[Diário de Bordo] Os três primeiros meses em Colombo

Dia desses eu fiquei com uma vontade incrível de rever Lost in Translation (no Brasil, Encontros e Desencontros) de Sophia Coppola. Depois de 3 meses vivendo aqui no Sri Lanka eu posso dizer que me sinto um pouco como a personagem de Bill Murray nessa cena engraçadíssima do comercial de uísque.

No início eu me surpreendi com a quantidade de gente falando inglês que encontrei aqui. Mas depois eu percebi que isso se devia ao fato de eu estar hospedada numa área hoteleira, onde circulam muitos turistas. Depois que nos mudamos para nossa casa, encontrei as dificuldades de comunicação sobre as quais eu já havia lido em sites sobre o país. Daí que se tornou muito comum eu precisar de um intérprete para me comunicar com as pessoas no dia a dia e passei a me sentir assim: peço algo muito simples e a tradução é quase um parágrafo. A conversa entre meu intérprete e a outra pessoa dura tanto tempo e nunca corresponde, em tamanho, à informação que recebo. É uma sensação não muito agradável. Vou acabar tendo de me inscrever num curso de Sinhala, a língua mais falada por aqui. 

O Sri Lanka é um país onde falam-se 3 línguas: o Sinhala, o Tamil e o inglês (esta última não é oficial). Como os ingleses foram os colonizadores mais recentes, ainda há quem fale inglês por aqui, mas isso se restringe às pessoas que tiveram acesso à uma educação melhor e que moram nos grandes centros ou as que trabalham no setor de hospitalidade. Portanto, não é tão fácil assim se comunicar por aqui. É claro que as pessoas que lidam mais com turistas acabam compreendendo um pouco do inglês e facilitando um pouco a vida, mas mesmo assim é algo muito limitado. Nestes três meses ainda oscilei bastante entre o turístico e o local. Aos poucos estou descobrindo os meus lugares favoritos para tomar um chá, comprar roupa, procurar itens para organizar melhor a casa, o melhor veterinário pra Jurema... Acho que essa oscilação vai existir por um bom tempo, até que eu me sinta totalmente em casa e orientada na cidade. Até lá, tenho muito o que aprender. 

Mão inglesa

Aqui o trânsito funciona ao contrário. A direção dos veículos fica do lado direito e a faixa em que dirigimos é a esquerda. Ainda não me aventurei ao volante, embora já esteja de posse de minha habilitação. Mas ainda estamos sem carro, que compramos da fábrica e será enviado para nós apenas em junho. Desta maneira, tenho utilizado o sistema de transporte deles aqui. Ainda não peguei ônibus, eles costumam ficar tão lotados que não sei se vou animar a ter essa experiência. Caso a se pensar. De toda forma a gente experimentou o trânsito como pedestre logo de início e posso dizer que até se acostumar com as regras novas você toma muitos sustos e experimenta uma zonzeira como se fosse cair a qualquer momento. A experiência te bagunça de um jeito que você sente literalmente que o chão esta te atraindo pra um imenso tombo. Levou mais ou menos uma semana para essa sensação deixar de existir. 

Tuk-tuks

Uma das coisas que demorei um pouco pra experimentar foram os tuk-tuks. Logo que cheguei descobri, para minha surpresa, que aqui também tinha Uber. Como eu estava meio incomodada com o trânsito caótico e do lado contrário, resolvi utilizar os serviços do aplicativo, já que o preço de uma corrida de Uber é praticamente o mesmo de uma de tuk-tuk. Por conta disso, só fui começar a andar nos triciclos depois do primeiro mês. O que me fez decidir usá-los de vez foi o fato de que eles acabam sendo mais ágeis e rápidos, fazendo a corrida ser menos longa. Você consegue ter uma idéia do por que no vídeo abaixo. 

Serviços bancários

Há mais de 10 anos que eu não sei o que é precisar lidar com funcionários de banco. Principalmente no Brasil, onde resolvia tudo por internet banking ou sacando dinheiro nos caixas eletrônicos. Já em Miami tive de lidar um pouco com estas instituições financeiras porque nos EUA pagam-se taxas cada vez que se tira dinheiro de caixas eletrônicos. Uma média de 3 dólares para cada saque de até 200 dólares. Para evitá-las, eu sacava meu dinheiro no banco. Mas era um processo relativamente rápido. Já aqui no Sri Lanka eu abri uma conta num banco só para poder passar raiva. Até agora eu não consegui fazer nada a não ser sacar dólares pra depois trocá-los em casas de câmbio. A última vez que tentei pagar uma conta passei mais de 1 hora tentando compreender por que o banco não podia receber o pagamento. Tratava-se de uma conta de valor alto, de eletricidade. Eu procurei o banco porque queria me sentir mais segura em manusear a quantia que eu carregava. mas o banco não recebe dinheiro em espécie. Aliás, até recebe. Quando fiz o depósito na conta que abri eles receberam a grana. Mas pagamento de contas eles não recebem de jeito nenhum! Tenho de fazer meus pagamentos nas concessionárias ou em alguns pontos espalhados na cidade, onde não há privacidade. Complicado... É quando você começa a seguir uma rotina semelhante de onde você morava antes que as diferenças culturais aparecem e o famoso Choque Cultural dá as caras. 

Valor do dinheiro

 As rúpias srilanquesas.

As rúpias srilanquesas.

Cada dólar compra 146 Rúpias Srilanquesas, em média. Falo de dólar porque era a moeda com a qual eu estava acostumada a lidar até 4 meses atrás. Por conta dessa disparidade de valor eu estava achando tudo aqui muito barato e tinha perdido completamente a noção do valor do dinheiro. Por exemplo: os tuk-tuks funcionam como um táxi. Têm taxímetro. Mas há alguns deles que ou simplesmente não têm o aparelho medidor ou têm, mas quando atendem estrangeiros não o utilizam. Eu custei a perceber isso e achava que tinha que negociar o preço da corrida a cada triciclo que contratava. E independente do trajeto e da distância, o preço que me cobravam eram sempre 200 rúpias. Comecei a achar estranho, mas pensava que não tinha nada de mal, porque este valor não dá nem 2 dólares. Mas daí eu comecei a compreender que eu tinha de saber o valor do dinheiro aqui, como um local. Foi quando, por curiosidade, resolvi converter os valores em rúpias para o Real Brasileiro. E daí comecei a ver que os preços aqui são relativamente semelhantes aos de Brasília. Segundo o site Expatistan.com, o custo de vida de Colombo é 32% menor que o de Brasília. Já a comparação com Miami mostra quase o dobro da diferença com o Brasil. Me situei. Agora só pego tuk-tuk que utilize o taxímetro. Mesmo assim é possível pegar um tuk-tuk com a maquininha adulterada. É bom tomar cuidado. Descobri que para começar a rodar o taxímetro levam-se 12 minutos com valor fixo de 50 rúpias. Depois desta descoberta, nunca mais me enganaram. 

Poluição

O ar em Colombo é poluído. Percebi isso assim que chegamos, porque tínhamos uma vista boa do 17 andar do hotel onde estávamos hospedados. Todos os dias pela manhã há uma bruma no ar e um leve cheio de queimado. Boa parte da poluição deve-se aos tuk-tuks e seus motores de 2 tempos, além dos ônibus velhos que circulam pelas ruas. Mas um hábito da população local colabora significativamente pra este cheiro de queimado pela cidade. Ao varrer as ruas pra tirar as folhas e algum possível lixo em frente de suas casas, os moradores fazem um montinho com o que foi varrido e põem fogo! Todo dia você tem fumaça entrando no seu jardim e na sua casa. Eu corro e fecho as janelas todas. Não sei se o fogo é só uma atitude no sentido de desaparecer com o lixo ou se usam a fumaça para espantar mosquitos também. Preciso fazer amizade com um local para tentar compreender estas diferenças culturais. Não que isso não ocorra em outros países, mas aqui é um traço cultural mesmo. Faz parte do hábito diário das pessoas. 

Banheiros Femininos

Logo que chegamos vi uma placa como esta num banheiro público: 

 "Atenção: evite lavar seus pés no vaso sanitário."

"Atenção: evite lavar seus pés no vaso sanitário."

Fiquei interessada em saber o que exatamente significava este aviso, porque a placa se localizava próxima ao toalheiro, perto das pias. Pensei que eles tinham usado a palavra errada para referir-se à pia e achei engraçado. Mas ao mesmo tempo me intrigava a idéia de que poderiam ter-se referido ao vaso sanitário de verdade. Até que me deparei com a imagem da foto acima. E o piso do banheiro estava realmente todo molhado. "Que nojo!", pensei. "Como assim lavam os pés no vaso sanitário?".

Comecei a prestar mais atenção. As mulheres aqui usam sandálias abertas na rua. Em muitos pontos da cidade as calçadas são falhas (quando existem) e há muita terra, areia e fuligem nas ruas. Percebi isso tudo porque passei a usar sandálias pra driblar o calor e me vi, muitas vezes, com os pés cheios de areia e sujos. O motivo passou a ser mais óbvio para mim quando vi que os boxes de chuveiro nas casas possuem também uma torneira, na metade da altura do chuveiro, justamente para que lavem-se os pés. Juntei A com B e aprendi, na prática, aquela máxima de que você só consegue compreender o outro quando calça seus sapatos/ coloca-se em seu lugar. Na falta de um lugar para limparem seus pés da sujeira da rua, só resta à elas usar a ducha higiênica que todo banheiro tem, usando o vaso sanitário para receber a água suja.

Eu fiz piadas com a imagem da primeira placa no facebook com meus amigos. Rimos à beça, mas hoje quando vejo esta placa eu sinto um misto de culpa, pena e revolta pelas mulheres daqui. É da cultura delas usar sandálias e seus pés ficam sujos pela falta de calçamento nas ruas. Toda mulher tem o direito de querer estar arrumada pra um encontro qualquer, ou pra chegar ao trabalho, entrar num shopping ou qualquer outro lugar. Se há o hábito de lavarem-se os pés quando chegam ao seu destino, por que os banheiros públicos não oferecem um box com uma torneira exclusiva pra este fim? Seria muito melhor do que ficar colando avisos em todos os banheiros, não? 

Em tempo: homens também usam muito chinelo por aqui. Perguntei ao meu marido se os banheiros masculinos tinham os mesmos avisos. Ele disse que não. 

A relação de situações diferentes é grande e muito interessante. Vou deixar as outras para um próximo post, senão este ficará muito grande. No mais, uma única certeza: meus 3 meses de Colombo tem sido muito mais ricos que os mais de 3 anos que vivi em Miami.