[Diário de bordo] Dizendo adeus ao Sri Lanka, dois anos e meio depois.

Serendipity é uma palavra que foi cunhada num romance de Horace Walpole: "Os três príncipes de Serendip", cuja história se passa no antigo Ceilão (um outro nome antigo do Sri Lanka é Serendib, de onde vem a palavra criada pelo autor) e onde os protagonistas estavam sempre encontrando algo incrível, que não estavam procurando originalmente. A palavra significa isso mesmo: feliz descoberta ao acaso. 

A vida nos reserva experiências que contribuem para o nosso crescimento. Cada momento, novidade, queda, decepção, alegria, ganhos ou perdas, nos permitem construir constantemente este projeto que só estará pronto, se estiver, no momento de nossa morte. A idéia de que a felicidade é um fim em si mesma, a grande busca da vida de todos nós, torna-se ultrapassada a partir do momento em que você entende: estar presente é o grande lance de toda esta busca. Como escreveu Guimarães Rosa, "A felicidade se acha é em horinhas de descuido.". Naquele pequeno espaço de tempo em que você está presente. Sem fazer planos, como disse John Lennon. Somente aceitando o que vem. 

Deixa a vida me levar

A nossa mudança para o Sri Lanka aconteceu numa horinha de descuido. Nasceu durante uma conversa minha com o Bruno, em um restaurante de comida inspirada no Sudeste Asiático. Durante um brunch de domingo, ainda em Miami. Naquela época a inclinação dele era de que nossa próxima cidade fosse na América do Sul. Eu falei, pensando alto, que apesar de adorar a idéia de conhecer mais os nossos países hermanos, acreditava que nós devíamos aproveitar a oportunidade de conhecer aquele mundo diferente que deveria ser a Ásia. Com suas comidas deliciosas e culturas incríveis, seria um prato cheio para nós. Desbravaríamos um pouco mais deste mundão que fica cada vez menor. Eu, pela comida. Ele, fotografando. "Imagina a gente passeando pelo rio Mekong!". Os olhos brilharam. 

Rota alterada para a Ásia, o Sri Lanka nos caiu no colo. A idéia original era tentar ir para a Índia, Vietnã, Tailândia, Japão ou mesmo a China, mas acabou que nos vimos embarcados nesta aventura de nome engraçado, cuja localização eu tive de ir ver no mapa. Seria a minha primeira vez morando numa ilha. A proximidade com a Índia contribuiu para a idéia de que o Sri Lanka seria uma miniatura daquele país. O tempo diria que esta era uma idéia completamente equivocada. Para o bem e para o mal.

Túnel do tempo

Lembro que uma das primeiras sensações que tive foi a de volta no tempo. Talvez o cheiro de naftalina por todos os lados contribuísse um pouco para essa impressão. Lá encontrei alguns objetos e referências que fizeram parte da minha infância / adolescência, entre os anos 80 e 90, e que são muito comuns. Aos poucos entendi que o excesso de humidade, os insetos que surgem por conta das características da capital e os longos tecidos dos Sarees das mulheres eram os responsáveis pelo cheiro que se tornou símbolo da ilha pra mim, muito embora a naftalina tenha um cheiro do qual eu nunca gostei. 

Falando nas mulheres locais, elas são um capítulo à parte. Se tem uma coisa da qual eu nunca me cansei foi de admirar as mulheres srilanquesas e seus cabelos fartos, pesados, longos, negros e lustrosos, passando em seus sarees coloridos por todos os lugares. Quanta inveja eu senti dos cabelos e da cor da pele, naturalmente bronzeada. Conheci uma mulher que tinha a pele de brilho tão fresco que absorvia a luz de maneira ímpar. Como pele de criança. Tive dificuldades em parar de olhar. Belíssima! As crianças srilaquesas também, com seus enormes e expressivos olhos de jabuticaba, boca pequena e queixos miúdos, os cortes e penteados mais fofos nos cabelos. As em idade escolar dão gosto de ver, voltando pra casa no uniforme branco com gravatinhas coloridas. As meninas usando tranças... 

A região central de Colombo tem um lago artificial que atrai muitos pássaros, especialmente pelicanos. A imagem deles voando bem baixo, parecendo pterodáctilos passando por nossas cabeças, junto a morcegos gigantes em revoada logo pela manhã ou no fim da tarde - além dos corvos barulhentos espalhados por todos os espaços - trouxe sensação de alegria pela fauna diversa encontrada na cidade. Tornou-se comum ver corvos levando as coisas mais inusitadas nos bicos durante o vôo: desde um sanduíche roubado de uma criança, passando por cabides de arame e fios para fazer ninho, chegando à ratos mortos e parcialmente eviscerados que as turmas de gralhas comiam. Um espetáculo de encher os olhos e que ajudou a forjar nossa experiência neste país que esteve em guerra civil por 30 anos, até 2009. 

Expectativa X Realidade

Aos poucos fui aprendendo um pouco mais sobre Colombo e a vida que eu levaria na cidade. Eu tinha pensado que talvez a capital do Sri Lanka se assemelhasse a uma cidade do interior brasileiro. Em alguns casos, acertei em cheio. Noutros, nada podia ser tão diferente. Pensei que as estradas talvez não fossem asfaltadas e por causa deste meu pré-conceito decidimos comprar um Jipe pra viajar pelo país quando possível. Mas a qualidade do asfalto das estradas é excelente, quase todas parecendo um tapete e sem buraco algum. As rodovias que ligam as cidades são recheadas de curvas e surpresas como mão dupla em pista simples. Uma distância de 100 km só pode ser vencida depois de quase 3 horas de viagem. Isso fez com que a escolha do carro tenha sido acertada, principalmente porque pudemos fazer Safáris nos parques nacionais usando nosso próprio carro. 

As casas srilanquesas são muito grandes e escuras. Muita madeira e quinas. Aberturas tipo cobogó nas paredes, cobertas com acrílico pra evitar os mosquitos transmissores da dengue. Corrimão cromado, escadas, varandas e bancos de cimento... Famílias inteiras vivem sob o mesmo teto. Isso tudo fez com que a nossa busca por uma casa pequena durasse muito mais do que o normal. No fim, alugamos uma casa de 4 quartos da qual eu nunca gostei, muito embora ela fosse uma das mais claras e sem quinas, com menos pavimentos e coisas estranhas que achamos. Minha energia não bateu com a da casa e eu nunca me senti bem dentro dela. A localização era ótima, apesar de ficar meio escondida numa pequena rua que abrigava uma espécie de vila de casas, quase todas iguais, onde a maioria dos moradores eram locais. 

A partir deste momento de contato com os locais foi que eu tive contato com o que é de fato o choque cultural. Foram tempos difíceis de ajuste. Surpreendentemente eu encontrei dentro de mim uma vontade grande de fazer dar certo a nossa vida ali. Algo dentro de mim dizia que a experiência valeria muito. 

Também quero viajar neste balão

No meio disso tudo, eu já fazia parte do IEA, uma associação de expatriados que me deu muito suporte neste processo. Por meio desta associação eu pude me envolver em várias atividades interessantes, além de usar meus talentos e habilidades para divulgar um pouco da cultura gastronômica brasileira por meio de aulas e pequenos eventos em minha casa. Fiz bons amigos por meio deste grupo, o que tornou a vida muito mais agradável e interessante. Uma pena que no fim eu não tenha conseguido furar a bolha expatriada que eu tanto almejava. De todo modo nossa experiência aqui foi melhor do que a de Miami, justamente porque saímos da bolha brasileira. 

Vento no litoral

Pouco mais de um ano depois do ataque, Jurema desenvolveu insuficiência renal. Antes disso ela foi vítima de intoxicação por mal-armazenamento de ração no supermercado. Depois de descoberta, a doença evoluiu muito rápido. Em parte por conta da inabilidade dos veterinários e a falta de estrutura das clínicas da cidade. Tivemos de optar pelo sacrifício da nossa maior companheira. Foi a decisão mais difícil que tive de tomar na vida. A maior ironia eu ter perdido o meu cachorrinho num lugar onde eu fiz tão bons amigos. Dizer adeus foi muito doloroso, mas ao mesmo tempo eu tinha muita certeza de que era o melhor para ela, porque estava sofrendo demais. Tivemos de enterrá-la no jardim e assim ficamos com uma casa enorme e vazia, sem a presença dela. Eu nunca havia imaginado que o Sri Lanka me tiraria a Jurema desse jeito. A partir daí, o copo meio-cheio passou a ser meio-vazio e fomos nos desconectando do país aos poucos. 

Uma casa muito engraçada

Fizemos muitas viagens buscando um novo posto na Ásia, porque depois de tudo o que aconteceu nós queríamos fechar o ciclo. Visitamos Vietnã, Índia, demos uma passadinha nas Ilhas Seychelles pra descansar no fim do ano e fomos passar o ano-novo Chinês na China. Experimentamos vários mundos novos em pouco tempo, tentando nos desvencilhar das saudades do nosso cachorrinho e de todo o sofrimento que ela enfrentou vindo morar no Sri Lanka com a gente. Funcionava durante os passeios, mas a saudade gritava ainda maior quando chegávamos de volta em casa e ela não estava lá. Era o momento de maior solidão: a casa vazia e triste. Depois de tudo e de nossa decisão de só termos um novo cachorrinho depois que nos mudássemos de país, eis que surge em nossas vidas, Onofre.

Quando um certo alguém

Um gatinho de aproximadamente 4 meses, com as mesmas cores da Jurema, só que com a prevalência do branco sobre o caramelo, apareceu na porta de casa e já ia entrando quando o jardineiro o impediu. Bruno decidiu que iria a uma reunião e que depois o levaria para um lugar seguro e eu resolvi que enquanto isso era melhor mantê-lo no jardim. Decidi que era melhor levá-lo ao veterinário para castrá-lo e dar as vacinas antes de entregá-lo para adoção, visto que em Colombo eram muito comuns gatos de rua. Um problema crônico de super-população, muito embora os srilanqueses tenham por hábito alimentar aos animais. Uma coisa levou a outra, tínhamos a viagem pra China, não deu tempo de castrar e decidimos deixar o gatinho no jardim durante nossa viagem. Voltamos e ele continuava por lá. Manhoso e muito fofinho, ele foi nos conquistando aos poucos e quando percebemos já não queriámos que ele nos deixasse.

Isso junto ao fato das pessoas começarem a dizer de que ele era a reencarnação da Jurema: porque tinha o mesmo tempo de vida que ela tem de morte. Porque ele sempre agiu como se a casa fosse dele e ronronou pra gente desde o primeiro contato. E porque eu tive um sonho 3 dias antes de sua chegada onde a Jurema se transformava num gato. Tantas coincidências foram usadas por nós como motivos para amar este bichano sortudo, que veio parar na casa de pessoas que diziam não gostar de gatos. E assim, 4 meses depois, a casa estava de novo cheia de vida. Saíram os latidos grossos e cheios de graves ranhetas da Juju. Entraram os miadinhos agudos, longos e muito manhosos de Nonô. <3 Parece que o país quis se redimir conosco de alguma forma nos dando este gatinho de presente. 

Encontros e despedidas

Nossa vida no Sri Lanka foi rica, inclusive nas dores. E por termos vivido tudo muito intensamente chegou uma hora que concluímos: chegou a hora de partir. Na verdade, começamos a nos despedir desde que Jurema nos deixou. A sensação foi que íamos desapegando cada dia um pouquinho mais. Tudo o que era pitoresco foi começando a incomodar. Os modos, as formas de solucionar problemas, o modo de agor e pensar das pessoas... tudo isso foi aos poucos nos dando a certeza de que já tínhamos vivido tudo o que havia pra ser vivido neste país. 

No fim, as coisas aconteceram muito rápido e tivemos a chance de percorrer alguns dos países que figuravam como possibilidade de novo destino. Pudemos decidir com clareza, pesar o que seria importante, onde aprenderíamos mais, onde teríamos mais possibilidades de crescimento. E batemos o martelo na China. Tudo aconteceu de uma maneira tão suave que realmente parece que tinha tudo pra ser. Até o fato de não termos mais um cachorro, e sim um gato. Com o frio que vamos enfrentar no inverno de Pequim, um gatinho é muito mais cômodo de lidar que um cãozinho que demanda passeios. 

E, assim como acontece sempre, após a decisão da partida vem a dor das saudades de tudo o que começamos a deixar pra trás. O olhar pela janela do carro passa a perceber coisas que o costume nos tinha roubado. A sensação de frescor e novidade invadindo mais uma vez. A vontade de dar mais uma passeadinha e ir naquele lugar que você sempre quis, mas nunca arrumou jeito. Fora os amigos, a rotina, toda a vida organizada que a gente tinha, por mais que não estivesse perfeita. Tudo mudou com a marcação da data de partida. Fomos felizes aqui. E ainda recebemos novos amigos de presente no fizinho da nossa jornada. No final, ficou a sensação de gratidão.

[Sri Lanka] Subidas a pedras gigantescas, Safári e massagens relaxantes: um pouco do que se encontra por aqui.

Após um post sobre as dificuldades que enfrentei desde que me mudei para a minha casa, acho que é justo escrever sobre as maravilhas deste país onde morarei por algum tempo. Como qualquer país do mundo, o Sri Lanka tem seu lado feio, mas também tem um lado muito bonito, que merece ser visitado e admirado. 

Por ser uma ilha pequena (de norte a sul são menos de 500 quilômetros), o trânsito nas rodovias do país é intenso. Há poucas vias expressas. Isso faz com que um percurso de menos de 300km só possa ser vencido em mais de 5 horas de viagem. A maioria dos trajetos tem de ser feita em estradas estreitas, de mão dupla. Pra quem costumava reclamar que as estradas americanas eram enfadonhas, porque muito retas e isoladas de tudo, as do Sri Lanka são o oposto disso. Não são poucas as vezes em que você está subindo uma ladeira, numa pista onde só cabe um carro, e se depara com um ônibus fazendo o trajeto inverso. Uma aventura! Não se assuste, as pessoas aqui dirigem relativamente devagar. As estradas têm muitas curvas, não dá pra correr. Além disso, sempre há animais (vaca, bode, cachorro, búfalo, water-monitors e elefantes) no meio do caminho. Eu costumo dizer que se você cresceu nos anos 80/90 e jogou Atari, está pronto para se aventurar aqui. ;)

A ilha é pequena, mas há muitas atrações. Vai depender de quantos dias disponíveis você tem e do que você gostaria de ver. Praias, passeios de trem, plantações de chá, montanhas. Cidades históricas e/ ou com ruínas enormes, procissões e templos budistas. Observação de baleias e golfinhos nas costas noroeste, sul e leste e, finalmente, os parques nacionais. 

Coloco aqui um pouco do que eu conheci. Espero que seja de grande ajuda pra quem está interessado em dar uma passeada pelo antigo Ceilão. 

Dambulla - O Templo de Ouro e o Templo da Caverna

Saindo de Colombo em direção à região noroeste, o primeiro lugar importante por onde você vai passar será o Templo Dourado. Um buda gigantesco, em posição de lótus, repousa em cima da abertura principal de um museu. O templo, mesmo, é só o Buda. Há escadarias nos dois lados para que você suba e faça oferendas a ele, mas nada além disso. A visão dele é marcante. No museu eu nunca entrei. 

É gigantesco!

É gigantesco!

Já o templo da caverna é muito interessante. É um patrimônio mundial e está sofrendo um pouco com o turismo excessivo, o que já fez com que ficasse fechado por um tempo. A rocha onde ele foi construído tem mais de 160m de altura. É muita escada pra subir, já vou logo avisando. O Mosteiro que foi construído aqui abriga 5 cavernas e mais de 150 estátuas de Buda. Há, também, um micro templo hindu, logo na entrada. E além de tudo isso, foi visitando este templo que Paul Child e Julia McWillians começaram a se interessar um pelo outro. A história de Julia Child, como a conhecemos, começou aqui no Sri Lanka! 

Esta é uma das estátuas de Buda deitado que há dentro do Rock Temple. Vale a pena ver!

Esta é uma das estátuas de Buda deitado que há dentro do Rock Temple. Vale a pena ver!

Sigiryia - O Reino construído sobre uma imensa rocha

Do topo.

Do topo.

Sigiryia é o grande cartão postal do país. Qualquer vídeo ou artigo de turismo que você encontrar sobre o Sri Lanka, lá estará a Lion Rock, sobre a qual repousa um monastério e em cujo pé uma cidade inteira, muito sofisticada, existia. Subir até o topo exige pouco mais de 2 horas (a depender da quantidade de pessoas). Mas vale o esforço e o tempo empregados. A vista de lá de cima é uma das mais lindas que vi por aqui. Os melhores horários são no início e no fim do dia. O calor e o sol escaldantes justificam que seja assim. Use filtro solar e chapéu.

Mineryia Park - Safári incrível

Uma pequena amostra do que é possível ver aqui.

Uma pequena amostra do que é possível ver aqui.

Existem inúmeros parques espalhados pelo país, em todas as regiões. Não cheguei a visitar todos, mas o Mineryia Park é, de longe, o meu favorito. É lá que, entre os meses de junho e setembro, os elefantes da ilha se encontram numa grande migração. Lá eles encontram os amigos e ficam em grupos enormes aproveitando do lago no centro do parque. É possível ver filhotes brincando, mães cuidando dos filhos, elefantes tomando banho ou se alimentando o dia todo. E ainda há búfalos, muitos pássaros, veados e o leopardo. Este último nunca tivemos a sorte de ver. É preciso estar acompanhado de um bom tracker

Kalpityia - Golfinhos em alto mar

É muito difícil fotografar porque o mar é sempre muito agitado. Esta é uma foto tirada do vídeo que eu fiz.&nbsp;

É muito difícil fotografar porque o mar é sempre muito agitado. Esta é uma foto tirada do vídeo que eu fiz. 

A praia em si tem poucos atratativos pra quem vem do Brasil. Os srilanqueses não usam a praia como nós. Para eles é um lugar pra ir ver o pôr-do-dol e brincar com as crianças em família e só. Mas se você quiser ver grupos de golfinhos brincando em alto mar, ou se quiser fazer kite-surf, este é o lugar pra ir. Se for com tempo e ficar hospedado em hotel na região, pode aproveitar e ir visitar o parque nacional de Willpattu, que fica a uma hora e meia de carro da praia. 

Parques Nacionais

Não dá pra ver todos. Pesquise e escolha os que te parecem melhores. Também tem a melhor época do ano pra visitar cada um.&nbsp;

Não dá pra ver todos. Pesquise e escolha os que te parecem melhores. Também tem a melhor época do ano pra visitar cada um. 

Se você tem pouco tempo pra visitar o país e gosta de bichos, dá pra montar um roteiro só sobre eles. E os parques nacionais serão parte do destino de sua viagem. Nós visitamos Mineryia, Yala e Wilpattu. Escrevi sobre o primeiro num tópico a parte porque é o meu favorito pra ver muitos elefantes ao mesmo tempo. Não tivemos sorte em nossa visita a Yala. O parque enfrentava uma seca tremenda e os animais estavam quase todos escondidos. Em Wilpattu vimos muitas aves e o parque estava bem verdinho, lindo! Veja o mapa, pesquise sobre os parques e bata o seu martelo. 

Mirissa - Passeio para ver baleias

Outra coisa difícil de fotografar. Mas eu também nem tentei filmar muito. Preferi curtir a maravilha que estava acontecendo na minha frente.

Outra coisa difícil de fotografar. Mas eu também nem tentei filmar muito. Preferi curtir a maravilha que estava acontecendo na minha frente.

Aqui, na região sul da ilha, é onde ficam muitas escolas de surf e de onde partem uma infinidade de barcos que levam turistas para fazer passeios e ver as baleias. Escolha a sua com cuidado, dê uma olhada no TripAdvisor e avalie a forma como cada uma trata o passeio em relação a estes mamíferos gigantes e impressionantes. Digo isso porque há algumas empresas com barcos onde cabem muitas pessoas (e onde eles sempre colocam mais pessoas do que o permitido) e que se aproximam muito das baleias, chegando a se comportar como se as estivessem caçando, o que não é nada legal. O mar costuma ser agitado e todos os barcos oferecem um comprimido de Dramin, ou similar, para evitar o enjôo. O problema é que isso dá um sono... Mas o passeios costumam ser longos: 6 a 7 horas em alto mar. Café da manhã incluído. 

Viagem de Trem

Pra passar por cima da ponte de trem tem de viajar pra próxima estação depois de Ella. Ou pegar um tuktuk pra ir ver num mirante, como nós fizemos.&nbsp;

Pra passar por cima da ponte de trem tem de viajar pra próxima estação depois de Ella. Ou pegar um tuktuk pra ir ver num mirante, como nós fizemos. 

Primeiro de tudo: os trens são antigos e bem simples. E é bom que sejam assim. A viagem no mesmo vagão que os locais é bastante interessante. Velocidade lenta pra apreciar a paisagem. Fizemos duas viagens:

  • Nuwara Eliya para Ella: dizem ser uma das mais bonitas do país. Porém, há uma informação equivocada sobre este trajeto. A ponte dos 9 arcos, fotografada por 10 entre 10 blogueiros de viagens que vêm ao país, fica a 6 quilômetros DEPOIS da estação de Ella. Ou seja: se você quer passar de trem sobre a ponte, deve descer na estação após a de Ella. Se descer em Ella mesmo, contrate um tuktuk pra te levar pra uma caminhada até chegar num mirante e ver a ponte. Quem sabe você não dá sorte de ver um trem passar lá de cima? Algumas pessoas vão de tuktuk até a ponte e ficam aguardando o trem. Aí é com você. 
  • De Colombo a Kandy: É uma viagem bonita, com muita mata verde e vistas bacanas pra ver durante o trajeto. 

Kandy - A antiga capital

A cidade em si é um tanto caótica. Aliás, como toda cidade no Sri Lanka. Mas é aqui que está o Templo Budista mais famoso do país: O Tooth Relic Temple. Dizem que tem um dos dentes de Buda guardado dentro deste templo. Se é verdade, eu não sei. Mas o que vale de vir aqui é ver a relação dos budistas com a religião. Em alguns momentos, você chega a identificar similaridades com alguns centros católicos de peregrinação no Brasil. O que mais gosto é de ver as famílias que vêm inteiras fazer oferendas de incenso e flores, acender velas e dedicar um tempo em meditação e oração para Buda. Destaque para a forma como eles preparam as flores de lótus para serem ofertadas. 

Famílias em momento de devoção.

Famílias em momento de devoção.

Ainda em Kandy há também o Royal Bothanical Garden, um jardim botânico imenso, onde em um dia você consegue apreciar quase tudo num passeio tranquilo. Muitas famílias srilanquesas passam o dia aqui. Não estranhe se grupos de crianças correrem em sua direção, ou mesmo adultos, e pedirem para tirar uma foto. Aqui você também encontra algumas especiarias em seu estado fresco, no pé. Muito interessante! 

Nuwara Eliya - A região dos Chás

Que brasileiro não é muito ligado em chá a gente tá cansado de saber. Está? Bom, aquilo que comumente chamamos de chá no Brasil, na verdade chama-se infusão. Para os entendidos, chá mesmo, só a bebida produzida a partir da infusão em água quente da folha da Camellia Sinensis. É esta planta que se encontra em abundância plantada aqui. É dela que se faz o chá que os ingleses tomam. É esta planta da qual se fazem os chás preto, verde e branco. Estas diferenças todas se dão pelo método de fermentação, acondicionamento e mesmo o tipo de folha que é usada. Não entendo muito de chá. Cheguei a tentar fazer um curso sobre isso no Sri Lanka, mas não consegui. O treinamento deles está todo voltado para o mercado interno de hospitalidade. Eu, como brasileira, não tive muito acesso. Uma pena!

Esta região, além de ter as plantações de chá, é também onde as tea pluckers - mulheres que colhem os chás manualmente - trabalham com seus sarees coloridos. Elas aparecem muito nas fotos dos blogs de viagem e nas divulgações do país como destino turístico. Eu particularmente fiquei um pouco preocupada de ir atrás destas mulheres só para fotografá-las, porque elas não ganham nada com a exposição. Como não estão vinculadas ao sistema de hospitalidade do país, eu acho um tanto complicado este tipo de fotografia. Fizemos foi um passeio onde nos mostraram como é que elas se vestem e como é o processo de colheita. E algumas passaram por nós enquanto finalizavam mais um dia de trabalho. Achei mais interessante assim.

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Outra coisa legal sobre a região é que como fica localizada no centro da ilha, faz um friozinho bem gostoso quase que o ano todo. É importante só se informar se é período de chuvas ou não. A temperatura gira em torno de 15/16 graus celsius. Pro calor que faz em todos os outros lugares do país, vir aqui curtir um friozinho e uma lareira é sempre bom. Por conta da temperatura, a pegada aqui é um pouco inglesa, com hotéis bem típicos e High Teas sendo servidos por todos os lados. Traga pijama de flanela!

Ruínas

Há duas cidades onde você encontrará p maior tesouro arqueológico do Sri Lanka: Anuradhapura e Polonnaruwa. Se estiver nos seus planos visitar estas cidades, vá primeiro a Anuradhapura e depois a Polonnaruwa. Primeiro porque assim você vai na menos distante primeiro. Segundo porque Polonnaruwa é muito mais rica que Anuradhapura, embora esta última fosse sede do reino na época.

Stupas enormes. É nelas que se guardam relíquias de valor para os budistas.&nbsp;

Stupas enormes. É nelas que se guardam relíquias de valor para os budistas. 

Em Anuradhapura há um Bodhi Tree famosa. Esta é uma descendente direta da árvore onde Buddha atingiu a iluminação. É uma árvore sagrada. Pessoas vêm em romaria dos quatro cantos do país fazer promessas, rezas e consultar místicos. Você pode não acreditar em nada disso, mas eu tempo dois casais de amigos que conseguiram engravidar depois de visitarem esta árvore. Um deles consultou uma senhora mística que deu uma receita para que eles pudessem, depois de mais de 20 anos juntos e mais de 10 tentando ter um filho, gerar uma criança. A menina está toda linda e faceira por aí, com o mundo inteiro pra desbravar. "No creo en brujas, pero que las hay, las hay."

Em Polonnaruwa há estátuas gigantes de Buddha entalhadas na rocha, que sobreviveram a diversos ataques. Além disso o parque histórico é muito interessante. É muito grande, demanda mais de um dia de visita e pode ser feito de bicicleta. Como é muito espalhado, estar à pé pra ver tudo não é uma boa pedida. 

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Galle

Esta é uma cidade dentro de um forte Português, mas que os Srilanqueses cismaram que é Holandês. De toda forma, Galle te dá um quê de retorno históricas brasileiras. Aqui acontece um festival literário famoso no mês de janeiro. Outras coisas interessantes ocorrem aqui durante o ano. Há lojas de souvenir, restaurantes charmosos e tal. Em frente ao Amangala Hotel é fácil encontrar em encantador de serpentes em busca de dinheiro. Andar por cima das paredes da fortificação e olhar o mar é a melhor maneira de aproveitar a cidade. Fora isso, não muito mais o que fazer. Um dia e meio está ótimo. Nós usamos Galle sempre como um ponto de parada pra dar uma esticada nas pernas e almoçar, antes de pegarmos a estrada novamente em direção às praias do sul da ilha. 

Massagens

Em todo lugar que você estiver, seja em Colombo, Galle, Negombo, etc., haverá um spa oferecendo massagens relaxantes. Fora de Colombo o mais comum é a oferta de massagens ayurvédicas, com aplicação de muito óleo e pouca pressão. Vale a pena, os preços são bons (depende muito do hotel em que estiver hospedado). Mas não espere nada semelhante às massagens tailandesas, chinesas ou balinesas se você já as conhece. 

O Sri Lanka tem uma gente muito simples e sorridente, que pergunta "Where U from?" com muita frequência e que sabe os nomes de 2 ou 3 jogadores da seleção brasileira de futebol. Mesmo a maioria não sendo fluente em inglês, eles tentarão se comunicar com você e, claro, ganhar algum dinheiro. O que vale a pena enquanto você viaja pelas rodovias, é parar nas barraquinhas que vendem King Coconut e frutas, provar o que eles têm a oferecer, comer Mangostão, Rambutam (parente da Lichia), as variedades de bananas e mangas que eles têm. 

Quando você estiver em Colombo, dê uma chegadinha no  Galle Face Green  perto da hora do sol se pôr. Vá observar os srilanqueses com suas famílias aproveitando aquilo que ainda é de graça. Uma das coisas que mais gosto de fazer é vir aqui e observar. Depois que o sol se pôr, vá tomar um drink no  Galle Face Hotel,  o mais famoso da cidade.&nbsp;

Quando você estiver em Colombo, dê uma chegadinha no Galle Face Green perto da hora do sol se pôr. Vá observar os srilanqueses com suas famílias aproveitando aquilo que ainda é de graça. Uma das coisas que mais gosto de fazer é vir aqui e observar. Depois que o sol se pôr, vá tomar um drink no Galle Face Hotel, o mais famoso da cidade. 

Mas atenção! Aqui não é um lugar para você chegar, alugar um carro e sair dirigindo por aí! Primeiro porque a mão é inglesa. Segundo porque o srilanquês desenvolveu um modo muito peculiar de dirigir na estrada, o que pode ser um problema para os neófitos. Alugue um carro com motorista e divirta-se! 

[Diário de Bordo] Sobre o choque cultural e os 9 meses de Sri Lanka.

Quando ainda morava em Miami, eu costuma dizer que me sentia num limbo. Porque a cidade não é considerada americana pelos estadunidenses; porque há uma grande migração sul-americana; porque os sul-americanos que conheci eram, em sua maioria, gente desgostosa com seus países de origem e por isso falavam muito mal deles; porque a cidade me parecia artificial demais; porque foi muito difícil fazer amigos fora da comunidade brasileira... Tudo o que eu queria viver era uma experiência americana. Afinal é por isso que a gente mora em outro país, né? Experimentar uma nova forma de viver a vida. Pois, fora as viagens que fizemos e a infraestrutura fantástica que põe tudo o que você quer na sua porta, experimentar o american way of life foi tudo aquilo que não vivi em 3 anos e meio de residência. É claro que Miami me proporcionou coisas muito boas, não sou tola de dizer o contrário. Foi um período, no mínimo, confortável. E eu ainda pude compreender mais as incoerências do modelo "americano" de vida. Mas eu dizia aos meus amigos que achava que morar num limbo era muito difícil e que, por conta disso, eu achava que o choque cultural seria muito mais interessante de lidar. Ledo engano!

Choque cultural é um conjunto de situações que compõem a experiência do expatriado em seu novo lar. Uma sensação de estranhamento muito significativa, que te põe em xeque o tempo todo até que você consiga se adaptar à nova realidade. Leva tempo para se acostumar, ainda mais levando uma vida onde você necessariamente entra mais em contato com outros expatriados que com os locais. Dividido mais ou menos em 4 fases, lua-de-mel, negociação, ajustamento e adaptação; posso dizer que estas etapas fazem um certo sentido. Olhando minhas duas postagens anteriores sobre a vida no Sri Lanka, fica claro que eu estava em lua-de-mel com Colombo. Tudo era lindo, até o feio. Esta fase perdurou até mais ou menos 1 mês depois que mudamos para nossa residência definitiva (os primeiros 4 meses), quando comecei a vislumbrar o que seria o período de negociação.

Casa ao invés de apartamento

Cresci vivendo em apartamentos, estas caixinhas onde você está empilhado sobre outras pessoas, vivendo suas vidas tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Mas me acostumei a isso e chego a pensar que prefiro a vida em apartamentos. Uma casa dá a sensação de maior liberdade, mas com esta liberdade vem o trabalho redobrado. É jardim, mais sujeira pra limpar todo dia, insetos e outros bichos com os quais você não está acostumado. E as casas aqui em Colombo costumam ser muito grandes. Não gosto muito de espaços enormes. Acho desperdício. Quando eu finalmente comecei a enxergar poesia no fato de viver em uma casa, como quando vi a variedade de passarinhos que vêm me visitar no jardim todos os dias, aconteceu algo que me fez fechar pro mundo a minha volta de uma forma muito violenta.

Jurema foi atacada por um pastor alemão da vizinhança. 

Jurema é um cão de energia moderada. Nunca foi de grandes rompantes, com necessidade de correr horrores. Mas está acostumada a passear todos os dias por 3 vezes para cheirar as redondezas. Como um cão cuja raça foi desenvolvida para a caça, isso é algo que a faz muito feliz. Ela não compreendeu muito bem que o jardim era um lugar onde ela poderia passear e fazer suas necessidades. Pra ela aquilo fazia parte da casa e portanto, sem cheiros diferentes e interessantes, muito menos lugar de fazer a sujeira. Passei a passear com ela no quarteirão ao redor da casa e ela gostava muito. Até comecei a fazer amizade com uma musicista local que esteve no Brasil em meados dos anos 80 e que quis me mostrar as fotos da visita dela. Daí, aconteceu o inimaginável.

Fui passear com Jurema no fim da tarde de uma sexta-feira. De repente, apareceu um Pastor Alemão na minha frente. Jurema estava de coleira e correia, toda certinha. O pastor estava solto e sem supervisão. Os dois se encararam, Jurema começou a latir, eu paralisei de medo do cão nos atacar, mas fui puxando ela devagar. Ele chegou perto muito rápido e a atacou. Eu me lembro do barulho da boca dele se abrindo e a pegando até hoje. Por 4 meses, a primeira imagem que via quando fechava os olhos pra dormir era o ataque. Tentei tirá-la da boca do bicho nem sei como, não me ocorreu que ele poderia se voltar contra mim enquanto a atacava. Eu só queria que ele a soltasse. E ele a soltou, finalmente. Ela caiu nos meus pés. Olhei pra ela com medo de vê-la morta. Ela estava muito assustada e com um pedaço grande de pele arrancado das costas. Eu ouvi risos. Olhei dos dois lados e percebi que, enquanto eu tentava salvar meu cachorro, eu tive 3 testemunhas que nada fizeram para ajudar, mas assistiram a tudo rindo muito do acontecido. Do meu lado direito, dois policiais que faziam guarda numa residência oficial. Do lado esquerdo, a dona do Pastor. Eles riam. Eu entrei em pânico. Peguei Jurema no colo com cuidado e desatei a correr em direção à minha casa, deixando os risos para trás. Eu não conseguia compreender como tudo aquilo poderia ter acontecido. Como pessoas poderiam rir de algo tão horroroso. Como podem não ter oferecido nenhum tipo de ajuda. Fiquei em estado de choque.

Jurema foi operada e tudo correu bem. Ela não teve danos internos. O veterinário foi muito habilidoso na sutura e hoje mal dá pra ver a cicatriz. Jurema recuperou-se relativamente rápido e chegou a dar algum trabalho. Enquanto ainda tinha pontos, estava sempre muito agitada. Porém, dois dias depois do ataque, outro capítulo da história me deixou ainda mais assombrada. Três policiais vieram bater em minha casa. Um deles, Inspetor de polícia. Queriam modificar uma audiência, marcada por solicitação do meu marido na delegacia, cujo horário era no meio daquela tarde. A alegação era que a dona do pastor tinha uma consulta para ir e, por isso, precisava que eu aceitasse ir à delegacia no sábado. Eu disse que compreendia o pedido, mas que não poderia deixar meu cão sozinho porque se recuperava da cirurgia. Eles mudaram o tom de recomendação para algo que me pareceu uma ameaça. Digo isso porque outra coisa que eu percebi é que quando um srilanquês não quer ouvir o que você diz, ele dá uma de desentendido e começa a falar a língua local. Um deles veio me dizer que não entendia por que eu havia acionado a polícia se não estava querendo colaborar. Expliquei de novo que eu não podia ir só à delegacia, porque é meu marido quem tem visto de trabalho aqui. Ele teria de ir junto comigo. Quem testemunhou a agressão fui eu, portanto teria de estar presente. E no sábado não haveria ninguém para ficar com Jurema, dar os remédios e supervisionar a pobre. Aí eu comecei a me sentir coagida. O policial ia se aproximando mais de mim tentando se impor. Eu explicava e ele não compreendia de propósito. A dona do cão tinha suas razões eu não podia ter as minhas. Fui ficando sem ar e nervosa. Liguei para o Bruno, que me disse que a polícia comum não pode nos abordar como eles estavam fazendo. Me pediu para pegar os nomes dos policiais e passar pra ele. Quando comecei a anotar, o inspetor ligou para alguém. Bruno disse não desmarcaria audiência alguma, se a dona do cão agressor não podia comparecer, paciência. E me orientou a entrar em casa e não falar mais com os oficiais. Me despedi. O jardineiro que trabalha pra nós estava por perto neste dia para me ajudar com as trocas de idiomas e, assim que eu entrei pra casa, me disse que tudo era muito estranho: "Mam, this is totally nonsense! They can't do this to you!". Assim que eu fechei o portão, pude ver que os oficiais rumaram para a casa da dona do pastor. 

Vim saber depois que a senhora em questão é viúva de um juiz, morto em 2004 numa ação de retaliação a um julgamento por tráfico de drogas. A polícia no Sri Lanka é muito corrupta. E a viúva manda e desmanda nos policiais que tentaram me coagir. Eu comecei a pensar em como isso que eu tinha acabado de viver é tão comum na vida de tanta gente no Brasil. O sentimento é de uma impotência tão assustadora, onde você se torna tão vulnerável que a vontade é de sumir do mundo. Isso quando você não começa a duvidar de si e achar que você pode ter causado tudo aquilo. Como pode alguém ser vítima de algo e vir ser coagida pela polícia em sua própria casa? Eu não parava de chorar. Tudo o que eu queria era viver num apartamento que me fizesse sentir segura, onde eu pudesse esquecer que há vizinhos... Levei um certo tempo para me recuperar do episódio. Jurema foi mais rápida que eu. No fim, tudo acabou bem. A dona do cão não fez nada: quando muito pediu umas desculpas esfarrapadas pro Bruno. Pagar pelo tratamento da Jurema? Nem menção. Depois ainda viemos a saber que ela havia soltado o cão de propósito. Parece que não gostava que eu passasse na porta da casa dela com Jurema. O jardineiro tinha razão. Nonsense!

Conseguimos fazer com que Jurema se acostumasse a sentir que seu passeio seria no jardim. Levou tempo, mas ela também aceitou. Porém, nunca mais pude perguntar pra ela se queria passear, porque a palavra ainda significa ir pra fora de casa. E isso, ao menos aqui, ela não vai fazer mais...

A casa começa a mostrar coisas interessantes

A riqueza de pássaros e vida nativa do país é incrível. Eu já tive visitantes dos mais diversos tipos e cores por aqui. Outro dia vi uma ave pousar no jardim carregando um rato nas garras. O jardineiro disse que se tratava de uma espécie de águia do Sri Lanka. O rato conseguiu escapar. Seguem fotos colhidas na internet dos pássaros que pousaram no meu quintal.

Fonte:&nbsp;http://feathersofsrilanka.lk/wp-content/uploads/2015/11/IMG_0774-1.jpg

Fonte: http://feathersofsrilanka.lk/wp-content/uploads/2015/11/IMG_0774-1.jpg

Fonte:&nbsp;http://hackingfamily.com/Flora_&amp;_Fauna/SriLanka/SriLankaBirds.htm

Fonte: http://hackingfamily.com/Flora_&_Fauna/SriLanka/SriLankaBirds.htm

Fonte:&nbsp;https://www.pinterest.com/pin/424816177326875710/

Fonte: https://www.pinterest.com/pin/424816177326875710/

O pica-pau.  Fonte:&nbsp;http://feathersofsrilanka.lk/black-rumped-flameback/&nbsp;

O pica-pau.

Fonte: http://feathersofsrilanka.lk/black-rumped-flameback/ 

A águia que carregava o rato.  Fonte:&nbsp;http://feathersofsrilanka.lk/wp-content/uploads/2015/11/IMG_9177.jpg

A águia que carregava o rato.

Fonte: http://feathersofsrilanka.lk/wp-content/uploads/2015/11/IMG_9177.jpg

Fonte:&nbsp;http://hackingfamily.com/Flora_&amp;_Fauna/SriLanka/SriLankaBirds.htm

Fonte: http://hackingfamily.com/Flora_&_Fauna/SriLanka/SriLankaBirds.htm

Este pássaro achamos sendo atacado por corvos. Esta todo depenado e muito assustado. Jurema o viu e o atacou também. Conseguimos recolhê-lo antes que ela conseguisse pegá-lo. Tadinho, gritava tanto. O deixamos num jardim aberto que temos dentro da casa para que se recuperasse. Quando o dia amanheceu ele já tinha ido embora.  Fonte:&nbsp;http://www.mysrilankatours.com/bird-watching-in-sri-lanka/

Este pássaro achamos sendo atacado por corvos. Esta todo depenado e muito assustado. Jurema o viu e o atacou também. Conseguimos recolhê-lo antes que ela conseguisse pegá-lo. Tadinho, gritava tanto. O deixamos num jardim aberto que temos dentro da casa para que se recuperasse. Quando o dia amanheceu ele já tinha ido embora.

Fonte: http://www.mysrilankatours.com/bird-watching-in-sri-lanka/

Pelas cores dele, achei logo que fosse o Pica-pau do desenho! Um amigo me advertiu que se tratava de um Martim Pescador.  Fonte: http://www.templeberg.com/wp-content/uploads/2014/07/sri-lanka-birdlife-620x275.jpg

Pelas cores dele, achei logo que fosse o Pica-pau do desenho! Um amigo me advertiu que se tratava de um Martim Pescador.

Fonte: http://www.templeberg.com/wp-content/uploads/2014/07/sri-lanka-birdlife-620x275.jpg

Todos os dias, ao por-do-sol, morcegos sobrevoam a região em que moramos. Muitos! Enormes! Lindos de ver. Um monte de sinais de batman no céu.

Fonte:&nbsp;http://djelab.aminus3.com/image/2008-07-26.html

Fonte: http://djelab.aminus3.com/image/2008-07-26.html

Esquilos estão sempre cantarolando e mandando seus sinais uns para os outros. Subindo e descendo das árvores. 

E eis que apareceu a Margarida, o Water Monitor que eu queria tanto ter visto foi surgir de modo inesperado, quando as chuvas começaram. Margarida deu o ar da graça por 3 vezes. E eu fiquei encantada com o misto de cobra e jacaré passando na porta da minha casa, indo em direção à casa do pastor alemão. Os nativos aqui não têm medo dos lagartões. São muito comuns por toda a cidade. Enormes, podem atingir 2 metros de comprimento. Sabe-se lá quantos quilos. Margarida parecia estar prenha, procurando por um lugar seguro para a desova. 

O fato de trabalhar em casa acaba contribuindo para que eu me isole um pouco do mundo. O caso da Jurema reduziu ainda mais minhas saídas. Mesmo assim, consegui fazer algumas amizades bacanas, pessoas que estando na mesma situação buscam apoiar-se mutuamente, estreitando laços. Mas isso me fez perceber uma coisa: é muito difícil conseguir desabafar em uma segunda língua. As palavras saem mas parecem que não estão conectadas às emoções. Isso me faz sentir muitas saudades da presença dos meus amigos brasileiros. E as saudades do país só aumentam, além da angústia com nosso momento atual. Tudo colabora para que haja maior dificuldade de passagem para a nova fase do choque cultural, que é a do ajustamento. Fico pensando em quando isso vai ocorrer. Enquanto isso, vou descobrindo novos prazeres. Meditação e ioga têm sido uma descoberta incrível!  

Outro dia, eu estava voltando de uma caminhada quando um corvo me deu uma rasante e cagou na minha cabeça. Compreendi na hora que a fase de negociação deveria caminhar para o fim. Resta saber como será a próxima. Shit happens. Move on! 

[SriLanka] conhecendo a Canela Real do Ceilão.

O Sri Lanka é um dos maiores produtores de canela do mundo. Quando falamos da canela verdadeira, então, é o maior produtor e o país de origem. O que é Canela verdadeira? Isso pressupõe que a outra seja falsa?

A canela da china que conhecemos no ocidente é outro tipo de canela. São árvores "primas", mas enquanto a canela da china é produzida em larga escala e é mais barata, a canela real do ceilão é produzida aqui no Sri Lanka, em produção artesanal. Quando comparamos as duas vemos que as diferenças são gritantes, tanto na aparência, quanto no aroma e no sabor. A da china é mais firme e grossa, com cor intensa e aroma forte. A do Ceilão é mais clara, fina e seu aroma é muito sutil e doce. O sabor também é bem diferente, com a da China sendo muito terroso e punjente, enquanto que a do Ceilão é picante e doce, muito parecido com o sabor dos chicletes de canela que a gente tem no Brasil.

Canela da china à esquerda, Canela Real do Ceilão à direita.&nbsp;

Canela da china à esquerda, Canela Real do Ceilão à direita. 

Aqui dá pra perceber melhor as diferenças: enquanto a canela da china possui uma casca grossa e cor mais intensa, a Canela Real do Ceilão tem a casca fina e é enrolada como se fosse um charuto, com camadas sucessivas da casca.&nbsp;

Aqui dá pra perceber melhor as diferenças: enquanto a canela da china possui uma casca grossa e cor mais intensa, a Canela Real do Ceilão tem a casca fina e é enrolada como se fosse um charuto, com camadas sucessivas da casca. 

A canela da china é conhecida como Cinnamomum Cassia, cuja árvore pode atingir 15 metros de altura. Tem o caule grosso e lenhoso enquanto que a Cinnamomun verum é uma árvore mais baixa e de caule bem mais fino que a espessura de uma cana de açúcar.  

Canela da China.&nbsp;Fonte:&nbsp;https://pbs.twimg.com/media/CWNm64bU8AAaF9i.jpg

Canela da China. Fonte: https://pbs.twimg.com/media/CWNm64bU8AAaF9i.jpg

Plantação de canela do Ceilão.

Plantação de canela do Ceilão.

Fui visitar uma fazenda de canela do Ceilão e acompanhei todo o processo de produção para o blog. A fazenda é também um hotel-butique, oferecendo passeios interessantes. O restaurante deles trabalha pratos e bebidas feitos com canela. Uma boa forma de mostrar a versatilidade desta especiaria. Valeu a pena ter participado do passeio! 

Folhas da canela. Algumas apresentavam estas "verrugas". Eu tirei uma e senti o cheiro bem leve da canela nas folhas.&nbsp;

Folhas da canela. Algumas apresentavam estas "verrugas". Eu tirei uma e senti o cheiro bem leve da canela nas folhas. 

Depois de cortados os caules, o artesão senta-se sobre uma esteira e começa a preparação para a extração da canela.&nbsp;

Depois de cortados os caules, o artesão senta-se sobre uma esteira e começa a preparação para a extração da canela. 

O primeiro passo é raspar toda a parte exterior da casca do caule, usando um utensílio em formato de bumerangue. É só uma retirada de "pele" mesmo, como uma esfoliação.&nbsp;

O primeiro passo é raspar toda a parte exterior da casca do caule, usando um utensílio em formato de bumerangue. É só uma retirada de "pele" mesmo, como uma esfoliação. 

Raspa do caule.&nbsp;

Raspa do caule. 

A segunda etapa consiste em esfregar firmemente uma ferramenta cilíndrica sobre o caule, como que para soltar a casca a ser cortada posteriormente.&nbsp;

A segunda etapa consiste em esfregar firmemente uma ferramenta cilíndrica sobre o caule, como que para soltar a casca a ser cortada posteriormente. 

Depois de terminada a preparação, começa-se a extração da canela. O artesão começa pelo meio do caule, fazendo cortes de aproximadamente 20cm no sentido do comprimento. Depois corta em torno do caule, em cima e embaixo deste primeiro corte e solta a casca que depois de seca será a canela.&nbsp;

Depois de terminada a preparação, começa-se a extração da canela. O artesão começa pelo meio do caule, fazendo cortes de aproximadamente 20cm no sentido do comprimento. Depois corta em torno do caule, em cima e embaixo deste primeiro corte e solta a casca que depois de seca será a canela. 

As ferramentas utilizadas pelos artesãos da canela.&nbsp;Da esquerda para a direita: o raspador, a faca de corte e extração da casca e o bastão de tratamento da casca, antes da retirada.&nbsp;

As ferramentas utilizadas pelos artesãos da canela. Da esquerda para a direita: o raspador, a faca de corte e extração da casca e o bastão de tratamento da casca, antes da retirada. 

Alguns pedaços menores da casca se desprendem durante o processo. É neste momento que o artesão começa a rechear as cascas perfeita da canela com estes retalhos, até que ela se pareça com um charuto.&nbsp;

Alguns pedaços menores da casca se desprendem durante o processo. É neste momento que o artesão começa a rechear as cascas perfeita da canela com estes retalhos, até que ela se pareça com um charuto. 

Aqui o charuto já preparado. Abaixo, um vídeo com parte do processo e explicações do proprietário e seus funcionários.&nbsp;

Aqui o charuto já preparado. Abaixo, um vídeo com parte do processo e explicações do proprietário e seus funcionários. 

Depois de assistirmos ao processo de produção, fomos ao galpão onde as canelas são armazenadas para a exportação. Se fosse canela da china, penso que seria impossível permanecer num galpão cheio delas. Mas como a do Ceilão possui um aroma muito mais suave, estar na presença de tanta canela junta foi muito tranquilo. Um leve cheirinho de madeira com especiaria no ar.&nbsp;

Depois de assistirmos ao processo de produção, fomos ao galpão onde as canelas são armazenadas para a exportação. Se fosse canela da china, penso que seria impossível permanecer num galpão cheio delas. Mas como a do Ceilão possui um aroma muito mais suave, estar na presença de tanta canela junta foi muito tranquilo. Um leve cheirinho de madeira com especiaria no ar. 

Todo o processo feito na fazenda é artesanal. Funcionando como uma cooperativa, os funcionários ganham seus salários como num sistema de distribuição de lucros. Aqui, as senhorinhas que costuram as embalagens de socos de sisal para exportação. 25 quilos de canela!&nbsp;

Todo o processo feito na fazenda é artesanal. Funcionando como uma cooperativa, os funcionários ganham seus salários como num sistema de distribuição de lucros. Aqui, as senhorinhas que costuram as embalagens de socos de sisal para exportação. 25 quilos de canela! 

Em tempo: se você ficou se perguntando o que fazem com o caule descascado da canela, respondo: palitos de dente! 

Fonte:&nbsp;http://i.ebayimg.com/00/s/NTAxWDUwMQ==/z/kV0AAOxyn~pRz4Z6/$(KGrHqJ!oQFG)iRKmGBRz4Z53eh!~~60_35.JPG?set_id=880000500F

Fonte: http://i.ebayimg.com/00/s/NTAxWDUwMQ==/z/kV0AAOxyn~pRz4Z6/$(KGrHqJ!oQFG)iRKmGBRz4Z53eh!~~60_35.JPG?set_id=880000500F

Dados da visita: 

Fazenda Villa Mayurana (clique no nome da fazenda para acessar o site - em inglês)

PELASSA ROAD - SANTHOSAGAMA
AHANGAMA, SRI LANKA

 

[Diário de Bordo] Os três primeiros meses em Colombo

Dia desses eu fiquei com uma vontade incrível de rever Lost in Translation (no Brasil, Encontros e Desencontros) de Sophia Coppola. Depois de 3 meses vivendo aqui no Sri Lanka eu posso dizer que me sinto um pouco como a personagem de Bill Murray nessa cena engraçadíssima do comercial de uísque.

No início eu me surpreendi com a quantidade de gente falando inglês que encontrei aqui. Mas depois eu percebi que isso se devia ao fato de eu estar hospedada numa área hoteleira, onde circulam muitos turistas. Depois que nos mudamos para nossa casa, encontrei as dificuldades de comunicação sobre as quais eu já havia lido em sites sobre o país. Daí que se tornou muito comum eu precisar de um intérprete para me comunicar com as pessoas no dia a dia e passei a me sentir assim: peço algo muito simples e a tradução é quase um parágrafo. A conversa entre meu intérprete e a outra pessoa dura tanto tempo e nunca corresponde, em tamanho, à informação que recebo. É uma sensação não muito agradável. Vou acabar tendo de me inscrever num curso de Sinhala, a língua mais falada por aqui. 

O Sri Lanka é um país onde falam-se 3 línguas: o Sinhala, o Tamil e o inglês (esta última não é oficial). Como os ingleses foram os colonizadores mais recentes, ainda há quem fale inglês por aqui, mas isso se restringe às pessoas que tiveram acesso à uma educação melhor e que moram nos grandes centros ou as que trabalham no setor de hospitalidade. Portanto, não é tão fácil assim se comunicar por aqui. É claro que as pessoas que lidam mais com turistas acabam compreendendo um pouco do inglês e facilitando um pouco a vida, mas mesmo assim é algo muito limitado. Nestes três meses ainda oscilei bastante entre o turístico e o local. Aos poucos estou descobrindo os meus lugares favoritos para tomar um chá, comprar roupa, procurar itens para organizar melhor a casa, o melhor veterinário pra Jurema... Acho que essa oscilação vai existir por um bom tempo, até que eu me sinta totalmente em casa e orientada na cidade. Até lá, tenho muito o que aprender. 

Mão inglesa

Aqui o trânsito funciona ao contrário. A direção dos veículos fica do lado direito e a faixa em que dirigimos é a esquerda. Ainda não me aventurei ao volante, embora já esteja de posse de minha habilitação. Mas ainda estamos sem carro, que compramos da fábrica e será enviado para nós apenas em junho. Desta maneira, tenho utilizado o sistema de transporte deles aqui. Ainda não peguei ônibus, eles costumam ficar tão lotados que não sei se vou animar a ter essa experiência. Caso a se pensar. De toda forma a gente experimentou o trânsito como pedestre logo de início e posso dizer que até se acostumar com as regras novas você toma muitos sustos e experimenta uma zonzeira como se fosse cair a qualquer momento. A experiência te bagunça de um jeito que você sente literalmente que o chão esta te atraindo pra um imenso tombo. Levou mais ou menos uma semana para essa sensação deixar de existir. 

Tuk-tuks

Uma das coisas que demorei um pouco pra experimentar foram os tuk-tuks. Logo que cheguei descobri, para minha surpresa, que aqui também tinha Uber. Como eu estava meio incomodada com o trânsito caótico e do lado contrário, resolvi utilizar os serviços do aplicativo, já que o preço de uma corrida de Uber é praticamente o mesmo de uma de tuk-tuk. Por conta disso, só fui começar a andar nos triciclos depois do primeiro mês. O que me fez decidir usá-los de vez foi o fato de que eles acabam sendo mais ágeis e rápidos, fazendo a corrida ser menos longa. Você consegue ter uma idéia do por que no vídeo abaixo. 

Serviços bancários

Há mais de 10 anos que eu não sei o que é precisar lidar com funcionários de banco. Principalmente no Brasil, onde resolvia tudo por internet banking ou sacando dinheiro nos caixas eletrônicos. Já em Miami tive de lidar um pouco com estas instituições financeiras porque nos EUA pagam-se taxas cada vez que se tira dinheiro de caixas eletrônicos. Uma média de 3 dólares para cada saque de até 200 dólares. Para evitá-las, eu sacava meu dinheiro no banco. Mas era um processo relativamente rápido. Já aqui no Sri Lanka eu abri uma conta num banco só para poder passar raiva. Até agora eu não consegui fazer nada a não ser sacar dólares pra depois trocá-los em casas de câmbio. A última vez que tentei pagar uma conta passei mais de 1 hora tentando compreender por que o banco não podia receber o pagamento. Tratava-se de uma conta de valor alto, de eletricidade. Eu procurei o banco porque queria me sentir mais segura em manusear a quantia que eu carregava. mas o banco não recebe dinheiro em espécie. Aliás, até recebe. Quando fiz o depósito na conta que abri eles receberam a grana. Mas pagamento de contas eles não recebem de jeito nenhum! Tenho de fazer meus pagamentos nas concessionárias ou em alguns pontos espalhados na cidade, onde não há privacidade. Complicado... É quando você começa a seguir uma rotina semelhante de onde você morava antes que as diferenças culturais aparecem e o famoso Choque Cultural dá as caras. 

Valor do dinheiro

As rúpias srilanquesas.

As rúpias srilanquesas.

Cada dólar compra 146 Rúpias Srilanquesas, em média. Falo de dólar porque era a moeda com a qual eu estava acostumada a lidar até 4 meses atrás. Por conta dessa disparidade de valor eu estava achando tudo aqui muito barato e tinha perdido completamente a noção do valor do dinheiro. Por exemplo: os tuk-tuks funcionam como um táxi. Têm taxímetro. Mas há alguns deles que ou simplesmente não têm o aparelho medidor ou têm, mas quando atendem estrangeiros não o utilizam. Eu custei a perceber isso e achava que tinha que negociar o preço da corrida a cada triciclo que contratava. E independente do trajeto e da distância, o preço que me cobravam eram sempre 200 rúpias. Comecei a achar estranho, mas pensava que não tinha nada de mal, porque este valor não dá nem 2 dólares. Mas daí eu comecei a compreender que eu tinha de saber o valor do dinheiro aqui, como um local. Foi quando, por curiosidade, resolvi converter os valores em rúpias para o Real Brasileiro. E daí comecei a ver que os preços aqui são relativamente semelhantes aos de Brasília. Segundo o site Expatistan.com, o custo de vida de Colombo é 32% menor que o de Brasília. Já a comparação com Miami mostra quase o dobro da diferença com o Brasil. Me situei. Agora só pego tuk-tuk que utilize o taxímetro. Mesmo assim é possível pegar um tuk-tuk com a maquininha adulterada. É bom tomar cuidado. Descobri que para começar a rodar o taxímetro levam-se 12 minutos com valor fixo de 50 rúpias. Depois desta descoberta, nunca mais me enganaram. 

Poluição

O ar em Colombo é poluído. Percebi isso assim que chegamos, porque tínhamos uma vista boa do 17 andar do hotel onde estávamos hospedados. Todos os dias pela manhã há uma bruma no ar e um leve cheio de queimado. Boa parte da poluição deve-se aos tuk-tuks e seus motores de 2 tempos, além dos ônibus velhos que circulam pelas ruas. Mas um hábito da população local colabora significativamente pra este cheiro de queimado pela cidade. Ao varrer as ruas pra tirar as folhas e algum possível lixo em frente de suas casas, os moradores fazem um montinho com o que foi varrido e põem fogo! Todo dia você tem fumaça entrando no seu jardim e na sua casa. Eu corro e fecho as janelas todas. Não sei se o fogo é só uma atitude no sentido de desaparecer com o lixo ou se usam a fumaça para espantar mosquitos também. Preciso fazer amizade com um local para tentar compreender estas diferenças culturais. Não que isso não ocorra em outros países, mas aqui é um traço cultural mesmo. Faz parte do hábito diário das pessoas. 

Banheiros Femininos

Logo que chegamos vi uma placa como esta num banheiro público: 

"Atenção: evite lavar seus pés no vaso sanitário."

"Atenção: evite lavar seus pés no vaso sanitário."

Fiquei interessada em saber o que exatamente significava este aviso, porque a placa se localizava próxima ao toalheiro, perto das pias. Pensei que eles tinham usado a palavra errada para referir-se à pia e achei engraçado. Mas ao mesmo tempo me intrigava a idéia de que poderiam ter-se referido ao vaso sanitário de verdade. Até que me deparei com a imagem da foto acima. E o piso do banheiro estava realmente todo molhado. "Que nojo!", pensei. "Como assim lavam os pés no vaso sanitário?".

Comecei a prestar mais atenção. As mulheres aqui usam sandálias abertas na rua. Em muitos pontos da cidade as calçadas são falhas (quando existem) e há muita terra, areia e fuligem nas ruas. Percebi isso tudo porque passei a usar sandálias pra driblar o calor e me vi, muitas vezes, com os pés cheios de areia e sujos. O motivo passou a ser mais óbvio para mim quando vi que os boxes de chuveiro nas casas possuem também uma torneira, na metade da altura do chuveiro, justamente para que lavem-se os pés. Juntei A com B e aprendi, na prática, aquela máxima de que você só consegue compreender o outro quando calça seus sapatos/ coloca-se em seu lugar. Na falta de um lugar para limparem seus pés da sujeira da rua, só resta à elas usar a ducha higiênica que todo banheiro tem, usando o vaso sanitário para receber a água suja.

Eu fiz piadas com a imagem da primeira placa no facebook com meus amigos. Rimos à beça, mas hoje quando vejo esta placa eu sinto um misto de culpa, pena e revolta pelas mulheres daqui. É da cultura delas usar sandálias e seus pés ficam sujos pela falta de calçamento nas ruas. Toda mulher tem o direito de querer estar arrumada pra um encontro qualquer, ou pra chegar ao trabalho, entrar num shopping ou qualquer outro lugar. Se há o hábito de lavarem-se os pés quando chegam ao seu destino, por que os banheiros públicos não oferecem um box com uma torneira exclusiva pra este fim? Seria muito melhor do que ficar colando avisos em todos os banheiros, não? 

Em tempo: homens também usam muito chinelo por aqui. Perguntei ao meu marido se os banheiros masculinos tinham os mesmos avisos. Ele disse que não. 

A relação de situações diferentes é grande e muito interessante. Vou deixar as outras para um próximo post, senão este ficará muito grande. No mais, uma única certeza: meus 3 meses de Colombo tem sido muito mais ricos que os mais de 3 anos que vivi em Miami. 

Mudança de Ares: o Expresso Canela agora tem sede no Sri Lanka!

Um dos motivos pelos quais o blog tem esse nome é que, de tempos em tempos, eu me mudarei de cidade e de país. Com o objetivo de conhecer bastante a gastronomia local, nada melhor que um espaço como esse para compartilhar as experiências. E depois de quase 4 anos em solo estadunidense, eis que nos mudamos de mala, cuia, computador e cachorrinho para o Sri Lanka, capital: Colombo.

Jurema, em sua primeira aparição no Blog. Ainda em Miami, já estávamos empacotados, rumo ao aeroporto.

Jurema, em sua primeira aparição no Blog. Ainda em Miami, já estávamos empacotados, rumo ao aeroporto.

Uma curiosidade antes de prosseguir. Esta é a segunda vez que um concurso culinário prediz onde morarei. Em 2011 participei de um concurso de uma revista paulistana, cujo prêmio maior era representar o Brasil numa feira de alimentação que ocorreria em Miami. Não ganhei, mas fui morar na cidade um ano depois. Ano passado, participei de um concurso cujo prêmio era passar uma semana viajando pelo Sri Lanka, gravando vídeos e escrevendo sobre as experiência gastronômica no país. Não fui selecionada, mas cá estou eu pra morar por aproximadamente 2 anos e meio. Qual será o próximo destino? Confesso que não estou com tanta pressa assim pra descobrir. 

A vista que temos do quarto do hotel. Um grande empreendimento imobiliário chinês está tomando corpo. Atrás, uma lagoa e logo adiante, o Oceano Índico.&nbsp;

A vista que temos do quarto do hotel. Um grande empreendimento imobiliário chinês está tomando corpo. Atrás, uma lagoa e logo adiante, o Oceano Índico. 

Chegamos no dia 13 de janeiro. Com as dez horas e meia de diferença de fuso horário com Miami e 7 horas e meia de diferença com o Brasil, ainda era 12 de janeiro pelas bandas de lá. Desde então estávamos lidando com os efeitos do jet lag e tentando ajustar nossos relógios biológicos ao horário local. Às 6 horas da tarde (7h30 da manhã em Miami) eu era acometida por um sono incontrolável. Acabava sendo vencida, Jurema se achegava e dormíamos juntas. Tudo errado! Uma semana depois, consigo não sucumbir ao sono durante o dia. Mas ainda tenho ido dormir mais cedo que o meu normal. Acho que vou aproveitar e deixar assim. Acordar mais cedo tem sido bom. Como estamos hospedados num hotel temporariamente, até acharmos uma casa e nossos móveis chegarem, o café da manhã tem sido bastante agradável e educativo acerca das comidas típicas daqui. Alguns exemplos:

Meu primeiro café da manhã Cingalês. Frutas com gosto bem parecido com as do Brasil.&nbsp;

Meu primeiro café da manhã Cingalês. Frutas com gosto bem parecido com as do Brasil. 

Esse é o  Hopper , uma panqueca feita com leite de côco, farinha de arroz e sal, servida com um ovo cozido dentro. Por cima eu espalhei um pouco de  Pol Sambol , um condimento de côco ralado com pimenta. Delicioso!

Esse é o Hopper, uma panqueca feita com leite de côco, farinha de arroz e sal, servida com um ovo cozido dentro. Por cima eu espalhei um pouco de Pol Sambol, um condimento de côco ralado com pimenta. Delicioso!

O chá é o grande destaque entre as bebidas aqui. O Sri Lanka é um dos maiores produtores de chá do mundo. Essa marca é uma das mais famosas.

O chá é o grande destaque entre as bebidas aqui. O Sri Lanka é um dos maiores produtores de chá do mundo. Essa marca é uma das mais famosas.

Há sempre opções indianas no cardápio. Esse era um pão chato e bem fino e crocante, recheado de batatas condimentadas. Ao lado um pouco de chutney de côco e um tomate assado que achei em outra ilha de comida.&nbsp;

Há sempre opções indianas no cardápio. Esse era um pão chato e bem fino e crocante, recheado de batatas condimentadas. Ao lado um pouco de chutney de côco e um tomate assado que achei em outra ilha de comida. 

O contato com a comida tem sido um capítulo à parte. Eu gosto muito de comida indiana e de pimenta. A comida cingalesa tem muitas semelhanças com a comida do país super populoso ao norte. Até porque o Sri Lanka fez parte da grande Índia, antes da independência. Dizem que a comida cingalesa é muito mais apimentada que a indiana. Comparada com as adaptações que conheço até agora, é mesmo. Preciso ir à Índia para confirmar se isso é verdade. O fato é que eu já achei que quase fosse morrer (ao menos que a minha boca explodiria para sempre) de tanta especiaria num único prato. Percebi, na prática, uma das vantagens de se comer comida extremamente temperada por aqui: você come, transpira, pega um ventinho e refrigera. No calor daqui isso é sempre uma grande vantagem! Porém, confesso que fiquei preocupada como meu corpo reagiria a tanto condimento. Até agora, com excessão da boca, o restante do meu sistema digestivo deu conta numa boa. O que é ótimo! 

Encontrar uma casa tem sido um desafio. Para um casal sem filhos e com um cachorro, achar uma casa pequena tem sido complicadíssimo! Cachorros não são admitidos em praticamente nenhum prédio da cidade. A corretora me contou que muçulmanos não têm uma boa relação com cães e os consideram impuros. Para evitar confusões, os condomínios vetaram. Daí a necessidade de morarmos em casa desta vez. 

Aqui as construções são mais antigas, em estilo colonial e com muitos quartos. Acima de 4 é o normal. Isso sem falar em dependência de empregados, algo muito comum por aqui. Tanto que as casas têm até duas cozinhas! Pra quem estava acostumada a fazer todo o serviço de casa, tem sido tudo muito interessante e estranho. 

Vista de um apartamento que eu vi e que surpreendentemente aceita cães. Infelizmente, Colombo fica a oeste da ilha do Sri Lanka. Isso significa dizer que pra ter uma vista linda desta, é preciso passar o calor infernal de ter o apartamento virado para o poente. Confesso que fiquei meio tentada a desconsiderar isso, mas...

Vista de um apartamento que eu vi e que surpreendentemente aceita cães. Infelizmente, Colombo fica a oeste da ilha do Sri Lanka. Isso significa dizer que pra ter uma vista linda desta, é preciso passar o calor infernal de ter o apartamento virado para o poente. Confesso que fiquei meio tentada a desconsiderar isso, mas...

O sol, pondo-se no mar.&nbsp;

O sol, pondo-se no mar. 

Após uma semana de chegada posso dizer que várias histórias deverão aparecer por aqui. É tudo muito novo, desde as pessoas te olhando na rua como se você fosse um ET, passando por templos budistas espalhados pela cidade, as comidas incríveis, o povo hospitaleiro, as roupas das mulheres, as festas... Por falar em roupa e festa, hoje aconteceu um casamento no hotel. Segue uma foto das convidadas, para ter uma idéia.

Gordurinhas a mais aqui parecem ser consideradas charme.&nbsp;Já gostei!

Gordurinhas a mais aqui parecem ser consideradas charme. Já gostei!