[Índia] Viagem ao Rajastão + Délhi + Agra.

Quando decidimos visitar a Índia, eu senti um misto de alegria e medo. Alegria porque eu sempre tive curiosidade em conhecer o segundo país mais populoso do mundo, cujas culturas religiosas e gastronômicas - principalmente - sempre me interessaram. Medo porque tudo o que se ouve falar sobre o país normalmente pende para o negativo, desde a desigualdade gritante e o sistema de castas, passando pela violência contra a mulher, até os problemas sanitários e de infraestrutura. Mas, como dizemos num grupo de apoio e promoção à liberdade de a mulher poder viajar sozinha "Tá com medo? Vai com medo mesmo."

 No caminho entre Jodhpur e Udaipur, paramos num hotel para almoçar.

No caminho entre Jodhpur e Udaipur, paramos num hotel para almoçar.

Eu não fui sozinha, mesmo assim tinha uma visão estereotipada do que era a Índia. Eu sabia disso. Mas não sabia que estava cometendo um grande erro ao dizer que estava indo para A ÍNDIA. Como no Brasil existem muitos Brasis, nos EUA existem muitos EUAs, na Índia a mesma coisa acontece: a pluralidade está ali, presente. E mesmo que se possa dizer que há uma unidade que teima em colocar tudo junto, quando a gente vai e se joga percebe que o negócio não é pasteurizado assim, não. E que bom que não é!

Primeiro eu preciso dizer que nossa viagem à porção noroeste da Índia não chega nem perto da versão roots que muita gente faz, com mochila nas costas, hospedando-se em hostels e trabalhando com orçamento apertadíssimo. Mas também não foi nada luxuosa, já que muitos aproveitam que estas acomodações são bem menos caras por lá e acabam investindo mais nisso. Tivemos uma experiência que posso chamar de confortável, experimentando um homestay no meio e um Heritage Hotel no fim da viagem. No mais, ficamos em B&B, que podem ser comparados quase que a pensões meio moderninhas, administradas com esmero e cuidado. Tudo correu muito bem, nossa programação estava bem amarradinha e a agência que contratamos foi muito feliz e eficiente em tudo o que nos propôs. Recomendo muito o serviço deles, porque nos deu a possibilidade de fazer a viagem como gostamos: fechamos hospedagem e transporte. O resto a gente decidiu com base no que estudamos, mais as dicas que eles nos deram. Escolhíamos nossos destinos diários de acordo com o espírito do dia. No mais, seguem as impressões. 

POLUIÇÃO

 Dentro do Red Fort, em Délhi. Aqui dá pra ver a névoa que paira no ar o tempo todo. Fumaça. 

Dentro do Red Fort, em Délhi. Aqui dá pra ver a névoa que paira no ar o tempo todo. Fumaça. 

Assim que pousamos, pude experimentar o que é expor-se a uma situação de extrema poluição atmosférica. Tenho asma, embora tenha tido poucas crises durante toda a minha vida. Tive uma sensação de quase sufocamento, ainda no aeroporto, que me deixou bastante nervosa por alguns minutos. Até que meu organismo se ajustou ao que seria a nossa realidade pelos próximos 15 dias. Assustou bastante! 

 Levei algumas máscaras cirúrgicas para tentar driblar a poluição, mas elas não servem pra isso. Só esquentam e deixam o trabalho de respirar mais difícil. Há umas máscaras próprias para, mas que não encontramos. 

Levei algumas máscaras cirúrgicas para tentar driblar a poluição, mas elas não servem pra isso. Só esquentam e deixam o trabalho de respirar mais difícil. Há umas máscaras próprias para, mas que não encontramos. 

Das cidades que visitamos, todas elas tinham essa fumaça pairando no ar, em maior ou menor intensidade. Délhi e Jaipur foram as mais problemáticas quanto a isso. Já Agra, Jodhpur e Udaipur pareceram ter um ar menos carregado. Nos disseram que parte considerável da responsabilidade da má qualidade do ar é o hábito de se queimar terrenos para limpá-los antes de plantar. Há uma quantidade imensa de carros nas ruas, as famílias mais abastadas costumam ter vários veículos, um para cada integrante, quando não mais de um. Claro que há o problema da falta de saneamento e outras coisas que não sabemos. Esta é a realidade local. 

PESSOAS

Nessa viagem eu percebi que não existe "cara de indiano". Como o país é enorme e faz fronteira com vários países diferentes, você vê gente de todos os tipos e cores. Olhos puxados, olhos claros, peles parda, morena, amarela e negra, cabelos encaracoladíssimos e outros super-escorridos... É uma variedade de gentes tão incrível! 

As pessoas que nós encontramos pelo caminho ficavam, em geral, muito satisfeitas quando pedíamos para tirar fotos delas. Ficavam alegres quando viam o resultado. Muitas quiseram tirar fotos com a gente pra levar de recordação, na certa pra mostrar pros amigos aquele povo tão diferente que estava visitando o país deles.

Nós, meu marido e eu, éramos apontados na rua, acho que como exóticos. Na visita ao Red Fort não foram poucas as vezes em que amigas cutucavam-se umas às outras, fazendo sinal com a cabeça e apontando em minha direção, como se dissessem: “Olha que mulher esquisita!”.

Vez ou outra, alguém se atrevia a pedir uma foto. Bastava ver um indiano olhando pra gente com cara de dúvida e olho comprido que era batata: queriam tirar foto com a gente. E tome selfie, grupelfie, foto abraçadinho com gente estranha. Sempre seguida pela pergunta básica “Where you from?” Um pai se aproximou de mim com os 3 filhos pequenos e me disse: “minha filha gostaria de conversar com você, pode?”. Ela queria saber se eu estava gostando da Índia e treinar o inglês.

Passado um tempo a coisa foi evoluindo e surpreendentemente pessoas começaram a formar fila (!!!) pra tirar fotos com os estrangeiros aqui. Bastava a gente aceitar uma pose e lá vinham 10 candidatos. E todos queriam fotos individuais conosco. Acho que foi o mais próximo que chegamos da vida dos famosos até agora. 

DINHEIRO

A moeda local é a rúpia. Tivemos de fazer um esforço de início para não confundirmos o valor da rúpia indiana com o da rúpia srilanquesa: a indiana vale, frente ao dólar, pouco mais que o dobro do que vale a do Sri Lanka. Todas as notas têm a face de Gandhi nelas e as notas têm tamanhos diferentes dependendo do valor. 

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Achamos a Índia muito, mas MUITO MAIS BARATA QUE O SRI LANKA. Ficamos em hotéis muito melhores que os da média aqui da ilha, e que foram muito baratos comparativamente. Uma pena que este país onde vivemos hoje não saiba valorizar o setor de hospitalidade no que realmente importa: serviço. Mas isso é papo pra um post próprio. 

TRÂNSITO

Eu tinha uma expectativa de Délhi, especialmente do trânsito, que não se confirmou. Acho que a experiência de morar no Sri Lanka por quase 2 anos me preparou de alguma maneira para isso. O trânsito é caótico, sim. Parece que não há leis de trânsito e as conversões que os motoristas estão acostumados a fazer nos são muito estranhas. Mas não tinha vaca em cada rua ou esquina e os carros fluíam com certa regularidade e sem maiores problemas. Notamos que a maioria dos veículos tinha marcas de encostadas e arranhões nas laterais, ou batidinhas na frente ou atrás, que pareciam tão normais e corriqueiras que os proprietários não se dariam nem ao trabalho de consertá-las. Fiquei pensando como devem ser as regras para fazer um seguro de automóvel por lá...

Os motoristas fazem “U-turn”/ retorno no trânsito a todo instante. E parece que não estão dando uma de espertos - não vi placas proibindo as manobras. Uma vez, chegando de volta ao hotel, nosso motorista fez o seu numa terceira fila por fora, enquanto vinha um tuktuk no sentido contrário e um micro-caminhão forçava a passagem pela perpendicular. Só faltou a vaca no meio. Nos divertimos com a confusão e o motorista tirou onda: “Quer dirigir um carro aqui na Índia, Senhor?”. E deu uma gargalhada.

Jaipur e Jodhpur têm o trânsito mais próximo daquele que eu realmente esperava encontrar. Especialmente a primeira, já que estão construindo o metrô e isso toma uma parte considerável da pista de rolamento, tornando tudo um caos e fazendo com que você permaneça muito tempo dentro do carro. Porém foi em Jodhpur onde foi possível eu filmar um gargalo de trânsito num cruzamento que foi pra lá de interessante. Em Agra, nosso motorista nos contou que ali um condutor tinha de ter 3 coisas pra dirigir bem: "boa buzina, bom freio e boa sorte". Dá pra ter uma idéia de como as coisas funcionam por lá.

Pode ser que alguém que venha de um lugar onde o trânsito seja mais certinho tenha um susto com o tráfego destes lugares. Viver no Sri Lanka me deixou mais acostumada com isso. Ah! Foi nas rodovias entre as cidades onde vimos mais vacas, rebanhos de cabras e búfalos no meio da pista. Entre Jodhpur e Udaipur tivemos de parar o carro uma vez, para esperar um rebanho de carneiros passar com seu pastor. 

Usamos carro entre Agra e Jaipur e entre Jodhpur e Udaipur. Entre Délhi e Agra, Jaipur e Jodhpur fomos de trem. 

TREM

A agência que contratamos providenciou os tickets para nós. Já estávamos cientes dos esquemas de abordagem ao turista que acontecem na chegada às estações, então não sofremos com eles. A grande aventura foi encontrar o carro certo de trem e achar o caminho correto para chegar até à plataforma sem demonstrar estar muito perdido pra acabar caindo na conversinha de alguém "desinteressado" querendo ajudar. Fui observando as pessoas pelo caminho e abordei um indiano que viajava com uma alemã pra saber se ele poderia ajudar. Tranquilo! Uma vez achada a plataforma, foi só aguardar o trem. Tínhamos cadeiras nas cabines com ar-condicionado (que nem seria preciso porque a temperatura estava boa durante a viagem inteira, quase inverno). Estes carros são mais confortáveis e foi muito tranquilo localizar nossos assentos e acomodar nossas bagagens. Estresse quase zero!

ARQUITETURA

A visita ao Rajastão implica a ida aos pontos turísticos relacionados à arquitetura Mughal. É incrível a riqueza que o estado tem a oferecer aos olhos neste quesito. As edificações são monumentais, tão maravilhosas que precisam ser apreciadas com tempo.

 É incrível! E impossível não cantarolar mentalmente a música de Jorge Benjor. 

É incrível! E impossível não cantarolar mentalmente a música de Jorge Benjor. 

O Taj Mahal, mausoléu que por si só justifica a ida à Índia pra muita gente, é um grande exemplo disso. Mas, surpreendentemente, não foi ele que me arrebatou mais. Talvez por ter uma expectativa muito grande e por já ter visto tantas fotos dele, o encantamento foi enorme, mas não o maior. Então, se você tem vontade de ir à Índia só pra ver a prova de amor de Sha Jahan pra sua esposa favorita, acho melhor você aproveitar que já vai viajar muitas horas mesmo e planejar idas a outras construções tão merecedoras de seu tempo quanto ele. Te garanto que você não vai se decepcionar! 

PROBLEMAS

Todos os problemas do país estão ali, pra quem quiser ver. Mas se você se concentra neles pode ter uma experiência muito menor do que pode ter neste país tão incrível e cativante. Digo que temos no Brasil problemas muito semelhantes aos deles. E muitas vezes a gente escuta brasileiros falando da Índia como se viessem da Escandinávia.

Uma das grandes diferenças que posso citar é a sensação de segurança. É claro que, como eu viajava com Bruno, não tive problemas relativos a assédio e outras coisas que só nós mulheres sabemos que vamos enfrentar. Mas eu andei por todas as cidades no meio da rua olhando o mapa no meu celular. Numa delas, fiz isso sozinha. E não vi nada relacionado a furtos ou roubos. 

Há pedintes aos montes. Mas se nós tivéssemos a mesma população da Índia, provavelmente seria igual no Brasil. Crianças correm pra te pedir dinheiro. Insistem muito. Se você não tem dinheiro, pedem chocolate. Se não tem chocolate, pedem outra coisa. Vai de cada um lidar com isso. O grande negócio na Índia é desenvolver sua paciência. Você será abordado a todo instante. Haverá problemas no percurso. Por isso, na minha opinião, não vale fazer um roteiro muito apertado e cheio de cidades em pouco tempo. Isso pode te causar um nível de estresse tão grande ao ponto de prejudicar muito a sua viagem.

"UNIVERSIDADE DA CONVERSINHA"

Foi como apelidamos a habilidade do indiano tentar vender coisas/ facilidades aos turistas, mesmo quando parece que estão apenas querendo ajudar. Isso acontece com pessoas nas ruas que param para puxar assunto, passando pelos carinhas fantasiados de funcionários do guichê de informação nas estações de trem, os motoristas, guias turísticos, chegando até aos vendedores de artigos diversos. Todos, em maior ou menor grau, vão tentar te tirar o máximo de dinheiro possível vendendo alguma facilidade "just for you, madam". É divertido, muitas vezes é chato, noutras vezes você acaba sendo desagradável pra deixar claro pra pessoa de que não está interessado. E outras vezes você cai na conversinha! Acho que é praticamente inevitável. 

Em Jaipur fomos visitar o City Palace. Comprarmos as entradas, caríssimas por sinal:  as mais caras que pagamos na Índia: 39 dólares cada. Acabamos cedendo à insistência de um rapaz em ser nosso guia na visita. No ticket dizia que o guia estava incluído no preço. Ele fez a visita ser interessante, é claro, mas no final nos levou para as lojinhas que ficam dentro do complexo e o vendedor nos enrolou bonito. Veio nos mostrar, usando um isqueiro, como descobrir se uma pashmina é de fato uma pashmina, ou se é sintética. Compramos coisas boas e tal, mas não estávamos planejando comprá-las ali, naquele momento. Depois vi que pagamos mais do que em outros lugares que pesquisei. E o vendedor dizia "quando a senhora usar esta echarpe, vai se lembrar de mim!". Lembro mesmo, seu fédaputa. Hahahahaha!

Em outro lugar que fui, em Jaipur também, um rapaz simpaticíssimo me ofereceu Masala Chai, me acomodou num sofá e começou uma apresentação que parecia com um "Powerpoint" de tecidos e colchas de cama. Me deu vontade de filmar. Ele ia abrindo mil e uma coisas diferentes, ao mesmo tempo em que dizia produzir peças para a Anthropologie e outras marcas famosas nos EUA e Europa. Marcas que cobrariam caríssimo por aquilo que ele me venderia a preços incríveis. Era quase uma liquidação da Ricardo Eletro, misturada com um queimão de estoque do Varejão das Fábricas. Ávidos por compras: tremei!

Neste galpão onde a fábrica dele se localizava, haviam pessoas estampando tecidos, tecendo tapetes, bordando e costurando roupas. Depois que saí fiquei me perguntando qual seria a real situação de trabalho daquelas pessoas ali, já que sabemos que na Ásia existe muito trabalho semi-escravo envolvido nas indústrias de moda/têxtil. Fui parar ali porque o motorista "não entendeu" meu pedido, quando disse que queria comprar roupas. Ele achou que eu gostaria de comprar o tecido e mandar fazer a minha roupa. Neste lugar onde fui (não tinha identificação na porta nem nada que me faça lembrar o nome do lugar) o mesmo rapaz simpático me disse ser capaz de entregar um serviço de costura, como uma camisa social masculina, por exemplo, em 2 horas (!!!). 

Eu sei que o motorista tem esquema com o dono do lugar, recebendo comissão pelas vendas aos clientes que ele traz e tal. Era pra eu ter me irritado com a tentativa deles em me fazer comprar, mas eu pensei comigo que era uma boa forma de conhecer a cultura deles e me deixei levar. Como boa brasileira, fiquei com vergonha de ficar sentada ali por tanto tempo vendo o vendedor descer a loja dele inteira pra mim. Acabei comprando uma colcha bordada pra minha cama. O vendedor não gostou muito do tamanho da minha compra, mesmo que tenha dito no início que me mostraria tudo "sem compromisso, madame!". Ele deve ter-me mostrado por volta de 50 itens diferentes. Mas eu não estava ali pra comprar coisas pro meu quarto. Disse a ele, me livrei dos argumentos infindáveis e paguei.

A estratégia destas pessoas para te vender é te seduzir por citações a marcas famosas no ocidente, das quais elas são fornecedoras (não duvido); te maravilhar com a quantidade de artigos que são capazes de te mostrar, praticamente descendo a loja inteira; fazer referências sempre muito positivas à você, cutucando a sua vaidade e dizendo que é tudo sem compromisso, que você só compra se quiser. Mais ou menos, estão ali todas as técnicas de vendas do Grupo Friedman (eu fui vendedora de loja e fiz o curso na minha adolescência). É muito difícil não ser capturado pelo modo como eles estão acostumados a fazer negócio. Fora quando você decide comprar e precisa barganhar.

Aliás, ouso dizer, pela minha experiência, que um vendedor indiano só pode ser considerado "sério" se ele aceitar barganhar o preço. Se vier com conversinha mole e não aceitar ou oferecer brindes, melhor pensar duas vezes. Provavelmente ele estará te vendendo coisas muito mais caras que em outros lugares. Eu sei...

O JEITO INDIANO DE SE VESTIR

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Uma das coisas mais incríveis que eu observei na viagem foi a capacidade do indiano se vestir de maneira elegante e original. E não estou me referindo a pessoas ricas. Mesmo pessoas que vestiam andrajos, como pastores de ovelhas/cabras, tinham uma elegância no uso das roupas e adereços que pareciam, ao mesmo tempo, extremamente bem pensados e usados daquela forma por simples acaso. O que quero dizer é: muitas vezes eu vi mulheres indianas usando roupas com uma echarpe jogada nos ombros de uma maneira tão displicente quanto elegante. Eu poderia jogar aquela mesma echarpe sobre o meu corpo um milhão de vezes que não ficaria igual. Há um pertencimento da roupa à pessoa. Algo como se elas não pudessem ser compreendidas uma sem a outra. Véus, turbantes, pashminas, echarpes simples, cores, tecidos... tudo tão incrível e genuíno! Fiquei pensando na dificuldade que eu tenho de me vestir e me sentir bem nas roupas que uso. 

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Quando ficamos numa casa de família em Jodhpur, a matriarca da casa nos contou que as indianas da região nem sempre usaram as roupas coloridas que usam com frequência hoje. Antigamente usavam-se só tecidos de algodão, que demoram para secar e são mais trabalhosos para lavar. Como o Rajastão é uma região muito seca e desértica, as cores eram próximas ao marrom, cinza ou bege. Cores que disfarçavam mais a sujeira causada pelo acúmulo de poeira das ruas, possibilitando o uso da roupa mais vezes antes de lavar. Com a chegada dos tecidos sintéticos, consequentemente mais baratos e fáceis de lavar e secar, as mulheres se tornaram muito mais coloridas e hoje podemos nos maravilhar com o festival de cores nas ruas. O mais incrível é que você vê grupos grandes de mulheres juntas e raramente uma está usando a mesma cor que a outra. Será que elas ligam umas pra outras pra perguntar que cor vão usar hoje?

A COMIDA

Um capítulo à parte, as comidas são tão incríveis e coloridas quanto as roupas. Há um elemento comum à maioria dos pratos que é o molho. A variedade de pratos mais secos é muito menor. Nós comemos em lugares bastantes simples, em restaurante de estrada, em casa de família, em restaurantes de hotel e em lugares famosos. Na maioria das vezes eu comi pratos vegetarianos, mas não me furtei de comer frango quando tive vontade. Como bem nos recomendaram pela agência, a carne de frango é muito consumida no país. A chance de a carne que te oferecem ser fresca é muito grande. Basta tomar o cuidado para ver se está bem cozida. Bruno foi muito mais corajoso e se jogou nos pratos feitos com carne de bode. Não negou o sangue pernambucano e não teve um problema de estômago sequer. 

  Poha , o arroz pro café da manhã. Delícia!

Poha, o arroz pro café da manhã. Delícia!

De tudo o que provei, fiquei maravilhada com o Butter Chicken, que é o prato indiano mais famoso no mundo; com a Poha, um arroz previamente achatado, feito com especiarias e vegetais diversos, servido no café da manhã. Pani Puri, que é uma comida de rua e consiste numa massa frita e oca, recheada com batata cozida, cebola e grão de bico e com um caldo à base de especiarias que é adicionado só na hora de comer. Shrikhand, uma espécie de iogurte muito denso e doce, temperado com açafrão, água de rosas e pistaches que é de morrer! Rasmalai, um doce feito à base de queijo e leite aromatizado que é uma delícia. Também comi bastante Gulab Jamum e descobri uma variação deste doce chamada Kala Jamum, muito gostosa também. A variedade é tanta que você fica perdido na hora de pedir. Melhor variar sempre pra poder experimentar um pouco de tudo. 

 Jantar servido na casa onde nos hospedamos em Jodhpur. Neste dia havia arroz, cordeiro, lentilhas, couve flor, panner (uma espécie de queijo feito a partir da adição de suco de limão ao leite), e um ensopado feito com uma massa de semolina, parecida com um mini nhoque. Tudo muito gostoso! 

Jantar servido na casa onde nos hospedamos em Jodhpur. Neste dia havia arroz, cordeiro, lentilhas, couve flor, panner (uma espécie de queijo feito a partir da adição de suco de limão ao leite), e um ensopado feito com uma massa de semolina, parecida com um mini nhoque. Tudo muito gostoso! 

A grande diferença entre comer em um restaurante e comer em casa é o tipo de pão que se come. O Naan, pão famoso feito em forno Tandoori (um grande vaso de barro com brasas quentíssimas no fundo. Assam-se os pães nas paredes do forno) só se come fora de casa, porque as residências não têm deste forno que ocupa muito espaço e que demora para aquecer e estar pronto pra uso. O pão comumente feito e consumido nas residências é o Chapati, massa aberta como para pastel e cozida/chapeada numa panela especial de ferro fundido. Fazem-se, também, algumas variações do Paratha, outro tipo de pão chapeado. 

KARMA

A população hindu tem o hábito de alimentar animais ao longo do dia para favorecerem o Karma. Vacas recebem Chapati com Ghee para comer pela manhã. Cães recebem Chapati com óleo de mostarda no fim do dia. Vi pessoas comprando pipoca para jogar para os pássaros e peixes perto dos lagos. Por consequência disso, as ruas têm resto de comida frequentemente. 

SERVIÇOS NAS RUAS

Em todas as cidades encontramos profissionais oferecendo seus serviços nas ruas. Barbeiros, cabeleireiros, costureiros, passadeiros... Ouvimos dizer que é possível ver até dentista trabalhando na rua, mas destes não vimos. Cada rua tem seu passadeiro exclusivo em Délhi. As pessoas trazem suas roupas para serem cuidadas por eles. Uma conhecida indiana me contou que lenços de mão são passados de graça. 

O QUE FICOU

Fotografei incrivelmente durante toda a viagem. Especialmente as pessoas. Muita gente sorrindo, trabalhadores que ficavam orgulhosos quando pedíamos para tirar fotos deles. Eles sorriam felizes quando mostrávamos o resultado na tela. Crianças, jovens, casais, velhos... Foi uma overdose de contato humano que havia muito tempo eu não tinha. A maior memória da viagem é essa: as gentes! Ficamos tão encantados com tudo e já queremos planejar a nova viagem.

As Índias que nos aguardem por mais vezes.