio salgado, especialmente com a cotação do Real/Euro. Porém, contando os pratos, os petiscos, a visita aos mercados, as dicas da cidade, a comida que você aprende a fazer (contando todas as dicas de preparo que mudaram a minha vida) e que come junto com outros alunos, além da garrafa de vinho, fazem perceber que é um dinheiro bastante bem investido. Essa experiência foi tão boa que decidi fazer aula de cozinha todas as vezes que eu viajar pra um país diferente. Porque você tem uma outra dimensão da cultura do país quando aprende a culinária deles. Recomendo demais!

 Maribel preparando-se para iniciar a aula. Antes disso, fomos ao mercado para comprar os ingredientes das receitas: Tortelloni, Tagliatelli al ragu e, ao meu pedido, Flores de abobrinha recheadas. Ela oferece só a aula (manhã ou tarde) ou a aula + a visita ao mercado, que foi o que eu fiz. 

Maribel preparando-se para iniciar a aula. Antes disso, fomos ao mercado para comprar os ingredientes das receitas: Tortelloni, Tagliatelli al ragu e, ao meu pedido, Flores de abobrinha recheadas. Ela oferece só a aula (manhã ou tarde) ou a aula + a visita ao mercado, que foi o que eu fiz. 

Depois disso, minha família chegou e exploramos a cidade sem pressa. Na primeira noite fomos a uma Taverna super antiga da cidade (de 1465), a Osteria del Sole, onde é preciso levar o que você vai comer porque eles só servem bebidas alcoólicas (menos vinhos e mais espumantes). Foi uma experiência bastante singular ver como os italianos celebram suas conquistas ou mesmo reúnem-se entre amigos pra bater papo. Me lembrou um pouco as farras nos bares do Mercado Central de Belo Horizonte, onde todo mundo se espreme em pé, nos balcões dos bares, pra tomar cerveja "mofada"(com aquela capinha de gelo por fora da garrafa) e comer fígado acebolado, acompanhado de porções de jiló. Chegamos no horário certinho e tinham uns italianos sentados na nossa mesa. Assim que eles nos viram, começaram a rir e brincaram: "Porra, precisavam ser tão pontuais assim?". O lugar estava cheio e eles torciam para que os donos da mesa perdessem a reserva. Não foi desta vez! ;)

Comemos bem, nos hospedamos num apartamento simpático pelo AirBnb e bebemos muito vinho. No segundo dia de viagem em grupo, fomos visitar as produções de Parmiggiano Reggiano, Aceto Balsâmico e Presunto Cru de Modena. Mas sobre eles, escreverei posts separados. 

[Itália] Não importa quantos dias você vai passar por lá. Sempre serão insuficientes...

Estive na Itália há três meses e ainda estou encantada com tudo o que experimentei. A ida a este país sempre fez parte da minha lista de "viagem dos sonhos". Ao mesmo tempo esteve sempre tão distante que, quando comprei as passagens, automaticamente comecei a duvidar que a viagem de fato aconteceria. Ainda bem que tudo deu certo! Foi a minha primeira vez na Europa, muito embora tenha quase ido à França por 3 vezes, sem sucesso. E não deixa de ser interessante que tenha sido justamente a Itália quem tenha me recebido pela porta da frente, com sua gastronomia cheia de amor, família e arte. Descomplicada e simples como uma refeição na casa da sua avó. 

Ao pensar num destino de viagem, a primeira coisa que me vem à cabeça é a comida. Como será? Quais pratos provar? A quais restaurantes ir? Enquanto isso muita gente me aconselhava a não perder os artigos belíssimos de couro que podem ser encontrados pelas ruas do país afora, além de tentarem me convencer a incluir Veneza na viagem, porque a cidade está afundando. Mas eu só pensava em provar pratos específicos, a não ficar pulando de cidade em cidade sem aproveitar nenhuma e fazia a minha listinha de comidas típicas de cada região a ser visitada. Como a "comida italiana" não é algo assim tão misterioso pra ninguém no mundo, a gente tem aquela expectativa de que vai se esbaldar naqueles pratos que "já estamos cansados de comer". Só que eu queria provar os pratos in loco, sem as adaptações que fazemos para agradar aos nossos hábitos, sabores, texturas, aromas e aparências que já temos como referência. Porque quando você tem a oportunidade e ir provar as coisas "na origem", pode perceber as diferenças (muitas vezes sutis) que fazem com que o prato tome uma dimensão completamente única, proporcionando a compreensão daquela cultura de uma forma muito além do que se poderia imaginar no início. Você descobre depois disso que não conhece nem 10% da variedade do que há por lá. Percebe que o que acha que conhece são adaptações. E também descobre que não existe "comida italiana", cada região tem suas especialidades.

Nosso itinerário começou por Bolonha, na Emília Romana. A região é famosa especialmente pela comida e a cidade ainda não é um reduto de turistas estrangeiros. Porém, apesar das informações de que seria difícil encontrar italianos que falassem inglês pra estabelecer uma comunicação satisfatória, não tivemos problemas. Bologna é uma cidade universitária e muitos estudantes trabalham em lojas e restaurantes. Então encontramos quem nos atendesse em inglês com relativa facilidade. Ao mesmo tempo, você consegue perceber, especialmente quando vai pra outras cidades turísticas famosas do país, que Bologna tem uma aura diferente: os turistas que vão pra lá ainda são em sua maioria de outras regiões do próprio país; escutam-se poucos idiomas além do italiano. Não há paus-de-selfie pelas ruas. E algo que particularmente me deu uma sensação de aconchego: consegui me misturar entre os nativos com muita facilidade. Deixei de chamar a atenção como acontece no Sri Lanka e me lembrei como passar despercebida na multidão é bom. Acho que não saberia ser famosa e reconhecível pelos quatro cantos do planeta. O anonimato é uma bênção! Clicando no nome da cidade você poderá ler o texto que escrevi sobre a cidade e saber um pouco mais.

Antes de seguirmos viagem, passamos um dia visitando a produção de 3 dos grandes produtos da região e que são emblemáticos da gastronomia italiana no mundo todo: Parmigiano Reggiano, Presunto cru (de Modena, no caso, que segue praticamente as mesmas regras de produção do de Parma, mas em demarcações distintas) e o Aceto Balsâmico. Tudo isso finalizado com um almoço no estilo italiano, com antipasto, primo piatto, secondo piatto e dolce, além de muito vinho. De morrer!

Da Emilia-Romana descemos para Florença. E antes de chegar na cidade meu coração já doía por saber que seriam só 2 dias e algumas horas nesta cidade cheia de coisas a serem vistas com calma. Florença não é lugar de correria. Uma das cidades mais bonitas que já vi, precisa ser explorada com calma. Por isso a única programação que tínhamos era um passeio pela região vinícola de Chianti. Passeio este meio decepcionante em termos de organização, mesmo que com algumas partes excelentes. De todo modo tudo é experiência e como nós éramos um grupo de 8 pessoas, nossa mobilidade era menor. Uma curiosidade: foi na Toscana onde eu comi a pior lasagna da minha vida! Quem diria, né? 

De Florença o grupo se dividiu e descemos para 4 dias em Roma. E aí o ritmo da viagem acelerou consideravelmente. Descobri que há tantas Romas a serem apreciadas que provavelmente uma só vida seja insuficiente para conhecer todos os seus segredos a fundo. Roma também me provocou ares de familiaridade. Em alguns momentos me lembrou Nova Iorque e sua atmosfera mais cosmopolita. Tantas coisas a fazer, passeios, museus, prédios históricos, restaurantes, pontos turísticos... A cidade te põe numa velocidade diferente por conta de tudo o que você sabe que precisa ver.

Surpreendentemente foi em Roma onde encontrei menos italianos fluentes em inglês. E também foi o lugar onde pudemos experimentar um pouco do mau-humor italiano. Por isso eu cheguei à uma conclusão. Roma deve figurar no fim de uma viagem à Itália, não no começo. Porque iniciando por lá, algum destes ruídos podem contaminar seu humor e a sua percepção de como o país e seu povo podem ser acolhedores e interessados em agradar. A hospitalidade do italiano é algo do qual vou me lembrar para sempre, fazendo com que mesmo os probleminhas que tivemos em Roma se tornassem pitorescos, até porque não foram nada tão difícil de superar. Geraram, inclusive, muitas risadas. 

No meio da passagem por Roma demos uma esticada a Nápoles, onde eu sempre quis ir. A curiosidade pela verdadeira pizza Napolitana e pelas ruelas com varais de roupas espalhados entre os edifícios me guiavam para lá. Mas o objetivo da ida até esta cidade era encontrarmos uma prima que mora há muito tempo no país e que hoje radicou-se numa cidade pequena, perto de Nápoles, com a família. Passeamos um pouco pelo centro histórico, cheio de prédios sendo restaurados, e fomos apresentados a algumas delícias locais. A ruazinhas de varais ficaram para depois. E a pizza? Hahahaha.

No fim, a sensação de que mesmo se morasse no país eu não conseguiria ver tudo o que tenho vontade. Fizemos um amigo, aqui no Sri Lanka, que morou por 17 anos em Roma. Ele diz, categórico, que mesmo viajando com os pais praticamente todos os finais de semana, ainda sim ele não conheceu o país todo. E aí me vem uma afirmação que minha mãe faz toda vez que alguém a elogia pelo gosto por viagens: "Seriam necessárias muito mais que as 7 vidas de um gato para que eu pudesse ir a todos os lugares que tenho vontade." Oxalá eu consiga fazer pelo menos metade do que pretendo. 

[Diário de Bordo] Sobre o choque cultural e os 9 meses de Sri Lanka.

Quando ainda morava em Miami, eu costuma dizer que me sentia num limbo. Porque a cidade não é considerada americana pelos estadunidenses; porque há uma grande migração sul-americana; porque os sul-americanos que conheci eram, em sua maioria, gente desgostosa com seus países de origem e por isso falavam muito mal deles; porque a cidade me parecia artificial demais; porque foi muito difícil fazer amigos fora da comunidade brasileira... Tudo o que eu queria viver era uma experiência americana. Afinal é por isso que a gente mora em outro país, né? Experimentar uma nova forma de viver a vida. Pois, fora as viagens que fizemos e a infraestrutura fantástica que põe tudo o que você quer na sua porta, experimentar o american way of life foi tudo aquilo que não vivi em 3 anos e meio de residência. É claro que Miami me proporcionou coisas muito boas, não sou tola de dizer o contrário. Foi um período, no mínimo, confortável. E eu ainda pude compreender mais as incoerências do modelo "americano" de vida. Mas eu dizia aos meus amigos que achava que morar num limbo era muito difícil e que, por conta disso, eu achava que o choque cultural seria muito mais interessante de lidar. Ledo engano!

Choque cultural é um conjunto de situações que compõem a experiência do expatriado em seu novo lar. Uma sensação de estranhamento muito significativa, que te põe em xeque o tempo todo até que você consiga se adaptar à nova realidade. Leva tempo para se acostumar, ainda mais levando uma vida onde você necessariamente entra mais em contato com outros expatriados que com os locais. Dividido mais ou menos em 4 fases, lua-de-mel, negociação, ajustamento e adaptação; posso dizer que estas etapas fazem um certo sentido. Olhando minhas duas postagens anteriores sobre a vida no Sri Lanka, fica claro que eu estava em lua-de-mel com Colombo. Tudo era lindo, até o feio. Esta fase perdurou até mais ou menos 1 mês depois que mudamos para nossa residência definitiva (os primeiros 4 meses), quando comecei a vislumbrar o que seria o período de negociação.

Casa ao invés de apartamento

Cresci vivendo em apartamentos, estas caixinhas onde você está empilhado sobre outras pessoas, vivendo suas vidas tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Mas me acostumei a isso e chego a pensar que prefiro a vida em apartamentos. Uma casa dá a sensação de maior liberdade, mas com esta liberdade vem o trabalho redobrado. É jardim, mais sujeira pra limpar todo dia, insetos e outros bichos com os quais você não está acostumado. E as casas aqui em Colombo costumam ser muito grandes. Não gosto muito de espaços enormes. Acho desperdício. Quando eu finalmente comecei a enxergar poesia no fato de viver em uma casa, como quando vi a variedade de passarinhos que vêm me visitar no jardim todos os dias, aconteceu algo que me fez fechar pro mundo a minha volta de uma forma muito violenta.

Jurema foi atacada por um pastor alemão da vizinhança. 

Jurema é um cão de energia moderada. Nunca foi de grandes rompantes, com necessidade de correr horrores. Mas está acostumada a passear todos os dias por 3 vezes para cheirar as redondezas. Como um cão cuja raça foi desenvolvida para a caça, isso é algo que a faz muito feliz. Ela não compreendeu muito bem que o jardim era um lugar onde ela poderia passear e fazer suas necessidades. Pra ela aquilo fazia parte da casa e portanto, sem cheiros diferentes e interessantes, muito menos lugar de fazer a sujeira. Passei a passear com ela no quarteirão ao redor da casa e ela gostava muito. Até comecei a fazer amizade com uma musicista local que esteve no Brasil em meados dos anos 80 e que quis me mostrar as fotos da visita dela. Daí, aconteceu o inimaginável.

Fui passear com Jurema no fim da tarde de uma sexta-feira. De repente, apareceu um Pastor Alemão na minha frente. Jurema estava de coleira e correia, toda certinha. O pastor estava solto e sem supervisão. Os dois se encararam, Jurema começou a latir, eu paralisei de medo do cão nos atacar, mas fui puxando ela devagar. Ele chegou perto muito rápido e a atacou. Eu me lembro do barulho da boca dele se abrindo e a pegando até hoje. Por 4 meses, a primeira imagem que via quando fechava os olhos pra dormir era o ataque. Tentei tirá-la da boca do bicho nem sei como, não me ocorreu que ele poderia se voltar contra mim enquanto a atacava. Eu só queria que ele a soltasse. E ele a soltou, finalmente. Ela caiu nos meus pés. Olhei pra ela com medo de vê-la morta. Ela estava muito assustada e com um pedaço grande de pele arrancado das costas. Eu ouvi risos. Olhei dos dois lados e percebi que, enquanto eu tentava salvar meu cachorro, eu tive 3 testemunhas que nada fizeram para ajudar, mas assistiram a tudo rindo muito do acontecido. Do meu lado direito, dois policiais que faziam guarda numa residência oficial. Do lado esquerdo, a dona do Pastor. Eles riam. Eu entrei em pânico. Peguei Jurema no colo com cuidado e desatei a correr em direção à minha casa, deixando os risos para trás. Eu não conseguia compreender como tudo aquilo poderia ter acontecido. Como pessoas poderiam rir de algo tão horroroso. Como podem não ter oferecido nenhum tipo de ajuda. Fiquei em estado de choque.

Jurema foi operada e tudo correu bem. Ela não teve danos internos. O veterinário foi muito habilidoso na sutura e hoje mal dá pra ver a cicatriz. Jurema recuperou-se relativamente rápido e chegou a dar algum trabalho. Enquanto ainda tinha pontos, estava sempre muito agitada. Porém, dois dias depois do ataque, outro capítulo da história me deixou ainda mais assombrada. Três policiais vieram bater em minha casa. Um deles, Inspetor de polícia. Queriam modificar uma audiência, marcada por solicitação do meu marido na delegacia, cujo horário era no meio daquela tarde. A alegação era que a dona do pastor tinha uma consulta para ir e, por isso, precisava que eu aceitasse ir à delegacia no sábado. Eu disse que compreendia o pedido, mas que não poderia deixar meu cão sozinho porque se recuperava da cirurgia. Eles mudaram o tom de recomendação para algo que me pareceu uma ameaça. Digo isso porque outra coisa que eu percebi é que quando um srilanquês não quer ouvir o que você diz, ele dá uma de desentendido e começa a falar a língua local. Um deles veio me dizer que não entendia por que eu havia acionado a polícia se não estava querendo colaborar. Expliquei de novo que eu não podia ir só à delegacia, porque é meu marido quem tem visto de trabalho aqui. Ele teria de ir junto comigo. Quem testemunhou a agressão fui eu, portanto teria de estar presente. E no sábado não haveria ninguém para ficar com Jurema, dar os remédios e supervisionar a pobre. Aí eu comecei a me sentir coagida. O policial ia se aproximando mais de mim tentando se impor. Eu explicava e ele não compreendia de propósito. A dona do cão tinha suas razões eu não podia ter as minhas. Fui ficando sem ar e nervosa. Liguei para o Bruno, que me disse que a polícia comum não pode nos abordar como eles estavam fazendo. Me pediu para pegar os nomes dos policiais e passar pra ele. Quando comecei a anotar, o inspetor ligou para alguém. Bruno disse não desmarcaria audiência alguma, se a dona do cão agressor não podia comparecer, paciência. E me orientou a entrar em casa e não falar mais com os oficiais. Me despedi. O jardineiro que trabalha pra nós estava por perto neste dia para me ajudar com as trocas de idiomas e, assim que eu entrei pra casa, me disse que tudo era muito estranho: "Mam, this is totally nonsense! They can't do this to you!". Assim que eu fechei o portão, pude ver que os oficiais rumaram para a casa da dona do pastor. 

Vim saber depois que a senhora em questão é viúva de um juiz, morto em 2004 numa ação de retaliação a um julgamento por tráfico de drogas. A polícia no Sri Lanka é muito corrupta. E a viúva manda e desmanda nos policiais que tentaram me coagir. Eu comecei a pensar em como isso que eu tinha acabado de viver é tão comum na vida de tanta gente no Brasil. O sentimento é de uma impotência tão assustadora, onde você se torna tão vulnerável que a vontade é de sumir do mundo. Isso quando você não começa a duvidar de si e achar que você pode ter causado tudo aquilo. Como pode alguém ser vítima de algo e vir ser coagida pela polícia em sua própria casa? Eu não parava de chorar. Tudo o que eu queria era viver num apartamento que me fizesse sentir segura, onde eu pudesse esquecer que há vizinhos... Levei um certo tempo para me recuperar do episódio. Jurema foi mais rápida que eu. No fim, tudo acabou bem. A dona do cão não fez nada: quando muito pediu umas desculpas esfarrapadas pro Bruno. Pagar pelo tratamento da Jurema? Nem menção. Depois ainda viemos a saber que ela havia soltado o cão de propósito. Parece que não gostava que eu passasse na porta da casa dela com Jurema. O jardineiro tinha razão. Nonsense!

Conseguimos fazer com que Jurema se acostumasse a sentir que seu passeio seria no jardim. Levou tempo, mas ela também aceitou. Porém, nunca mais pude perguntar pra ela se queria passear, porque a palavra ainda significa ir pra fora de casa. E isso, ao menos aqui, ela não vai fazer mais...

A casa começa a mostrar coisas interessantes

A riqueza de pássaros e vida nativa do país é incrível. Eu já tive visitantes dos mais diversos tipos e cores por aqui. Outro dia vi uma ave pousar no jardim carregando um rato nas garras. O jardineiro disse que se tratava de uma espécie de águia do Sri Lanka. O rato conseguiu escapar. Seguem fotos colhidas na internet dos pássaros que pousaram no meu quintal.

 Fonte: http://feathersofsrilanka.lk/wp-content/uploads/2015/11/IMG_0774-1.jpg

Fonte: http://feathersofsrilanka.lk/wp-content/uploads/2015/11/IMG_0774-1.jpg

 Fonte: http://hackingfamily.com/Flora_&_Fauna/SriLanka/SriLankaBirds.htm

Fonte: http://hackingfamily.com/Flora_&_Fauna/SriLanka/SriLankaBirds.htm

 Fonte: https://www.pinterest.com/pin/424816177326875710/

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 O pica-pau.  Fonte: http://feathersofsrilanka.lk/black-rumped-flameback/ 

O pica-pau.

Fonte: http://feathersofsrilanka.lk/black-rumped-flameback/ 

 A águia que carregava o rato.  Fonte: http://feathersofsrilanka.lk/wp-content/uploads/2015/11/IMG_9177.jpg

A águia que carregava o rato.

Fonte: http://feathersofsrilanka.lk/wp-content/uploads/2015/11/IMG_9177.jpg

 Fonte: http://hackingfamily.com/Flora_&_Fauna/SriLanka/SriLankaBirds.htm

Fonte: http://hackingfamily.com/Flora_&_Fauna/SriLanka/SriLankaBirds.htm

 Este pássaro achamos sendo atacado por corvos. Esta todo depenado e muito assustado. Jurema o viu e o atacou também. Conseguimos recolhê-lo antes que ela conseguisse pegá-lo. Tadinho, gritava tanto. O deixamos num jardim aberto que temos dentro da casa para que se recuperasse. Quando o dia amanheceu ele já tinha ido embora.  Fonte: http://www.mysrilankatours.com/bird-watching-in-sri-lanka/

Este pássaro achamos sendo atacado por corvos. Esta todo depenado e muito assustado. Jurema o viu e o atacou também. Conseguimos recolhê-lo antes que ela conseguisse pegá-lo. Tadinho, gritava tanto. O deixamos num jardim aberto que temos dentro da casa para que se recuperasse. Quando o dia amanheceu ele já tinha ido embora.

Fonte: http://www.mysrilankatours.com/bird-watching-in-sri-lanka/

 Pelas cores dele, achei logo que fosse o Pica-pau do desenho! Um amigo me advertiu que se tratava de um Martim Pescador.  Fonte: http://www.templeberg.com/wp-content/uploads/2014/07/sri-lanka-birdlife-620x275.jpg

Pelas cores dele, achei logo que fosse o Pica-pau do desenho! Um amigo me advertiu que se tratava de um Martim Pescador.

Fonte: http://www.templeberg.com/wp-content/uploads/2014/07/sri-lanka-birdlife-620x275.jpg

Todos os dias, ao por-do-sol, morcegos sobrevoam a região em que moramos. Muitos! Enormes! Lindos de ver. Um monte de sinais de batman no céu.

 Fonte: http://djelab.aminus3.com/image/2008-07-26.html

Fonte: http://djelab.aminus3.com/image/2008-07-26.html

Esquilos estão sempre cantarolando e mandando seus sinais uns para os outros. Subindo e descendo das árvores. 

E eis que apareceu a Margarida, o Water Monitor que eu queria tanto ter visto foi surgir de modo inesperado, quando as chuvas começaram. Margarida deu o ar da graça por 3 vezes. E eu fiquei encantada com o misto de cobra e jacaré passando na porta da minha casa, indo em direção à casa do pastor alemão. Os nativos aqui não têm medo dos lagartões. São muito comuns por toda a cidade. Enormes, podem atingir 2 metros de comprimento. Sabe-se lá quantos quilos. Margarida parecia estar prenha, procurando por um lugar seguro para a desova. 

O fato de trabalhar em casa acaba contribuindo para que eu me isole um pouco do mundo. O caso da Jurema reduziu ainda mais minhas saídas. Mesmo assim, consegui fazer algumas amizades bacanas, pessoas que estando na mesma situação buscam apoiar-se mutuamente, estreitando laços. Mas isso me fez perceber uma coisa: é muito difícil conseguir desabafar em uma segunda língua. As palavras saem mas parecem que não estão conectadas às emoções. Isso me faz sentir muitas saudades da presença dos meus amigos brasileiros. E as saudades do país só aumentam, além da angústia com nosso momento atual. Tudo colabora para que haja maior dificuldade de passagem para a nova fase do choque cultural, que é a do ajustamento. Fico pensando em quando isso vai ocorrer. Enquanto isso, vou descobrindo novos prazeres. Meditação e ioga têm sido uma descoberta incrível!  

Outro dia, eu estava voltando de uma caminhada quando um corvo me deu uma rasante e cagou na minha cabeça. Compreendi na hora que a fase de negociação deveria caminhar para o fim. Resta saber como será a próxima. Shit happens. Move on! 

[Séries de TV] The Mind of a Chef

Essa é uma série de TV feita pela PBS, a televisão pública dos EUA. A proposta é acompanhar o processo criativo dos chefs de cozinha e suas influências, suas atividades no âmbito da cozinha e fora dela. Por ela é possível conhecer um pouco mais de chefs que são expoentes da gastronomia norte-americana. A narração é de Anthony Bourdain.

A primeira temporada é praticamente toda sobre David Chang e seu Momofuku. Mas foi por meio deste programa que eu conheci o trabalho de Christina Tosi, da qual eu já repliquei duas receitas incríveis: o Bolo de Aniversário e a Crack Pie. David mostra suas influências, traz amigos para trabalhar junto a ele em sua cozinha, fala sobre ingredientes asiáticos disponíveis nos EUA e mostra como fazer alguns deles. 

A segunda temporada já se divide mais claramente entre dois chefs, tendência que se mantém nas temporadas subsequentes. Desta vez é possível conhecer um pouco sobre os processos criativos e trabalhos de April Bloomfield, que na verdade é uma chef britânica estabelecida nos EUA e Sean Brock, um chef incrível, interessado em resgatar ingredientes e fazeres norte-americanos. 

A terceira inova ao trazer Magnus Nilson, chef do restaurante sueco Faviken (que também aparece num dos episódios da nova temporada de Chef's Table, do Netflix); além do chef de Louisville, Kentuchy, Ed Lee. O processo de Magnus é incrível, uma vez que ele precisa lidar com o fato de que por 6 meses ao ano ele não terá ingrediente fresco algum para trabalhar. Portanto ele e a equipe atuam com técnicas de preservação incríveis, muito interessantes de acompanhar. Já Ed fala de sua paixão pela cozinha, viaja um pouco (até ir conhecer Francis Mahlmann na Patagônia), e fala sobre o que significa para ele ser cozinheiro. E é claro, mostra seu processo de trabalho.

A quarta e mais recente temporada traz Gabrielle Hamilton e David Kinch. Cada um com suas peculiaridades. Cada um com uma abordagem particular sobre a cozinha. The Mind of a Chef é um dos programas sobre chefs que eu mais gosto, vale a pena comprar os episódios e tê-los à disposição para se inspirar de vez em quando. Ah! E ainda conta com a participação brilhante de Harold MacGee nos episódios! 

É possível encontrar alguns episódios completos no Youtube. Se joga

[Livro] Kitchen Confidencial, do Anthony Bourdain

Esse livro fez Anthony Bourdain famoso, para o bem e para o mal. Houve muita controvérsia quando de seu lançamento e a vida do autor nunca mais foi a mesma. 

 Fonte: https://sanddollaradventures.files.wordpress.com/2010/08/kitchenconfidentialcover.jpg

Fonte: https://sanddollaradventures.files.wordpress.com/2010/08/kitchenconfidentialcover.jpg

O melhor do livro é sua crueza, por assim dizer. A forma como Bourdain aborda o universo dos restaurantes de Nova Iorque pelo lado de dentro da cozinha é o que vale no livro. Li o original em inglês e tive um pouco de dificuldade com alguns termos usados por ele. Nada que o dicionário do Kindle não resolvesse. Esse é um livro que todo interessado em gastronomia profissional deveria ler. Especialmente aqueles que têm vontade de atuar dentro da cozinha de um restaurante. 

O autor fala de uma época onde os chefs ainda não eram as celebridades mundiais que são hoje. E por isso traz um retrato mais fiel do que deverá ser o dia a dia de um novato em uma cozinha profissional. Longe de querer desmotivar aqueles que sonham com a fama e a glória. Mas mesmo aqueles que hoje experimentam a fama nos quatro cantos do mundo tiveram que começar lavando pratos e limpando o chão. 

[Produtos] Sal trufado da Dean and De Lucca

Esse sal trufado eu tenho há tanto tempo! Conheci em 2009, quando estive em Nova Iorque. Comprei e usei até quando me mudei para Miami. Dei o restinho pra minha mãe. Quando estive em NYC novamente, em 2013, corri na loja do Upper East Side (1150 Madison Avenue) só pra comprar de novo. 

 Fonte: Dean & Delucca website

Fonte: Dean & Delucca website

É um sal de finalização. Muito bom para ovos, risotos e massas mais neutros, onde o sabor e o aroma de trufas farão toda a diferença. Dura muito, já que usa-se somente no prato. Você pode pedir também pelo site. Nas lojas de NYC, a única que eu sei ser garantido achar é na do Upper East Side. Eles têm sal de trufas brancas também, mas este eu nunca provei. Se você for na loja, garanto que vai ser difícil sair de lá em menos de 1 hora. Vá com tempo pra passear!

Se eu fosse você, não perdia. 

[Séries de TV] Chefs Table

Na véspera da estréia da segunda temporada de Chefs Table, achei que era hora de rever a primeira temporada e escrever sobre ela. Na verdade eu já a assisti tantas vezes que a estréia da nova temporada foi uma desculpa para ver de novo e, finalmente, escrever sobre minhas impressões. 

 Fonte:Netflix

Fonte:Netflix

A série conta com 6 episódios, cada um centrado num chef diferente. O enfoque vai muito além da comida e o trabalho que elevaram o cozinheiro ao patamar dos grandes da atualidade. É, na verdade, muito mais sobre a história de cada um deles na busca por sua identidade na cozinha e as dificuldades enfrentadas no trajeto de cada um. Em todos os episódios, é possível compreender que definir seu estilo na cozinha pode ser algo árduo, complicado e desestimulador. Na série, os chefs têm um ponto comum além da profissão: todos fizeram o movimento de retorno às suas origens gastronômicas para encontrar sua voz. A busca pelo domínio da cozinha clássica, especialmente a européia, foi apenas o começo de uma jornada de autoconhecimento e muito trabalho, até que aquilo que se estava procurando surgiu como se sempre estivesse presente. 

Alguns episódios me tocaram mais que outros e o sobre Francis Mallman foi omeu favorito, porque eu já conheço o trabalho dele e já tive a sorte de comer num de seus restaurantes. De todo modo a série vale ser assistida inteira, eu gostaria inclusive de comprá-la par ter guardada pra sempre. Um breve resumo dos seis capítulos:

  1. Massimo Bottura: mostra as dificuldades do chef ao desafiar o povo italiano a provar a clássica comida italiana de uma forma totalmente nova e única. O início, onde ele conta sobre como ajudou os produtores de Parmiggiano Reggiano a venderem toda a produção, danificada após um terremoto, é muito interessante!
  2. Dan Barber: Foi a primeira vez que ouvi falar do chef. Me interessei muito pela sua busca incansável no desenvolvimento de produtos orgânicos vegetais cada vez mais saborosos. Unindo forças com os fazendeiros e agricultores que fornecem matéria prima aos seus restaurantes, Dan busca uma maneira de fazer seu restaurantes o mais sustentável possível levando o projeto às raias da obsessão. Recentemente assisti a uma TED dele muito interessante sobre peixes de criadouro.
  3. Francis Mallman: O que o chef tem de egoísta, tem de charme. O homem que cozinha ao ar livre, utilizando técnicas ancestrais de cocção em um pequeno rancho na Patagônia. O domínio que Francis tem do fogo surpreende e é incrível como ele está conectado com a sua terra. Enquanto reles mortais sofrem por falta de facas boas numa cozinha qualquer, Francis cozinha sob a chuva com uma tranquilidade que chega a comover. 
  4. Nikky Nakayama: Eu nunca tinha ouvido falar dessa jovem chef de descendência nipônica e foi interessante acompanhar o processo de criação dos pratos dela, todos inspirados na filosofia Kaiseki. Nikky tem todo o seu background em cozinha japonesa e enfrentou e continua enfrentando muita resistência pelo fato de ser uma mulher chef de cozinha, fazendo comida japonesa. 
  5. Ben Shewry: outro jovem desconhecido chef pra mim, o neozelandês que comanda o Attica em Melbourne, na Austrália. Ele conta como foi difícil começar de fato a cozinhar profissionalmente e o quanto as jornadas extenuantes de trabalho comprometeram sua vida familiar. No fim, a gente percebe que ele parece ter conseguido encontrar um equilíbrio entre os dois. 
  6. Magnus Nilsson: Este foi outro dos meus episódios favoritos. As adversidades que Magnus enfrenta para conduzir o restaurante foram transformadas em vantagens e tudo toma um sentido mágico. Localizado numa região fria e pouco habitada, grande parte dos ingredientes utilizados por ele são conservados de várias maneiras diferentes numa dispensa especial onde ele cura carnes, faz pickles diversos e guarda vegetais das mais diferentes maneiras que se pode imaginar. Conduzir um restaurante num lugar onde nada cresce por 6 meses ao ano é um desafio incrível e eu fiquei imaginando como seria comer num restaurante com uma proposta tão diferente. 

Segunda temporada

Estreou recentemente a tão esperada segunda temporada! Talvez porque trazia Grant Achatz e Alex Atala, e no rastro da excelente Cooked, eu estava realmente animada. Eu estive no DOM quando ele ocupava a 18a colocação no ranking da revista Restaurant. Também já estive em duas casas do Chef Achatz. Além do Astrid & Gastón, em Lima no Peru, estes restaurantes oferecem os melhores serviços que eu já experimentei até então. Para mim, estes episódios eram os mais esperados. 

Depois da maratona dos 6 episódios da primeira temporada(que fiz para escrever o post) eu estava inspirada e assisti aos episódios desta segunda quase que no mesmo dia. E percebi uma grande diferença entre as duas. A nova me pareceu menos excitante.

Vejamos:

 

  1. Grant Achatz: A história de como Grant enfrentou uma sentença de morte por conta de um câncer na língua é incrível, mais ainda como ele conseguiu reverter a situação. Tudo isso com o Alinea recém inaugurado e aclamado como o melhor de Chicago. As técnicas utilizadas por ele, os percalços que enfrentou para encontrar sua voz vanguardista em restaurantes pouco afeitos a novidades tecnológicas, os desafios de continuar chefiando o restaurante enquanto passava por um tratamento pesado contra o câncer... Tudo neste episódio é instigante. Pra mim é o melhor da série. E por isso, acho que deveria ser o último da sequência, muito embora você não seja obrigado a segui a ordem em que estão apresentados. 
  2.  Alex Atala:  O episódio sobre Atala traz um enfoque maior ao trabalho desenvolvido por ele na procura e valorização de ingredientes típicos da amazônia, como as formigas com gosto de capim limão. David Chang está no episódio rasgando todas as sedas para o chef paulista. Você acompanha Alex pescando, caçando, em aldeias indígenas, tratando com produtores, incentivando pequenos produtores a não desistirem dos produtos brasileiros. A parte da cozinha ficou um pouco negligenciada, eu achei. Mas talvez seja justo, uma vez que Atala tem cada vez mais sido um embaixador da cozinha brasileira do que cozinheiro em seu restaurante. Seu sous-chef, Geovane Carneiro, é quem toca a casa de fato. O passado punk, a vergonha de ser brasileiro quando partiu para a Europa e o orgulho de descobrir-se brasileiro quando expatriado são temas explorados na história de como Alex se tornou o expoente que é da cozinha brasileira.
  3. Dominique Crenn: Outra novidade pra mim. A chef abriu seu restaurante em 2010 e foi a primeira mulher a conquistar 2 estrelas Michelin nos EUA. Um feito e tanto! Este episódio tem um enfoque bastante íntimo, de como a chef enveredou pela cozinha. Sua relações familiares, as memórias da infância, o amor pelo pai, a abordagem afetiva de seu restaurante e a busca por si mesma. Deu vontade de ser amiga dela e de morar em São Francisco pra frequentar o Atelier Crenn.
  4. Enrique Olvera: Eu nunca fui ao México, o que é uma pena. E conhecer um pouco sobre o trabalho deste chef foi muito bacana. A história é um pouco parecida com as dos chefs não europeus/ norte-americanos: só deslanchou na cozinha quando aceitou suas raízes mexicanas. O restaurante Pujol serve hoje tacos e moles, inclusive um chamado 895 dias, de cor preta e sabor extremamente complexo, por conta da quantidade de ingredientes e do tempo de maturação. Pratos lindos, ingredientes maravilhosos e muita cultura mexicana no episódio. Deu vontade de ainda estar morando em Miami, só pra entrar no primeiro avião e ir ao México cumprir mais uma das viagens que eu sonho fazer. 
  5. Ana Ros: A história de uma quase diplomata que se tornou cozinheira por amor ao marido e por um acaso do destino. Parece até um conto de fadas moderno a história desta chef eslovena, que aprendeu a cozinhar literalmente na marra. Achei bacana que a série continue voltando suas câmeras para trabalhos não tão conhecidos, privilegiando as histórias de superação que só a cozinha proporciona. O trabalho de Ana parece muito consistente e visualmente incrível. E o mais legal de tudo é que ela está colocando a Slovênia no mapa da gastronomia mundial com o trabalho que desenvolveu. Vale demais!  
  6. Gaggan Anand: Um chef indiano que utiliza técnicas modernas de cozinha nos pratos tradicionais, mas que ainda sonha em ser aceito e reconhecido em seu país de origem. Pelo que o chef conta, a Índia é como a Itália: nenhuma comida é melhor que a da mãe. O indianos são tão tradicionais quanto aos seus pratos que não vêem o trabalho de Gaggan como algo autêntico. Se bem que, com toda a invasão da indústria de alimentação sobre o país nos últimos tempos, seus conterrâneos deveriam ser mais complacentes com o moço. Se aceitaram comer macarrão, pizza e frango frito por falta de tempo... E olha que ele conta sobre como o Curry, uma invenção inglesa; e o Naan, que na verdade é Persa, tomaram conta do imaginário mundial do que é a comida indiana real. O mais interessante é que o restaurante do chef fica na Tailândia e foi eleito o número 1 na lista de restaurantes asiáticos da revista Restaurant. Creio ser uma questão de tempo até que seu país acolha suas criações e se orgulhe do que ele fez. 

Como Chef's Table é uma série que demanda tempo de produção e parece ser bastante cara, acredito que manterão o ritmo atual. Se esta suspeita se confirmar, teremos uma 3a temporada somente em 2018. Estarei aguardando ansiosamente! 

[Cinnamon Experience] conhecendo a Canela Real do Ceilão.

O Sri Lanka é um dos maiores produtores de canela do mundo. Quando falamos da canela verdadeira, então, é o maior produtor e o país de origem. O que é Canela verdadeira? Isso pressupõe que a outra seja falsa?

A canela da china que conhecemos no ocidente é outro tipo de canela. São árvores "primas", mas enquanto a canela da china é produzida em larga escala e é mais barata, a canela real do ceilão é produzida aqui no Sri Lanka, em produção artesanal. Quando comparamos as duas vemos que as diferenças são gritantes, tanto na aparência, quanto no aroma e no sabor. A da china é mais firme e grossa, com cor intensa e aroma forte. A do Ceilão é mais clara, fina e seu aroma é muito sutil e doce. O sabor também é bem diferente, com a da China sendo muito terroso e punjente, enquanto que a do Ceilão é picante e doce, muito parecido com o sabor dos chicletes de canela que a gente tem no Brasil.

 Canela da china à esquerda, Canela Real do Ceilão à direita. 

Canela da china à esquerda, Canela Real do Ceilão à direita. 

 Aqui dá pra perceber melhor as diferenças: enquanto a canela da china possui uma casca grossa e cor mais intensa, a Canela Real do Ceilão tem a casca fina e é enrolada como se fosse um charuto, com camadas sucessivas da casca. 

Aqui dá pra perceber melhor as diferenças: enquanto a canela da china possui uma casca grossa e cor mais intensa, a Canela Real do Ceilão tem a casca fina e é enrolada como se fosse um charuto, com camadas sucessivas da casca. 

A canela da china é conhecida como Cinnamomum Cassia, cuja árvore pode atingir 15 metros de altura. Tem o caule grosso e lenhoso enquanto que a Cinnamomun verum é uma árvore mais baixa e de caule bem mais fino que a espessura de uma cana de açúcar.  

 Canela da China. Fonte: https://pbs.twimg.com/media/CWNm64bU8AAaF9i.jpg

Canela da China. Fonte: https://pbs.twimg.com/media/CWNm64bU8AAaF9i.jpg

 Plantação de canela do Ceilão.

Plantação de canela do Ceilão.

Fui visitar uma fazenda de canela do Ceilão e acompanhei todo o processo de produção para o blog. A fazenda é também um hotel-butique, oferecendo passeios interessantes. O restaurante deles trabalha pratos e bebidas feitos com canela. Uma boa forma de mostrar a versatilidade desta especiaria. Valeu a pena ter participado do passeio! 

 Folhas da canela. Algumas apresentavam estas "verrugas". Eu tirei uma e senti o cheiro bem leve da canela nas folhas. 

Folhas da canela. Algumas apresentavam estas "verrugas". Eu tirei uma e senti o cheiro bem leve da canela nas folhas. 

 Depois de cortados os caules, o artesão senta-se sobre uma esteira e começa a preparação para a extração da canela. 

Depois de cortados os caules, o artesão senta-se sobre uma esteira e começa a preparação para a extração da canela. 

 O primeiro passo é raspar toda a parte exterior da casca do caule, usando um utensílio em formato de bumerangue. É só uma retirada de "pele" mesmo, como uma esfoliação. 

O primeiro passo é raspar toda a parte exterior da casca do caule, usando um utensílio em formato de bumerangue. É só uma retirada de "pele" mesmo, como uma esfoliação. 

 Raspa do caule. 

Raspa do caule. 

 A segunda etapa consiste em esfregar firmemente uma ferramenta cilíndrica sobre o caule, como que para soltar a casca a ser cortada posteriormente. 

A segunda etapa consiste em esfregar firmemente uma ferramenta cilíndrica sobre o caule, como que para soltar a casca a ser cortada posteriormente. 

 Depois de terminada a preparação, começa-se a extração da canela. O artesão começa pelo meio do caule, fazendo cortes de aproximadamente 20cm no sentido do comprimento. Depois corta em torno do caule, em cima e embaixo deste primeiro corte e solta a casca que depois de seca será a canela. 

Depois de terminada a preparação, começa-se a extração da canela. O artesão começa pelo meio do caule, fazendo cortes de aproximadamente 20cm no sentido do comprimento. Depois corta em torno do caule, em cima e embaixo deste primeiro corte e solta a casca que depois de seca será a canela. 

 As ferramentas utilizadas pelos artesãos da canela. Da esquerda para a direita: o raspador, a faca de corte e extração da casca e o bastão de tratamento da casca, antes da retirada. 

As ferramentas utilizadas pelos artesãos da canela. Da esquerda para a direita: o raspador, a faca de corte e extração da casca e o bastão de tratamento da casca, antes da retirada. 

 Alguns pedaços menores da casca se desprendem durante o processo. É neste momento que o artesão começa a rechear as cascas perfeita da canela com estes retalhos, até que ela se pareça com um charuto. 

Alguns pedaços menores da casca se desprendem durante o processo. É neste momento que o artesão começa a rechear as cascas perfeita da canela com estes retalhos, até que ela se pareça com um charuto. 

 Aqui o charuto já preparado. Abaixo, um vídeo com parte do processo e explicações do proprietário e seus funcionários. 

Aqui o charuto já preparado. Abaixo, um vídeo com parte do processo e explicações do proprietário e seus funcionários. 

 Depois de assistirmos ao processo de produção, fomos ao galpão onde as canelas são armazenadas para a exportação. Se fosse canela da china, penso que seria impossível permanecer num galpão cheio delas. Mas como a do Ceilão possui um aroma muito mais suave, estar na presença de tanta canela junta foi muito tranquilo. Um leve cheirinho de madeira com especiaria no ar. 

Depois de assistirmos ao processo de produção, fomos ao galpão onde as canelas são armazenadas para a exportação. Se fosse canela da china, penso que seria impossível permanecer num galpão cheio delas. Mas como a do Ceilão possui um aroma muito mais suave, estar na presença de tanta canela junta foi muito tranquilo. Um leve cheirinho de madeira com especiaria no ar. 

 Todo o processo feito na fazenda é artesanal. Funcionando como uma cooperativa, os funcionários ganham seus salários como num sistema de distribuição de lucros. Aqui, as senhorinhas que costuram as embalagens de socos de sisal para exportação. 25 quilos de canela! 

Todo o processo feito na fazenda é artesanal. Funcionando como uma cooperativa, os funcionários ganham seus salários como num sistema de distribuição de lucros. Aqui, as senhorinhas que costuram as embalagens de socos de sisal para exportação. 25 quilos de canela! 

Em tempo: se você ficou se perguntando o que fazem com o caule descascado da canela, respondo: palitos de dente! 

 Fonte: http://i.ebayimg.com/00/s/NTAxWDUwMQ==/z/kV0AAOxyn~pRz4Z6/$(KGrHqJ!oQFG)iRKmGBRz4Z53eh!~~60_35.JPG?set_id=880000500F

Fonte: http://i.ebayimg.com/00/s/NTAxWDUwMQ==/z/kV0AAOxyn~pRz4Z6/$(KGrHqJ!oQFG)iRKmGBRz4Z53eh!~~60_35.JPG?set_id=880000500F

Dados da visita: 

Fazenda Villa Mayurana (clique no nome da fazenda para acessar o site - em inglês)

PELASSA ROAD - SANTHOSAGAMA
AHANGAMA, SRI LANKA

 

[Filmoteca] Em busca de General Tso

"Em busca de General Tso" é um filme muito interessante. O documentário gira em torno do prato "chinês" mais consumindo nos EUA, o "Frango ao General Tso". Consiste em cubos de peito de frango empanados e fritos por imersão, envolvidos em molho doce e apimentado, acompanhado de mini-buquês de brócolis americano. 

Mostra como os chineses que migraram para os EUA, para trabalhar nas plantações da Califórnia, viram-se obrigados a trabalhar em restaurantes chineses depois de perderem o emprego e enfrentarem muito preconceito por parte da população local. Conta como os pratos tradicionais chineses deram lugar à adaptações e novas criações. Hoje, fortemente ligadas à cultura da comida chinesa nos Estados Unidos, estes pratos não são reconhecidos na China como sendo chineses de fato. Uma das criações americanas e que todo mundo jura que é chinesa (inclusive no Brasil), são os biscoitos da sorte. E o Frango ao General Tso.

 Fonte: http://236izu11yygk2uo6po3yerii7d6.wpengine.netdna-cdn.com/wp-content/uploads/2014/12/general-tso-poster.jpg

Fonte: http://236izu11yygk2uo6po3yerii7d6.wpengine.netdna-cdn.com/wp-content/uploads/2014/12/general-tso-poster.jpg

Assistir ao filme é muito bacana, especialmente por quem se interessa por comida e história. A busca da origem do prato passa pela China e chega até Taiwan, onde o mistério começa a ser esclarecido, não sem uma boa dose de ironias do destino e desonestidade criativa. Vale demais conferir! 

[Memphis] A cidade que revelou Elvis Presley ao mundo é muito mais do que apenas a cidade do Rei

Tivemos a oportunidade de ir a Memphis duas vezes. Na primeira, quando terminamos uma viagem de barco à vapor subindo o Rio Mississippi. Nesta ocasião, tínhamos apenas um dia na cidade e claro que resolvemos fazer o passeio em Graceland! Embora muita gente diga que a casa é de gosto duvidoso, a visita ao lugar onde Elvis Presley viveu proporciona muito mais do que se imagina. A infraestrutura montada para receber os turistas é muito semelhante à encontrada na Disney. É um complexo incrível, mistura de museu e parque de diversões capaz de converter até os mais desconfiados.

 A fachada de Graceland.

A fachada de Graceland.

A casa é incrível! Transformada em museu, é um lugar pra celebrar a vida de um dos maiores expoentes do Rock n Roll. O segundo andar - onde fica o banheiro onde ele faleceu - não está aberto à visitação pública, decisão que considerei muito acertada. O tour vale demais e é importante fazê-lo no seu próprio ritmo para não perder os detalhes da decoração e procurar capturar um pouco do que era a intimidade do Rei do Rock. No fim do itinerário, eu confundi o barulho da fonte com aplausos e me emocionei muito. Coisa de fã. Recomendo fazer a visita à casa principal logo na primeira hora de abertura. Embora a sede tenha lotação máxima observada e as pessoas sejam divididas em grupos por horário, se você chegar no momento da abertura, garantirá mais tempo pra curtir a etapa principal do parque.

Um dia é tempo suficiente para conhecer Graceland, mas dois dias seriam o mais indicado pra quem é muito fã. Há hotéis perto do complexo, alguns inclusive fazem parte dele. Além da casa, são inúmeros galpões e salas onde é possível ver os carros que ele tinha; os figurinos utilizados e sua evolução até aqueles famosos, inspirados em quimonos, da temporada de Las Vegas; os instrumentos utilizados por ele; os prêmios que Elvis ganhou; vídeos e mais vídeos sobre ele (programas de TV, entrevistas, filmes de Hollywood, filmes caseiros...); os aviões totalmente transformados por dentro; além das indefectíveis lojinhas com os mais diversos souvenires

 A porta de entrada da  Sun Studio . 

A porta de entrada da Sun Studio

De lá, você pode pegar um microônibus da Sun Studio e ir visitar a gravadora onde Elvis gravou seu primeiro single. Há um tour disponível, em inglês, para conhecer as instalações, ouvir as gravações (inclusive uma das primeiras do Rock 'N' Roll), além de poder visitar a sala onde Elvis, Johnny Cash, Roy Orbison e Jerry Lee Lewis, entre outros, gravaram seus discos. O Studio tem um microfone antigo, que os funcionários juram de pés juntos ser o mesmo utilizado por Elvis. A sala onde ele está também permanece original quando daquela época. Emoção pura!

 A parte principal da Sun Studio que hoje funciona como um museu. Um lugar pra tomar um café ou uma cerveja e comprar  souvenires . Não deixe de fazer o  tour!!!

A parte principal da Sun Studio que hoje funciona como um museu. Um lugar pra tomar um café ou uma cerveja e comprar souvenires. Não deixe de fazer o tour!!!

Como tínhamos somente um dia na cidade, foi o que conseguimos fazer, além de passar rapidamente pela Beale Street só pra ver como era. Um ano e meio depois, tivemos a oportunidade de voltar à cidade, numa viagem complementar à do barco. Desta vez fizemos o itinerário no sentido contrário, incluímos Chicago, Tupelo e Clarksdale com parte da Rota do Blues, até chegar a New Orleans. Tudo isso usando trem e carro. Aproveitamos pra voltar à famosa Beale Street, rua de bares com música ao vivo, onde tudo acontece. BB King montou um bar que ainda funciona por lá e há outros bares temáticos. Paga-se para entrar na maioria deles, como um couvert artístico. Na Beale Street você poderá conhecer um pouco da atmosfera da Memphis atual, que ainda flerta bastante com o passado de glória e música.

  Beale Street  à noite.

Beale Street à noite.

Importante dizer que na maioria destes bares ouve-se música muito boa, mas as opções de drinks são poucas e em sua maioria preparados com misturas pré-prontas. O resultado final é medíocre. Quanto aos petiscos oferecidos, não chegam nem perto do que nós, brasileiros, estamos acostumados a comer num bar. Melhor jantar antes de ir e curtir só a música e a cerveja. 

 Banda que assistimos no   Rum Boggie Café   na  Beale Street.

Banda que assistimos no Rum Boggie Café na Beale Street.

Pertinho desta rua há uma das fábricas da Gibson, onde você pode visitar o processo de produção e ver algumas guitarras sendo construídas em tempo real. É importante reservar com antecedência, por motivos óbvios! E vale a ida. A maior fábrica da marca está em Nashville, onde não conseguimos ir por falta de tempo, infelizmente. Para os que gostam de música Country, assim como a Trilha do Blues existe demarcação para a Trilha da música Country. Eu gostaria de fazer mais trechos destas rotas. Achei uma boa maneira de viajar pela história da música americana. 

Logo mais adiante há um museu sobre música, o Rock N'Soul, que faz parte dos museus da rede Smitsonian. Infelizmente não pudemos ir, escolhemos ir a um museu de Soul Music mais distante, cujo prédio era histórico. Seria uma oportunidade de conhecer os arredores do centro da cidade, também. 

 Entrada da fábrica de Memphis. Nesta fabricam-se guitarras. É uma unidade pequena, a maior delas funciona em  Nashville  que infelizmente ficou de fora desta viagem.

Entrada da fábrica de Memphis. Nesta fabricam-se guitarras. É uma unidade pequena, a maior delas funciona em Nashville que infelizmente ficou de fora desta viagem.

Estou me referindo ao Stax Museum que fica uns 10/15 minutos distante do centro. Lá é possível conhecer um pouco mais da história da Soul Music americana. Há muitos vídeos, figurinos e equipamentos de estúdio, num acervo muito bem catalogado e disponível para os fãs de música. Vale a pena! Andar na cidade é muito fácil e há Uber disponível pra vencer as distâncias maiores. Tudo muito simples e você ainda pode conversar um pouco com o motorista sobre a cidade. 

Memphis ainda é a cidade onde Aretha Franklin nasceu. Até passamos em frente da casa da sua família, mas ela está fechada e parece abandonada. Mas a cantora só viveu os dois primeiros de sua vida ali. A cidade é, também, onde All Green é reverendo numa igreja depois de ter largado a indústria fonográfica. Não conseguimos ir assistir à uma missa celebrada por ele, dizem que é algo espetacular. A igreja fica bem distante do centro da cidade e está aberta ao público. Uma pena termos perdido essa! Isso tudo entre vários outros fatos que fazem com que a cidade seja um lugar de muito passeio e diversão para os fãs de música. Tenho motivos suficientes para voltar à cidade uma terceira vez e acredito que isso vai acontecer mais cedo do que imagino. Aguardemos.

 Placa do Motel Lorraine, última hospedagem de Martin Luther King Jr.

Placa do Motel Lorraine, última hospedagem de Martin Luther King Jr.

Mas gostar de música não é o único motivo que me trouxe aqui. O Museu Nacional dos Direitos Civis é um dos marcos na minha vida. Desde criança que o tema da escravidão, marginalização e a luta por direitos iguais da comunidade negra no mundo todo me chama a atenção. E este museu sempre esteve entre os lugares que eu queria visitar um dia. Foi a realização de um sonho. Mais até do que visitar Graceland

  A fachada do Motel.

 A fachada do Motel.

Eu imaginava que o museu era sobre Martin Luther King Jr, já que foi erguido no mesmo motel onde ele fora assassinado. Mas descobri que, como o próprio nome diz, é um lugar que celebra a memória de todos aqueles que lutaram e lutam por igualdade nos EUA.

 Um dos inúmeros cartoons sobre a desigualdade entre negros e brancos nos EUA, dentro do  National Civil Rights Museum.

Um dos inúmeros cartoons sobre a desigualdade entre negros e brancos nos EUA, dentro do National Civil Rights Museum.

É uma celebração do trabalho ao qual MLKJr se dedicou até a morte. Ele estava na cidade para apoiar um movimento grevista de trabalhadores da área de saneamento. Foi assassinado um dia depois de um discurso onde ele mencionou um atentado que sofreu muito tempo antes e de como ele estava feliz por não ter morrido naquela ocasião. O fim do discurso foi assim: 

And they were telling me, now it doesn’t matter now. It really doesn’t matter what happens now. I left Atlanta this morning, and as we got started on the plane, there were six of us, the pilot said over the public address system, “We are sorry for the delay, but we have Dr. Martin Luther King on the plane. And to be sure that all of the bags were checked, and to be sure that nothing would be wrong with the plane, we had to check out everything carefully. And we’ve had the plane protected and guarded all night.”

And then I got to Memphis. And some began to say the threats, or talk about the threats that were out. What would happen to me from some of our sick white brothers?

Well, I don’t know what will happen now. We’ve got some difficult days ahead. But it doesn’t matter with me now. Because I’ve been to the mountaintop. And I don’t mind. Like anybody, I would like to live a long life. Longevity has its place. But I’m not concerned about that now. I just want to do God’s will. And He’s allowed me to go up to the mountain. And I’ve looked over. And I’ve seen the promised land. I may not get there with you. But I want you to know tonight, that we, as a people, will get to the promised land. And I’m happy, tonight. I’m not worried about anything. I’m not fearing any man. Mine eyes have seen the glory of the coming of the Lord.

Muitos acreditam que MLKJr previu sua morte. Mas uma pessoa que vivia sendo perseguida e ameaçada, além de ser alvo de investigações e ameaças do FBI não poderia agir de outra maneira. No dia seguinte, foi morto por um tiro disparado do prédio em frente ao motel, quando estava na varanda perto da porta. 

O museu compreende o Lorraine e o prédio de onde o assassino disparou. O motel concentra a história dos negros nos EUA, desde a chegada ao país como escravos, passando pela Guerra Civil Americana, a abolição da escravatura, a vida nas fazendas de algodão como empregados e outros pontos importantes, até a morte do reverendo. O prédio de onde o tiro foi disparado preserva o quarto onde o assassino estava hospedado e o banheiro de onde ele disparou a arma. Neste prédio, além de você poder olhar pela janela vizinha àquela onde a arma estava colocada e visualizar a trajetória da bala que matou King, ainda é possível visitar uma linha do tempo que tenta esmiuçar a investigação de sua morte, não omitindo a possibilidade de o reverendo ter sido eliminado por ordem do governo à época. O fim da exposição é a ascendência de Barack Obama à presidência dos EUA. 

O museu é um dos mais importantes que já visitei na vida. É um lugar onde eu senti que a luta por aquilo que acreditamos não só é possível, como necessária. Que nós, por mais anônimos que sejamos não somos desimportantes na luta por direitos e cidadania, e sim protagonistas dela. Saí de lá emocionada e muito agradecida por ter podido voltar à cidade e fazer esta visita. Deixei Memphis uma pessoa muito melhor do que cheguei. E por isso serei eternamente ligada à esta cidade. Quer um conselho? Vá e reserve pelos menos 5 dias para curti-la com tudo o que tem direito. Valerá demais, tenha certeza!

[Diário de Bordo] Os três primeiros meses em Colombo

Dia desses eu fiquei com uma vontade incrível de rever Lost in Translation (no Brasil, Encontros e Desencontros) de Sophia Coppola. Depois de 3 meses vivendo aqui no Sri Lanka eu posso dizer que me sinto um pouco como a personagem de Bill Murray nessa cena engraçadíssima do comercial de uísque.

No início eu me surpreendi com a quantidade de gente falando inglês que encontrei aqui. Mas depois eu percebi que isso se devia ao fato de eu estar hospedada numa área hoteleira, onde circulam muitos turistas. Depois que nos mudamos para nossa casa, encontrei as dificuldades de comunicação sobre as quais eu já havia lido em sites sobre o país. Daí que se tornou muito comum eu precisar de um intérprete para me comunicar com as pessoas no dia a dia e passei a me sentir assim: peço algo muito simples e a tradução é quase um parágrafo. A conversa entre meu intérprete e a outra pessoa dura tanto tempo e nunca corresponde, em tamanho, à informação que recebo. É uma sensação não muito agradável. Vou acabar tendo de me inscrever num curso de Sinhala, a língua mais falada por aqui. 

O Sri Lanka é um país onde falam-se 3 línguas: o Sinhala, o Tamil e o inglês (esta última não é oficial). Como os ingleses foram os colonizadores mais recentes, ainda há quem fale inglês por aqui, mas isso se restringe às pessoas que tiveram acesso à uma educação melhor e que moram nos grandes centros ou as que trabalham no setor de hospitalidade. Portanto, não é tão fácil assim se comunicar por aqui. É claro que as pessoas que lidam mais com turistas acabam compreendendo um pouco do inglês e facilitando um pouco a vida, mas mesmo assim é algo muito limitado. Nestes três meses ainda oscilei bastante entre o turístico e o local. Aos poucos estou descobrindo os meus lugares favoritos para tomar um chá, comprar roupa, procurar itens para organizar melhor a casa, o melhor veterinário pra Jurema... Acho que essa oscilação vai existir por um bom tempo, até que eu me sinta totalmente em casa e orientada na cidade. Até lá, tenho muito o que aprender. 

Mão inglesa

Aqui o trânsito funciona ao contrário. A direção dos veículos fica do lado direito e a faixa em que dirigimos é a esquerda. Ainda não me aventurei ao volante, embora já esteja de posse de minha habilitação. Mas ainda estamos sem carro, que compramos da fábrica e será enviado para nós apenas em junho. Desta maneira, tenho utilizado o sistema de transporte deles aqui. Ainda não peguei ônibus, eles costumam ficar tão lotados que não sei se vou animar a ter essa experiência. Caso a se pensar. De toda forma a gente experimentou o trânsito como pedestre logo de início e posso dizer que até se acostumar com as regras novas você toma muitos sustos e experimenta uma zonzeira como se fosse cair a qualquer momento. A experiência te bagunça de um jeito que você sente literalmente que o chão esta te atraindo pra um imenso tombo. Levou mais ou menos uma semana para essa sensação deixar de existir. 

Tuk-tuks

Uma das coisas que demorei um pouco pra experimentar foram os tuk-tuks. Logo que cheguei descobri, para minha surpresa, que aqui também tinha Uber. Como eu estava meio incomodada com o trânsito caótico e do lado contrário, resolvi utilizar os serviços do aplicativo, já que o preço de uma corrida de Uber é praticamente o mesmo de uma de tuk-tuk. Por conta disso, só fui começar a andar nos triciclos depois do primeiro mês. O que me fez decidir usá-los de vez foi o fato de que eles acabam sendo mais ágeis e rápidos, fazendo a corrida ser menos longa. Você consegue ter uma idéia do por que no vídeo abaixo. 

Serviços bancários

Há mais de 10 anos que eu não sei o que é precisar lidar com funcionários de banco. Principalmente no Brasil, onde resolvia tudo por internet banking ou sacando dinheiro nos caixas eletrônicos. Já em Miami tive de lidar um pouco com estas instituições financeiras porque nos EUA pagam-se taxas cada vez que se tira dinheiro de caixas eletrônicos. Uma média de 3 dólares para cada saque de até 200 dólares. Para evitá-las, eu sacava meu dinheiro no banco. Mas era um processo relativamente rápido. Já aqui no Sri Lanka eu abri uma conta num banco só para poder passar raiva. Até agora eu não consegui fazer nada a não ser sacar dólares pra depois trocá-los em casas de câmbio. A última vez que tentei pagar uma conta passei mais de 1 hora tentando compreender por que o banco não podia receber o pagamento. Tratava-se de uma conta de valor alto, de eletricidade. Eu procurei o banco porque queria me sentir mais segura em manusear a quantia que eu carregava. mas o banco não recebe dinheiro em espécie. Aliás, até recebe. Quando fiz o depósito na conta que abri eles receberam a grana. Mas pagamento de contas eles não recebem de jeito nenhum! Tenho de fazer meus pagamentos nas concessionárias ou em alguns pontos espalhados na cidade, onde não há privacidade. Complicado... É quando você começa a seguir uma rotina semelhante de onde você morava antes que as diferenças culturais aparecem e o famoso Choque Cultural dá as caras. 

Valor do dinheiro

 As rúpias srilanquesas.

As rúpias srilanquesas.

Cada dólar compra 146 Rúpias Srilanquesas, em média. Falo de dólar porque era a moeda com a qual eu estava acostumada a lidar até 4 meses atrás. Por conta dessa disparidade de valor eu estava achando tudo aqui muito barato e tinha perdido completamente a noção do valor do dinheiro. Por exemplo: os tuk-tuks funcionam como um táxi. Têm taxímetro. Mas há alguns deles que ou simplesmente não têm o aparelho medidor ou têm, mas quando atendem estrangeiros não o utilizam. Eu custei a perceber isso e achava que tinha que negociar o preço da corrida a cada triciclo que contratava. E independente do trajeto e da distância, o preço que me cobravam eram sempre 200 rúpias. Comecei a achar estranho, mas pensava que não tinha nada de mal, porque este valor não dá nem 2 dólares. Mas daí eu comecei a compreender que eu tinha de saber o valor do dinheiro aqui, como um local. Foi quando, por curiosidade, resolvi converter os valores em rúpias para o Real Brasileiro. E daí comecei a ver que os preços aqui são relativamente semelhantes aos de Brasília. Segundo o site Expatistan.com, o custo de vida de Colombo é 32% menor que o de Brasília. Já a comparação com Miami mostra quase o dobro da diferença com o Brasil. Me situei. Agora só pego tuk-tuk que utilize o taxímetro. Mesmo assim é possível pegar um tuk-tuk com a maquininha adulterada. É bom tomar cuidado. Descobri que para começar a rodar o taxímetro levam-se 12 minutos com valor fixo de 50 rúpias. Depois desta descoberta, nunca mais me enganaram. 

Poluição

O ar em Colombo é poluído. Percebi isso assim que chegamos, porque tínhamos uma vista boa do 17 andar do hotel onde estávamos hospedados. Todos os dias pela manhã há uma bruma no ar e um leve cheio de queimado. Boa parte da poluição deve-se aos tuk-tuks e seus motores de 2 tempos, além dos ônibus velhos que circulam pelas ruas. Mas um hábito da população local colabora significativamente pra este cheiro de queimado pela cidade. Ao varrer as ruas pra tirar as folhas e algum possível lixo em frente de suas casas, os moradores fazem um montinho com o que foi varrido e põem fogo! Todo dia você tem fumaça entrando no seu jardim e na sua casa. Eu corro e fecho as janelas todas. Não sei se o fogo é só uma atitude no sentido de desaparecer com o lixo ou se usam a fumaça para espantar mosquitos também. Preciso fazer amizade com um local para tentar compreender estas diferenças culturais. Não que isso não ocorra em outros países, mas aqui é um traço cultural mesmo. Faz parte do hábito diário das pessoas. 

Banheiros Femininos

Logo que chegamos vi uma placa como esta num banheiro público: 

 "Atenção: evite lavar seus pés no vaso sanitário."

"Atenção: evite lavar seus pés no vaso sanitário."

Fiquei interessada em saber o que exatamente significava este aviso, porque a placa se localizava próxima ao toalheiro, perto das pias. Pensei que eles tinham usado a palavra errada para referir-se à pia e achei engraçado. Mas ao mesmo tempo me intrigava a idéia de que poderiam ter-se referido ao vaso sanitário de verdade. Até que me deparei com a imagem da foto acima. E o piso do banheiro estava realmente todo molhado. "Que nojo!", pensei. "Como assim lavam os pés no vaso sanitário?".

Comecei a prestar mais atenção. As mulheres aqui usam sandálias abertas na rua. Em muitos pontos da cidade as calçadas são falhas (quando existem) e há muita terra, areia e fuligem nas ruas. Percebi isso tudo porque passei a usar sandálias pra driblar o calor e me vi, muitas vezes, com os pés cheios de areia e sujos. O motivo passou a ser mais óbvio para mim quando vi que os boxes de chuveiro nas casas possuem também uma torneira, na metade da altura do chuveiro, justamente para que lavem-se os pés. Juntei A com B e aprendi, na prática, aquela máxima de que você só consegue compreender o outro quando calça seus sapatos/ coloca-se em seu lugar. Na falta de um lugar para limparem seus pés da sujeira da rua, só resta à elas usar a ducha higiênica que todo banheiro tem, usando o vaso sanitário para receber a água suja.

Eu fiz piadas com a imagem da primeira placa no facebook com meus amigos. Rimos à beça, mas hoje quando vejo esta placa eu sinto um misto de culpa, pena e revolta pelas mulheres daqui. É da cultura delas usar sandálias e seus pés ficam sujos pela falta de calçamento nas ruas. Toda mulher tem o direito de querer estar arrumada pra um encontro qualquer, ou pra chegar ao trabalho, entrar num shopping ou qualquer outro lugar. Se há o hábito de lavarem-se os pés quando chegam ao seu destino, por que os banheiros públicos não oferecem um box com uma torneira exclusiva pra este fim? Seria muito melhor do que ficar colando avisos em todos os banheiros, não? 

Em tempo: homens também usam muito chinelo por aqui. Perguntei ao meu marido se os banheiros masculinos tinham os mesmos avisos. Ele disse que não. 

A relação de situações diferentes é grande e muito interessante. Vou deixar as outras para um próximo post, senão este ficará muito grande. No mais, uma única certeza: meus 3 meses de Colombo tem sido muito mais ricos que os mais de 3 anos que vivi em Miami. 

'Sobre cigarros e memórias' ou 'Como as saudades apertam o peito quando se está longe.'

Tenho um amigo em Miami que é homeless. Ele foi do exército americano e trabalhou na Alemanha, na época da queda do muro de Berlim. Depois que perdeu a mãe, ele decidiu morar nas ruas e desde então é assim. Pelo menos, foi isso o que ele me contou. Daí que toda vez que nos encontrávamos ele tinha uma pergunta pra mim, "I have a trivia question for you!". E morria de rir quando eu perguntava onde estava meu milhão de dólares. Ele já quis saber quem tinha inventado o futebol, qual era o oceano mais profundo de todos, o maior mamífero, a maior ave capaz de voar. Com ele já tive conversas incríveis sobre religião e outras coisas. E ele se divertia à beça com as minhas idéias e os meus erros de inglês.

Uma vez, quando ele me pediu pra ver no Google um vídeo de capoeira sobre o qual eu tinha comentado, me surpreendi com uma entrevista que Renato Russo concedeu pro Zeca Camargo na MTV sobre o disco "O Descobrimento do Brasil". Quando cheguei em casa, busquei novamente o vídeo e pude assistí-lo com calma. E a entrevista conectou-me com uma fase da minha vida muito gostosa, que todo mundo que curte Legião sabe bem como é. O conteúdo da entrevista continua atualíssimo, mas não é sobre ele que quero falar.

A medida que assistia o Renato falar, eu comecei a sentir umas saudades sem tamanho de casa; potencializadas com o término da visita de um primo que eu amo como a um irmão. Ele tinha vindo com a esposa, passado 4 dias, me feito rir demais das peripécias da viagem à Nova Iorque, me fazendo muito feliz. Quando foi embora, me deixou super nostálgica.

Isso tudo deu vontade de fumar um cigarrinho na varanda. É que viver como expatriada te faz sentir muitas saudades de algumas coisas bem simples, como:

 Fonte: http://runninginheels.com/wp-content/uploads/2009/06/marlene-dietrich.jpg

Fonte: http://runninginheels.com/wp-content/uploads/2009/06/marlene-dietrich.jpg

  • Buteco com cadeira e mesa de plástico no meio da rua. Ter meus amigos ao redor dela, falando bobagens só pra fazer os outros rirem.
  • Roda de violão.  
  • Conversas filosóficas/ políticas / sentimentais intermináveis, que começavam num ponto e iam até sei lá onde a bebedeira fazia a curva, nos fazendo esquecer de terminar o assunto.
  • Dos tempos compartilhados e simples, que muitos de nós não nos demos conta, à época, de quão especiais eram. A confraternização numa mesa de bar, regada a cerveja mofada (quando a cerveja está tão gelada que cria uma capa fina de gelo por fora da garrafa. Os entendidos em cerveja vão dizer que esta não é a temperatura correta de bebê-la. Eu digo que meu coração e as lembranças não se importam com regras e são só caprichos), com tira-gostos diversos, que vão desde a isca de traíra empanada e frita, servida com molho tártaro, passando pela carne de sol com mandioca frita que me mata de prazer (acabei de saudar a mandioca!), abrindo espaço pro joelho de porco cozido de um boteco de Boa Esperança. E, claro: a indefectível batatinha frita.

Nestas reuniões sempre rolava um cigarrinho, com o qual eu tenho uma relação muito sem compromisso, mas com importância significativa neste cenário. Eu não tinha boteco. Eu não tinha meus amigos comigo. Eu não tinha cerveja na geladeira. Não tinha tira-gosto... Mas tinha cigarro guardado! Isso porque meu marido fumava charutos e eu nunca consegui aprender a fumá-los: sempre tragava a fumaça e passava mal. Fizemos um acordo de que eu teria um maço de cigarros guardado pra quando ele fumasse os charutos. E foi aí que eu encontrei um objeto pra me conectar com toda a minha saudade.

É incrível como o simples gesto de acender um cigarro pôde me trazer pra perto de tanta coisa que me fez bem. O que não deixa de ser incoerente, porque o cigarro faz um mal danado. Mas a bebida também faz. A fritura também. Muita coisa aliás. Tudo em demasia faz mal. À medida em que eu soltava a fumaça contra o vento, assistindo o que acontecia na cidade pela varanda do apartamento onde eu morava, fui sentindo um aconchego tão incrível que me foi possível, até, sentir o cheiro do fumo de rolo que meu avô cortava com paciência antes de enrolar o cigarrinho de palha que ele fumava quando eu era criança. Quando o cigarro acabou, eu chorei.

O importante desta história toda foi eu perceber o quanto as nossas relações são vitais pra nós. O quanto elas nos definem, nos sustentam e nos fazem bem. Pra alguém que sempre acreditou piamente que não tinha raízes; que era um tanto quanto auto-suficiente ao ponto de ser livre de amarras nesse "mundão véio sem portêra"... A grande surpresa foi perceber que as raízes estão aqui, cada vez cavando mais fundo em busca de nutrição. Tem gente que diz que só é possível compreender a si mesmo quando você sai do seu próprio país e passa a olhar pra si de outra maneira. A única coisa que eu posso dizer: é bem por aí!

[Cooked] A mínissérie do Michael Pollan no Netflix.

Eu estava em compasso de espera para assistir à série Cooked, do Netflix. Michael Pollan é um autor que sigo cada vez mais de perto, muito embora eu ainda não tenha nenhum livro dele em minha biblioteca. O jornalista começou a escrever sobre comida há algum tempo e acabou por se tornar um ativista no resgate das funções social e política da comida preparada em casa e compartilhada em família. 

 Fonte: http://a.fastcompany.net/multisite_files/fastcompany/imagecache/1280/poster/2015/12/3054219-poster-p-1-how-michael-pollan-gets-us-to-actually-listen-to-him-when-he-talks-to-us-about-healthy-eatin.jpg

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Segundo ele, a industrialização chegou ao ponto de consumirmos produtos cada vez mais estranhos àqueles que costumávamos ter em nossas despensas tempos atrás. Muito embora o fortalecimento desta mesma indústria tenha se dado sob o discurso de que alimentos processados possibilitariam acabar com a fome no mundo, o que ocorreu foi um alheamento do processo produtivo da comida, aumentando o desperdício. Essa vitória da indústria sobre nosso hábito de cozinhar a própria comida tem sido responsável pelo desaparecimento de ingredientes e saberes culinários em todo o mundo. Fazemos escolhas cada vez piores e nos alimentamos sozinhos, desconectados do que a comida é, de fato. Isso tem consequências muito ruins. Chegará o dia onde nenhum ser humano sobre a face da terra será capaz de produzir e cozinhar seu próprio alimento?

A série é dividida em 4 episódios, dedicados a cada um dos 4 elementos fundamentais da natureza: fogo, água, terra e ar. Partindo de cada um deles, somos transportados para a história da alimentação e os costumes ancestrais de caça e saberes culinários dos povos, como os aborígenes australianos. O programa fala sobre as vantagens que a humanidade obteve após o domínio do fogo e sua aplicação sobre os ingredientes, proporcionando menor tempo de mastigação e digestão e nos deixando livres para outras atividades. No fim, devemos nossa humanidade e civilização ao fato de termos aplicado o fogo à comida um dia.

Outras descobertas vieram, como a agricultura, e a variedade de formas de conservação dos alimentos nos permitiu um sem número de possibilidades.  Fermentação, desidratação, salga ou cocção em meios ácidos, defumação e cura... Tudo isso nos permitiu driblar as adversidades das estações mais secas e frias, disponibilizando produtos para o consumo ao longo do ano. Isso, aliado à aplicação de técnicas diversas de cocção em meios diversos, além do modo de vida de cada povo. Estes foram ingredientes fundamentais para que tenhamos criado culturas gastronômicas tão diferentes nos quatro cantos do planeta. A riqueza de ingredientes, preparos, apresentações e sabores é uma das grandes maravilhas do mundo. Porém, corremos um risco incrível de perdermos nossas culturas e saberes culinários por conta das características do mundo moderno, como a falta generalizada de tempo. Isto somado ao baixo poder de compra da maioria da população mundial acaba proporcionando vantagens enorme às grandes empresas de fast-food, bem como da indústria de alimentos super-processados. Em consequência disso, a indústria introduziu conservantes, espessantes e melhoradores de sabor na busca por baratear seus produtos ao máximo, comprometendo a qualidade deles. Daí para as doenças comuns no mundo moderno, um pulo!

Uma das teses mais interessantes do autor é que ao termos terceirizado o trabalho de matar os animais que comemos (bem como todo o processo de preparação das peças para que possamos somente cozinhá-las), nós perdemos o respeito pelo sacrifício animal. Ignorando que a carne é produto de uma morte, desperdiçamos uma matéria-prima que até pouco tempo era utilizada em sua totalidade nas casas das pessoas, em preparos diversos. Enquanto o episódio abordava estas questões, eu me lembrava da minha avó matando galinhas no quintal. Depenando-as e limpando a carcaça até chegar aos miúdos, tudo seria aproveitado em vários tipos de preparação. Era um ritual que tomava quase que metade do dia. Hoje em dia compramos pedaços de frango em bandejas de isopor envolvidas em plástico filme. 

Particularmente fiquei chocada com a parte dedicada à cultura alimentar da Índia e países similares, como o Sri Lanka. Estes países têm sua cultura alimentar baseada nos ensopados, com cocção em meio aquoso. Como este tipo de preparo demanda mais tempo para ficar pronto, a indústria alimentícia encontrou terreno fértil para disseminar seus produtos na região. Aqui no Sri Lanka há uma profusão de propagandas da Knorr e da Maggi nas ruas. Estão conseguindo subverter toda a cultura gastronômica local do Rice and Curry e introduziram o miojo num país onde tradicionalmente não consome macarrão. Em toda festa popular que fui até agora, havia carrocinhas de miojo disponíveis e lotada de clientes. 

Com participações de Nathan Myhrvold, passando por uma cozinheira ex-funcionária do Chez Panisse, um especialista em churrasco no estilo americano e chegando a uma freira microbióloga, Michael nos leva a refletir sobre a importância do resgate do ato de cozinhar em casa. Nutrir nossa família como um ato político e de independência. Além de muito amor, é claro!

Mudança de Ares: o Expresso Canela agora tem sede no Sri Lanka!

Um dos motivos pelos quais o blog tem esse nome é que, de tempos em tempos, eu me mudarei de cidade e de país. Com o objetivo de conhecer bastante a gastronomia local, nada melhor que um espaço como esse para compartilhar as experiências. E depois de quase 4 anos em solo estadunidense, eis que nos mudamos de mala, cuia, computador e cachorrinho para o Sri Lanka, capital: Colombo.

 Jurema, em sua primeira aparição no Blog. Ainda em Miami, já estávamos empacotados, rumo ao aeroporto.

Jurema, em sua primeira aparição no Blog. Ainda em Miami, já estávamos empacotados, rumo ao aeroporto.

Uma curiosidade antes de prosseguir. Esta é a segunda vez que um concurso culinário prediz onde morarei. Em 2011 participei de um concurso de uma revista paulistana, cujo prêmio maior era representar o Brasil numa feira de alimentação que ocorreria em Miami. Não ganhei, mas fui morar na cidade um ano depois. Ano passado, participei de um concurso cujo prêmio era passar uma semana viajando pelo Sri Lanka, gravando vídeos e escrevendo sobre as experiência gastronômica no país. Não fui selecionada, mas cá estou eu pra morar por aproximadamente 2 anos e meio. Qual será o próximo destino? Confesso que não estou com tanta pressa assim pra descobrir. 

 A vista que temos do quarto do hotel. Um grande empreendimento imobiliário chinês está tomando corpo. Atrás, uma lagoa e logo adiante, o Oceano Índico. 

A vista que temos do quarto do hotel. Um grande empreendimento imobiliário chinês está tomando corpo. Atrás, uma lagoa e logo adiante, o Oceano Índico. 

Chegamos no dia 13 de janeiro. Com as dez horas e meia de diferença de fuso horário com Miami e 7 horas e meia de diferença com o Brasil, ainda era 12 de janeiro pelas bandas de lá. Desde então estávamos lidando com os efeitos do jet lag e tentando ajustar nossos relógios biológicos ao horário local. Às 6 horas da tarde (7h30 da manhã em Miami) eu era acometida por um sono incontrolável. Acabava sendo vencida, Jurema se achegava e dormíamos juntas. Tudo errado! Uma semana depois, consigo não sucumbir ao sono durante o dia. Mas ainda tenho ido dormir mais cedo que o meu normal. Acho que vou aproveitar e deixar assim. Acordar mais cedo tem sido bom. Como estamos hospedados num hotel temporariamente, até acharmos uma casa e nossos móveis chegarem, o café da manhã tem sido bastante agradável e educativo acerca das comidas típicas daqui. Alguns exemplos:

 Meu primeiro café da manhã Cingalês. Frutas com gosto bem parecido com as do Brasil. 

Meu primeiro café da manhã Cingalês. Frutas com gosto bem parecido com as do Brasil. 

 Esse é o  Hopper , uma panqueca feita com leite de côco, farinha de arroz e sal, servida com um ovo cozido dentro. Por cima eu espalhei um pouco de  Pol Sambol , um condimento de côco ralado com pimenta. Delicioso!

Esse é o Hopper, uma panqueca feita com leite de côco, farinha de arroz e sal, servida com um ovo cozido dentro. Por cima eu espalhei um pouco de Pol Sambol, um condimento de côco ralado com pimenta. Delicioso!

 O chá é o grande destaque entre as bebidas aqui. O Sri Lanka é um dos maiores produtores de chá do mundo. Essa marca é uma das mais famosas.

O chá é o grande destaque entre as bebidas aqui. O Sri Lanka é um dos maiores produtores de chá do mundo. Essa marca é uma das mais famosas.

 Há sempre opções indianas no cardápio. Esse era um pão chato e bem fino e crocante, recheado de batatas condimentadas. Ao lado um pouco de chutney de côco e um tomate assado que achei em outra ilha de comida. 

Há sempre opções indianas no cardápio. Esse era um pão chato e bem fino e crocante, recheado de batatas condimentadas. Ao lado um pouco de chutney de côco e um tomate assado que achei em outra ilha de comida. 

O contato com a comida tem sido um capítulo à parte. Eu gosto muito de comida indiana e de pimenta. A comida cingalesa tem muitas semelhanças com a comida do país super populoso ao norte. Até porque o Sri Lanka fez parte da grande Índia, antes da independência. Dizem que a comida cingalesa é muito mais apimentada que a indiana. Comparada com as adaptações que conheço até agora, é mesmo. Preciso ir à Índia para confirmar se isso é verdade. O fato é que eu já achei que quase fosse morrer (ao menos que a minha boca explodiria para sempre) de tanta especiaria num único prato. Percebi, na prática, uma das vantagens de se comer comida extremamente temperada por aqui: você come, transpira, pega um ventinho e refrigera. No calor daqui isso é sempre uma grande vantagem! Porém, confesso que fiquei preocupada como meu corpo reagiria a tanto condimento. Até agora, com excessão da boca, o restante do meu sistema digestivo deu conta numa boa. O que é ótimo! 

Encontrar uma casa tem sido um desafio. Para um casal sem filhos e com um cachorro, achar uma casa pequena tem sido complicadíssimo! Cachorros não são admitidos em praticamente nenhum prédio da cidade. A corretora me contou que muçulmanos não têm uma boa relação com cães e os consideram impuros. Para evitar confusões, os condomínios vetaram. Daí a necessidade de morarmos em casa desta vez. 

Aqui as construções são mais antigas, em estilo colonial e com muitos quartos. Acima de 4 é o normal. Isso sem falar em dependência de empregados, algo muito comum por aqui. Tanto que as casas têm até duas cozinhas! Pra quem estava acostumada a fazer todo o serviço de casa, tem sido tudo muito interessante e estranho. 

 Vista de um apartamento que eu vi e que surpreendentemente aceita cães. Infelizmente, Colombo fica a oeste da ilha do Sri Lanka. Isso significa dizer que pra ter uma vista linda desta, é preciso passar o calor infernal de ter o apartamento virado para o poente. Confesso que fiquei meio tentada a desconsiderar isso, mas...

Vista de um apartamento que eu vi e que surpreendentemente aceita cães. Infelizmente, Colombo fica a oeste da ilha do Sri Lanka. Isso significa dizer que pra ter uma vista linda desta, é preciso passar o calor infernal de ter o apartamento virado para o poente. Confesso que fiquei meio tentada a desconsiderar isso, mas...

 O sol, pondo-se no mar. 

O sol, pondo-se no mar. 

Após uma semana de chegada posso dizer que várias histórias deverão aparecer por aqui. É tudo muito novo, desde as pessoas te olhando na rua como se você fosse um ET, passando por templos budistas espalhados pela cidade, as comidas incríveis, o povo hospitaleiro, as roupas das mulheres, as festas... Por falar em roupa e festa, hoje aconteceu um casamento no hotel. Segue uma foto das convidadas, para ter uma idéia.

 Gordurinhas a mais aqui parecem ser consideradas charme. Já gostei!

Gordurinhas a mais aqui parecem ser consideradas charme. Já gostei!

[Produtos] Vosges Haute Chocolate.

Apesar de muita gente relacionar chocolate norte-americano à marca Hersheys e as famosas barras de chocolate como 3 Musketeers e Snickers, que apesar de gostosas são absolutamente doces e cheias de HFCS, há muitos bons chocolates sendo feitos por aqui. Especialmente quando se falar de chocolate meio-amargo. 

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Um das grandes marcas que podem te dar uma pista do que acontece por aqui é a Vosges. E como falamos de uma marca americana, é claro que o sabor mais exótico - e o primeiro que provei - é o de chocolate com bacon. Como assim? O princípio desta mistura é o chocolate com cristais de sal. O contraste entre os sabores doces e salgados fazem com que o resultado seja bastante agradável: o sal ressalta o sabor do chocolate e dá uma quebrada no açúcar. Quando resolveram adicionar o bacon no chocolate, além da presença do sal incorporou-se também o sabor defumado. 

A Vosges é uma empresa cujo mote são combinações entre o chocolate e outros ingredientes inusitados, como o bacon, a cerveja tipo Stout, curry, goji berry... A marca tem duas opções de concentração de cacau com bacon: ao leite e maio-amargo. E eu vou te falar: é muito bom! Pra quem gosta da combinação de chocolate com flor de sal é uma excelente pedida. Desde que você coma carne, é óbvio! Outra grande opção é a linha de barras Super-dark. Esse, bem amargo, até quem é vegan pode comer. Eu achei delicioso!

As barras são facilmente encontradas nas lojas do Whole Foods. Em Nova Iorque, eles possuem lojas super chiques, onde você pode provar alguns bombons e trufas que eles fazem pra poder escolher. E há, sempre, a opção de comprar pela internet.