Se a vida te der um limão, faça um bolo de tâmaras!

A vida da gente traça caminhos tão tortuosos que, às vezes, a gente se vê com um "limão nas mãos". Aquele, que o ditado diz ser melhor transformar numa limonada. Ocorre que nem sempre é tão fácil assim encontrar a receita da tal limonada. E, mesmo que seja algo aparentemente simples de fazer - porque demanda apenas 2 ou 3 ingredientes -, as condições em que aquela limonada deverá ser feita interferirão em todo o processo. 

A primeira vez que experimentei tâmaras foi no Mercado Municipal de São Paulo. Confesso que eu não consegui entender por que tanta gente celebrava a dita, iguaria caríssima e doce como melado. Depois desta experiência, só consigo me lembrar de tê-las comido novamente quando um casal de amigos, que vive em Doha, veio nos visitar e nos deram uma caixa de tâmaras recheadas de presente. E daí a experiência foi outra. Maravilhosa! Desenvolvimento de paladar? O fato de estar vivendo como expatriada? Outras referências? Tudo junto?

"Quem planta tâmaras, não colhe tâmaras." Provérbio oriental.

"Quem planta tâmaras, não colhe tâmaras." Provérbio oriental.

Eu já disse que quando eu tinha 15 anos eu  achava minha vida chata porque morava no mesmo apartamento desde que tinha nascido. Tempo voa e hoje eu sou uma pessoa que monta e desmonta a vida inteira em lugares diferentes a cada 2 ou 3 anos. A idéia da limonada, que serviu para as tâmaras, se aplicou significativamente neste processo. A gente muda o tempo todo. Porém, ouso dizer que a vida meio nômade que levo hoje me virou do avesso de uma forma que eu fiquei um tempo procurando "cadê a Paula que estava aqui?". Muito mais do que lidar com o envelhecimento inevitável, as mudanças de cenário, a irregularidade nas atividades profissionais, a perda da proximidade da família e dos amigos, além de uma vida nova com data de validade pra construir quase do zero. O estilo de vida que levo desde que saí do Brasil me fez questionar praticamente tudo o que eu sabia ao meu respeito. Percebi coisas sobre mim mesma que eu desconhecia e que foram-me reveladas em situações das mais diversas. Quando há choque de culturas então, parece que o processo de reconhecimento toma uma dimensão incrível, porque ele envolve uma desconstrução nível-hard. Você se vê com medo e acuado. E este medo é o seu limão. Como transformar o medo em limonada? 

Fonte: Gazeta do Povo

Fonte: Gazeta do Povo

Quando meu marido chegou em casa com 4 pacotes, de 1 quilo cada, de tâmaras eu pensei "o que eu vou fazer com tantas tâmaras?". Isso me incomodou e eu coloquei os pacotes na despensa pra pensar um pouco. Como pode um carregamento de tâmaras, de presente, aborrecer uma pessoa? Até que eu entendi que da mesma forma que eu estava aprendendo a lidar com as perdas e ganhos da vida expatriada fazendo minha limonada, eu deveria receber os presentes que vinham de maneira a transformá-los em algo mais prazeroso. Eu percebi que eu poderia agradar outras pessoas com o presente que tinha ganhado. Desta forma, dois pacotes foram oferecidos a amigos e os outros dois foram oferecidos em forma de bolo. O mais interessante disso tudo foi que, compreendendo que eu só poderia resolver meu problema sendo generosa com outras pessoas, eu acabei sendo muito mais generosa comigo mesma. E ainda, de quebra, voltei a escrever no blog! 

Esta receita foi garimpada na internet e adaptada. Fiz em 3 ocasiões distintas, uma delas para celebrar os 90 anos de uma amiga que fiz aqui no Sri Lanka. Muitas pessoas comeram dele. Elogiaram. Eu amei. E agora divido esta delícia com quem quiser, finalizando com a certeza de que minha vida de expatriada tem me proporcionado mais ganhos do que eu pensava. E que compartilhar minhas experiências por meio deste blog me faz um bem danado e eu devo valorizar mais isso. Bom apetite!

Bolo de tâmaras, nozes e uísque, com cobertura de chocolate e caramelo levemente salgado.

Para o bolo:

250ml de água filtrada

430g de tâmaras secas, descaroçadas

3 colheres de sopa de uísque (pode ser rum ou conhaque também)

2 colheres de sopa de café coado forte

4 colheres de sopa de cacau em pó

200g de farinha de trigo 

1 pitada de sal

1 colher de sobremesa de canela em pó (se quiser pode por mais ou incrementar com outras especiarias como cravo, cardamomo, noz-moscada)

130g de manteiga sem sal, temperatura ambiente (mais uma colher para untar a forma)

120g de açúcar demerara

3 ovos inteiros grandes

1 colher de chá de fermento em pó

1 colher de chá de bicarbonato de sódio

60g de nozes pecã ou comuns picadas

Modo de fazer: 

Descaroce as tâmaras, pese-as e coloque-as numa tigeja resistente ao calor. Faça a mise en place completa da pasta de tâmaras. Ferva a água e verta-a sobre as tâmaras - a quantidade será suficiente para cobri-las. Passe o café bem forte e adicione as duas colheres dele à tigela. Junte o cacau em pó peneirado, a bebida alcoólica (aqui na foto eu coloquei 2 colheres de uísque e uma de rum, mas pode ser tudo de uma coisa só) e misture. Deixe esfriar pra continuar a receita.

Descaroce as tâmaras, pese-as e coloque-as numa tigeja resistente ao calor. Faça a mise en place completa da pasta de tâmaras. Ferva a água e verta-a sobre as tâmaras - a quantidade será suficiente para cobri-las. Passe o café bem forte e adicione as duas colheres dele à tigela. Junte o cacau em pó peneirado, a bebida alcoólica (aqui na foto eu coloquei 2 colheres de uísque e uma de rum, mas pode ser tudo de uma coisa só) e misture. Deixe esfriar pra continuar a receita.

Enquanto espera a pasta de tâmaras esfriar, pré-aqueça o forno a 180 graus e separe o restante dos ingredientes. Unte a forma com manteiga e forre com um papel manteiga. Unte por cima do papel. Reserve.

Enquanto espera a pasta de tâmaras esfriar, pré-aqueça o forno a 180 graus e separe o restante dos ingredientes. Unte a forma com manteiga e forre com um papel manteiga. Unte por cima do papel. Reserve.

Quando a mistura de tâmaras estiver fria processe-a com um mixer, ou no liquidificador, até que vire uma pasta. Separe 1/4 do total da mistura em um  bowl  menor.  Reserve.

Quando a mistura de tâmaras estiver fria processe-a com um mixer, ou no liquidificador, até que vire uma pasta. Separe 1/4 do total da mistura em um bowl menor. Reserve.

Bata a manteiga pomada com o açúcar até que ganhe volume e fique esbranquiçado. Adicione um ovo por vez, batendo sempre para que ele se incorpore inteiro na massa. Ao acrescentar o terceiro ovo você perceberá que a massa estará com um aspecto levemente talhado. É normal.

Bata a manteiga pomada com o açúcar até que ganhe volume e fique esbranquiçado. Adicione um ovo por vez, batendo sempre para que ele se incorpore inteiro na massa. Ao acrescentar o terceiro ovo você perceberá que a massa estará com um aspecto levemente talhado. É normal.

Misture os secos todos numa tigela grande e tenha à mão as 3 tigelas.

Misture os secos todos numa tigela grande e tenha à mão as 3 tigelas.

Incorpore a pasta de tâmaras em 3 partes, intercalando com os secos. Adicione as nozes picadas no início da mistura, assim que adicionar a primeira parte da pasta de tâmaras.

Incorpore a pasta de tâmaras em 3 partes, intercalando com os secos. Adicione as nozes picadas no início da mistura, assim que adicionar a primeira parte da pasta de tâmaras.

Finalize a mistura dos ingredientes de maneira bem delicada. A massa é bastante densa e aveludada. Verta sobre a forma e nivele-a com a ajuda da espátula/pão-duro. Leve ao forno pro aproximadamente 1 hora, ou até que um palito inserido no centro do bolo saia limpo. Tire o bolo do forno e espere que esfrie completamente.

Finalize a mistura dos ingredientes de maneira bem delicada. A massa é bastante densa e aveludada. Verta sobre a forma e nivele-a com a ajuda da espátula/pão-duro. Leve ao forno pro aproximadamente 1 hora, ou até que um palito inserido no centro do bolo saia limpo. Tire o bolo do forno e espere que esfrie completamente.

Cobertura

50g de manteiga sem sal

60g de açúcar demerara

1 colher de sopa rasa de água filtrada

1 a 2 pitadas de sal

100g de chocolate meio amargo (de preferência acima de 60% cacau)

2 colheres de sopa de uísque (ou a bebida que você escolheu usar no bolo)

Modo de fazer: 

Enquanto esfria o bolo, faça a cobertura: leve o açúcar, a manteiga e a água ao fogo. Assim que a manteiga derreter inteiramente, conte 3 minutos em fogo baixo.

Enquanto esfria o bolo, faça a cobertura: leve o açúcar, a manteiga e a água ao fogo. Assim que a manteiga derreter inteiramente, conte 3 minutos em fogo baixo.

Quando o caramelo estiver com borbulhas médias é hora de tirar. Adicione as duas colheres de creme de leite fresco gelado à mistura. Isso vai ajudar a arrefecer a temperatura. Adicione o chocolate e misture até que ele derreta por completo. Junte o uísque, misture e deixe que atinja a temperatura ambiente.

Quando o caramelo estiver com borbulhas médias é hora de tirar. Adicione as duas colheres de creme de leite fresco gelado à mistura. Isso vai ajudar a arrefecer a temperatura. Adicione o chocolate e misture até que ele derreta por completo. Junte o uísque, misture e deixe que atinja a temperatura ambiente.

 

Montagem: 

Com o 1/4 restante da pasta de tâmaras, cubra a parte superior do bolo...

Com o 1/4 restante da pasta de tâmaras, cubra a parte superior do bolo...

nivelando-a bem para que receba o creme de chocolate. Aproveite para a certar alguma imperfeição da superfície do bolo com a pasta.

nivelando-a bem para que receba o creme de chocolate. Aproveite para a certar alguma imperfeição da superfície do bolo com a pasta.

Coloque o creme de chocolate por cima e nivele com uma espátula de confeitaria ou com as costas de uma colher de sopa. Aqui em Colombo é muito quente, a cobertura estava muito líquida e eu a queria mais firme. Adicionei um pouco mais de cacau em pó e amido de milho pra deixá-la mais densa.

Coloque o creme de chocolate por cima e nivele com uma espátula de confeitaria ou com as costas de uma colher de sopa. Aqui em Colombo é muito quente, a cobertura estava muito líquida e eu a queria mais firme. Adicionei um pouco mais de cacau em pó e amido de milho pra deixá-la mais densa.

Espalhe o creme de chocolate com cuidado para não trazer a pasta de tâmaras à superfície. Decore por cima com nozes ou tâmaras e sirva.

Espalhe o creme de chocolate com cuidado para não trazer a pasta de tâmaras à superfície. Decore por cima com nozes ou tâmaras e sirva.

Uma fatia é um ótimo acompanhamento para um chá preto!

Uma fatia é um ótimo acompanhamento para um chá preto!

[Sri Lanka] Love Cake: um bolo muito popular para celebrar um ano neste país!

O tempo voa!

Todo mundo sabe disso, mas algumas coisas fazem você perceber isso com mais força. Crianças costumam nos mostrar isso de maneira muito evidente: se você tem filhos, vê-los crescer fascina e assusta ao mesmo tempo. Se você não os tem, mas tem amigos, irmãos ou alguém próximo que os tenha, poderá perceber o quão rápido o tempo passou toda vez que você vir aquela pessoinha; e perceber que ela já é totalmente diferente da última vez em que você a viu. Minha sobrinha já está passando minha mãe em altura. já fazem quase 5 anos que eu não acompanho seu crescimento e nas poucas vezes que a vi, tomei um susto!

Outra maneira de ver como o tempo passa rápido é quando mudamos de país. Tanta novidade junta vai sendo incorporada aos poucos e, de repente, tcharã: Um ano se passou! 

O Sri Lanka nos proporcionou muitas coisas, entre estranhamentos e similaridades identificadas, aqui e ali, com o Brasil. Passamos por momentos complicados, outros bastante agradáveis, conhecemos pessoas novas, fizemos amigos, incorporamos novos hábitos... E é interessante perceber o quanto a gente foi mudando neste processo, lapidando coisas que a gente nem sabia que existiam, percebendo vontades que tínhamos aprendido a guardar no fundo da memória. Aprendemos a viver a vida num ritmo diferente do de Miami, onde tudo costumava ser muito rápido e fluido. Aqui as coisas são mais lentas e a contemplação acabou ganhando mais força. Todos estes contrastes foram muito interessantes de serem vividos e, apesar de toda a dificuldade que por vezes enfrentamos (e ainda enfrentamos) por aqui, o saldo é positivo. Um saldo de amor. Daquele que se sente mesmo quando se conhece os defeitos do objeto amado. 

Escolhi o Love Cake para celebrar este primeiro ano porque é um bolo diferente, mas ao mesmo tempo traz uma familiaridade. Eu encontrei neste bolo a síntese do meu primeiro ano de Sri Lanka e o resultado é um bolo ideal para um chá da tarde. De sabores muito particulares e familiares ao mesmo tempo, o sabor leve e a textura da castanha de caju predomina, mas também é possível perceber as especiarias e o leve perfume da água de rosas. Dizem que os pedaços devem ser cortados suficientes para uma bocada só. E que o seu pedaço deve ser dado a outra pessoa, na boca, como bons bocadinhos de amor como uma troca de carinho. O Love Cake é a minha maneira de dizer muito obrigada dando um bocadinho de bolo na boca de quem está lendo este post. E o melhor: dá pra replicar em casa!

Love Cake (rende bastante, então pode fazer meia receita sem culpa)

250g de semolina levemente tostada

200g de manteiga sem sal

300g de açúcar (usei demerara, mas pode ser do branco)

4 ovos inteiros

4 gemas

80g de mel de abelhas

2 colheres de sopa de água de rosas

1 colher de chá de canela em pó

1 colher de chá de cardamomo em pó

1 pitada de nox moscada ralada na hora

300g de castanha de caju crua, sem sal, triturada

gengibre desidratado (opcional. Pode usar abacaxi seco no lugar que vai ficar ótimo!)

Açúcar de confeiteiro para polvilhar por cima. 

Modo de fazer: 

Pese e separe todos os ingredientes antes de começar. Pré-aqueça o forno a 150 graus. Unte a forma (mesmo se for antiaderente) e forre com um papel manteiga, untando a superfície do papel também. Este bolo tem muita gordura, mas se não untar deste jeito ele gruda na forma sem dó!

Pese e separe todos os ingredientes antes de começar. Pré-aqueça o forno a 150 graus. Unte a forma (mesmo se for antiaderente) e forre com um papel manteiga, untando a superfície do papel também. Este bolo tem muita gordura, mas se não untar deste jeito ele gruda na forma sem dó!

Leve a semolina numa frigideira seca ao fogo. Toste-a levemente. 

Leve a semolina numa frigideira seca ao fogo. Toste-a levemente. 

Com cuidado pra não deixar queimar. use uma espátula e mexa sem parar. É só pra dar uma tostadinha mesmo. Desligue o fogo, passe a semolina para um outro recipiente e deixe esfriar.

Com cuidado pra não deixar queimar. use uma espátula e mexa sem parar. É só pra dar uma tostadinha mesmo. Desligue o fogo, passe a semolina para um outro recipiente e deixe esfriar.

Como em toda receita tradicional, existem várias versões e modos de fazer o Love Cake. Mas a verdade é que este bolo é quebradiço, não tem muita estrutura. Portanto, a melhor maneira de fazê-lo é incorporando menos ar. Escolhi o método de cremado por ser o melhor pra garantir que o resultado seria perto do que eu esperava. 

Junte a manteiga em ponto pomada (fácil de passar no pão) com o açúcar numa batedeira e bata até que a mistura fique esbranquiçada. 

Junte a manteiga em ponto pomada (fácil de passar no pão) com o açúcar numa batedeira e bata até que a mistura fique esbranquiçada. 

Acrescente as gemas, uma a uma, esperando que elas incorporem antes de adicionar a outra. Estamos fazendo uma emulsão aqui. Adicionar tudo de uma vez pode desandar a massa. 

Acrescente as gemas, uma a uma, esperando que elas incorporem antes de adicionar a outra. Estamos fazendo uma emulsão aqui. Adicionar tudo de uma vez pode desandar a massa. 

Faça o mesmo com os ovos. Como as claras têm muita umidade, aqui você terá de esperar um pouco mais até que o ovo incorpore à massa. Tenha um pouco de paciência.

Faça o mesmo com os ovos. Como as claras têm muita umidade, aqui você terá de esperar um pouco mais até que o ovo incorpore à massa. Tenha um pouco de paciência.

Adicione o mel e continue a bater, potência média, com o batedor raquete. Adicione também a água de rosas.

Adicione o mel e continue a bater, potência média, com o batedor raquete. Adicione também a água de rosas.

Misture as especiarias em pó na semolina e adicione à massa, batendo em potência mínima.

Misture as especiarias em pó na semolina e adicione à massa, batendo em potência mínima.

Incorpore as castanhas de caju trituradas. Este processo deverá ser feito no início da receita, antes de começar a bater os ingredientes. Você pode deixar as castanhas mais pedaçudas, se quiser. Mas pelo menos metade dos 300g que a receita pede devem estar assim como na foto. 

Incorpore as castanhas de caju trituradas. Este processo deverá ser feito no início da receita, antes de começar a bater os ingredientes. Você pode deixar as castanhas mais pedaçudas, se quiser. Mas pelo menos metade dos 300g que a receita pede devem estar assim como na foto. 

Bata até incorporar. Adicione as frutas desidratadas, misture um pouco e desligue a batedeira. Verta a mistura na assadeira previamente preparada. Asse por aproximadamente 1 hora ou até que o palito saia limpo. Espere esfriar com a assadeira numa grade por uns 20 minutos e desenforme com a ajuda de uma espátula. Não esqueça de retirar o papel! 

Bata até incorporar. Adicione as frutas desidratadas, misture um pouco e desligue a batedeira. Verta a mistura na assadeira previamente preparada. Asse por aproximadamente 1 hora ou até que o palito saia limpo. Espere esfriar com a assadeira numa grade por uns 20 minutos e desenforme com a ajuda de uma espátula. Não esqueça de retirar o papel! 

IMG_8564.JPG

[Série amigos] Bolo "Elma Chips" ou "A amizade é uma tarde de bolo com café...".

Quando eu penso em cada amiga minha, é quase que automático lembrar de um prato que sintetiza a nossa amizade. Um sabor, aliado à um momento que ficou parado no tempo e no espaço. Que cristaliza a relação de carinho mútuo e pra onde minha memória sempre volta quando eu sinto saudades. No caso da Ana Flávia é este bolo, que eu apelidei de Elma Chips por conta do slogan que a companhia usava quando eu era mais nova: "É impossível comer um só!". Muitos o conhecem como "Bolo de Vó"; outros, como "Bolo de Nada". Mas este último nome é completamente injusto. Tem muita história aqui.

Eu e a Aninha nos conhecemos por conta de um fracasso mútuo. Ambas éramos repetentes do 1o ano do segundo grau. Fomos estudar numa turma pequena, do turno vespertino, num colégio particular da asa sul em Brasília. Lembro nitidamente do nosso primeiro contato. Ela, baixinha e de cabelos longos, o rosto quadrado e muito expressivo, iniciava cada frase com uma expressão que usa até hoje: "Ow garôta!". Não sei muito bem o que foi que nos uniu, assim, tão imediatamente: o fato de termos Minas Gerais no sangue; termos estudado numa mesma escola anteriormente; termos mães nascidas no mesmo dia, ou o fato de morarmos relativamente perto uma da outra e nunca termos nos visto antes. Mas uma coisa é certa: a conversa começou pra nunca mais parar. Começamos a dividir o mesmo caminho de volta pra casa à pé e a identificação foi surgindo. Foram muitos quilômetros percorridos, onde a gente falava mal do mundo, desejava comer sem engordar, compartilhava dietas malucas, lamentava os infortúnios amorosos, "previmos" a invenção do telefone celular e desejamos que, ao invés de calçadas, a cidade tivesse esteiras rolantes para que a gente não precisasse andar de volta pra casa. 

Passamos de ano e fomos separadas de turma. Eu tinha começado a namorar a distância nas férias e minha cabeça vivia em outro lugar. Nós nos encontrávamos na hora do recreio (onde eu conheci o irmão mais novo dela) mas eu acabei mudando de escola no final do ano e nos afastamos. Ela me contou que eu arranjei um emprego pra ela numa loja onde trabalhei, mas eu não me lembro. Pouco mais de um ano depois, me mudei pra Belo Horizonte e nunca mais ouvi falar dela. Até que um dia, uns 4 anos depois, ela me viu num bar de rock em BH e me chamou. A partir daí a gente nunca mais se perdeu uma da outra. Incrível como algumas pessoas permanecem na nossa vida, né? O mundo dá voltas e elas sempre surgem de novo pra nos fazer felizes. 

Voltei pra Brasília, ela descobriu que estava grávida. Eu acompanhei toda a gravidez e ia constantemente à sua casa para passar as tardes. Foi aí que entrou este bolo na minha vida. Não chega a ser nenhuma novidade, é um bolo como os que todo mundo já provou por aí. Mas essa receita acabou virando a síntese da nossa amizade: simples, gostosa, rápida e reconfortante. Como boa mineira, Aninha sempre me recebe com algum quitute. Invariavelmente ela o faz enquanto conversamos: aquece o forno, bate o bolo e prepara o café. E assunto nunca faltou. Somos capazes de comer a roda inteira do bolo emendando um caso no outro... Aliás, ouso dizer que a Ana Flávia é a amiga com quem eu mais tive contato e com a qual nunca faltou assunto. A identificação entre a gente é incrível e eu me sinto parte da família dela. A gente tem uma forma parecida de ver o mundo e discutimos sobre tudo, vida pessoal e trabalho, num nível de compreensão tão absurdo que me é difícil descrever. Houve uma época em que me sentia mais à vontade na casa dela do que na minha. Então este bolo tem, pra mim, um significado especial que se traduz em aconchego. É quase como seu eu pudesse comer nossa história, me apropriar dela. 

Aninha sempre me apoiou. Quando eu me formei em Psicologia, optei por receber meu diploma numa cerimônia sem-graça e cafona numa sala comum da faculdade. Ela e o marido fizeram questão de ir. Ela foi minha madrinha de casamento e, mesmo com a vida corrida que ela levava (e ainda leva), sempre encontrava um tempinho pra me acompanhar nas provas do vestido. Aninha foi me encontrar no salão no dia do casamento. Foi pra ela que eu contei que, desde criança, quando tive minha primeira crise de herpes labial, eu morria de medo de ter uma crise no dia do meu casamento. Só contei no dia porque não queria dar margem para que acontecesse. Fiz a cara que eu achei que ia ficar se tivesse de casar com herpes. Ela riu demais. Nunca vou me esquecer! 

Sempre fizemos questão de participar da vida uma da outra. Nas menores coisas. Já cuidei de sua filha mais velha para que ela e o marido pudessem ir a um show de Sandy & Junior. Fui a primeira de "fora da família" que a viu com o segundo filho nos braços (me redimi de ter estado longe quando a primeira filha nasceu). Procurei estar o mais próxima possível (graças ao Whatsapp) dela quando o pai adoeceu. Tive a sorte de ter podido abraçá-la e dividir o momento tão triste que foi a missa de sétimo dia dele. Depois de 24 anos nós vivemos tantas coisas juntas e, ainda assim, sinto nossa amizade fresca e renovada. Porque como dizia Vinícius "amigos a gente reconhece por aí". E eu tive que repetir de ano na escola só pra reconhecer a Aninha. No fim, o nome de salgadinho pra esse bolo significa muito mais do que comer até estourar. Significa que a cada encontro nosso outros inúmeros se farão necessários. Porque metade de mim é amor, e a outra metade é esse bolo aí. Sorte a minha!

Bolo Elma Chips

200g de manteiga

200g de açúcar

6 gemas

200g de farinha de trigo peneirada

1 colher de sopa de fermento em pó

1 pitada de sal

4 claras batidas em neve

Modo de fazer

Pré aqueça o forno a 180 graus Celsius. Unte uma assadeira com manteiga e um pouco de farinha de trigo. Bata a manteiga com o açúcar até ficar fofo e esbranquiçado. 

Pré aqueça o forno a 180 graus Celsius. Unte uma assadeira com manteiga e um pouco de farinha de trigo. Bata a manteiga com o açúcar até ficar fofo e esbranquiçado. 

Adicione as gemas, uma a uma, sempre batendo. Espere cada gema incorporar à massa para adicionar a outra. Reserve

Adicione as gemas, uma a uma, sempre batendo. Espere cada gema incorporar à massa para adicionar a outra. Reserve

Bata as claras em neve a picos moles. 

Bata as claras em neve a picos moles. 

Junte 1/3 da farinha peneirada com o sal e o fermento em pó e misture até incorporar. Adicione 1/3 das claras e misture suavemente. Não precisa incorporar tudo pra adicionar o segundo terço da farinha. Junte mais 1/3 das claras e mexa com movimentos de baixo pra cima. Adicione o último terço de farinha e depois de mexer um pouco, o último terço das claras em neve delicadamente à massa. 

Junte 1/3 da farinha peneirada com o sal e o fermento em pó e misture até incorporar. Adicione 1/3 das claras e misture suavemente. Não precisa incorporar tudo pra adicionar o segundo terço da farinha. Junte mais 1/3 das claras e mexa com movimentos de baixo pra cima. Adicione o último terço de farinha e depois de mexer um pouco, o último terço das claras em neve delicadamente à massa. 

Coloque a massa na assadeira, previamente untada, niveland a massa com o auxílio de uma espátula. É uma massa mais densa, então precisa ser espalhada direitinho pra que fique uniforme. No caso desta forma que usei, precisei 'untar' a forma com uma camada de massa por cima do untado inicial (usei um colher de sopa para espalhar) para que a massa entrasse nas ranhuras da forma. Depois foi só acrescentar o resto da massa e fazer um fosso com a mesma colher de sopa no meio da superfície do bolo. Isso impede que ele cresça demais no meio e fique com bordas muito baixas. 

Coloque a massa na assadeira, previamente untada, niveland a massa com o auxílio de uma espátula. É uma massa mais densa, então precisa ser espalhada direitinho pra que fique uniforme. No caso desta forma que usei, precisei 'untar' a forma com uma camada de massa por cima do untado inicial (usei um colher de sopa para espalhar) para que a massa entrasse nas ranhuras da forma. Depois foi só acrescentar o resto da massa e fazer um fosso com a mesma colher de sopa no meio da superfície do bolo. Isso impede que ele cresça demais no meio e fique com bordas muito baixas. 

Leve ao forno até que fazer o teste do palito.  Mesmo assim ele cresceu bastante no centro. 

Leve ao forno até que fazer o teste do palito. Mesmo assim ele cresceu bastante no centro. 

Sirva quentinho, acompanhado de manteiga e/ou geléia, além de um cafezinho passado na hora.

Um viva às grandes amizades! 

Bolo de aniversário americano ou Birthday Cake da Christina Tosi.

A primeira vez que ouvi falar da Christina Tosi foi num programa do David Chang, para o The Mind of a Chef. Ela é a chef confeiteira responsável pelo Momofuku Milkbar e tornou-se um case de sucesso recentemente, porque suas criações são consideradas inusitadas, sem deixar de lado o rol de clássicos da confeitaria americana. Explico: pra mim, a grande sacada da chef foi ter investido no paladar um tanto quanto infantil dos americanos quando se fala em bolos, biscoitos e tortas. Ela busca sabores em reminiscências da infância e em produtos industriais consagrados, criando novos modos de fazer e apresentar seu trabalho. Mas ela vai além disso, incluindo ingredientes diferentes ou em outros estágios de maturação e aplicando-os de maneira inusitada. Pra você ter uma idéia, ela fez cookies com fubá, nos quais eu me inspirei na primeira receita publicada no blog. Nada demais? Não para os norte-americanos, ela muito sucesso com a receita! Aqui, milho é ingrediente de pratos salgados, até o Corn Cake (bolo de fubá) deles é salgado, como um pão, comumente um acompanhamento para sopas e pratos com caldos mais ricos.

Com a receita que une inovação e resgate de sabores da infância, além de muito trabalho e dedicação, ela foi de confeiteira de uma lojinha a dona de um império que produz bolos (e outras delícias) despachados para os quatro cantos do país, cada um custando em média 100 dólares. E ela é, também, desde a última temporada, jurada do Masterchef EUA, ao lado de Gordom Ramsay e Grant Elliot . Achei a história dela muito interessante e comecei a prestar atenção a tudo que saía sobre na internet. E aí, um dia, apareceu este bolo na minha timeline

A apresentação dele é bem divertida e me fez lembrar aquele bolo formigueiro, que minha mãe fazia pra gente quando éramos crianças. Eu fiquei encantada com a idéia de usar uma massa pintainha. Tentei me lembrar se já tinha visto um bolo recheado cuja massa fosse a do formigueiro e não consegui. A vontade de fazer foi imediata, mas ainda me faltava uma ocasião especial como um aniversário: o meu ainda está um pouquinho longe. Aí outubro chegou e a Val, boa amiga que fiz aqui em Miami, fez aniversário. Daí resolvi fazer uma festinha pra ela, comemorar e fazer o bolo - que a esta altura já estava me consumindo.

Eu a a Val já dividimos alguns momentos bem marcantes neste período de expatriadas e acabamos ficando muito próximas. Ao ponto da filhinha dela me chamar de Tia Paula e me incluir na lista de amiguinhos da festinha de aniversário, toda gracinha, porque "Tia Paula is my friend". Val é uma mulher e mãe incrível, elegante, de uma simplicidade que traz conforto e oferece abrigo, além de fotografar com uma sensibilidade ímpar. No fim, a comemoração era mais pela minha sorte de ter encontrado nela uma amiga estando tão longe de casa. Era uma excelente oportunidade de podermos celebrar, juntas, um aniversário dela. Até porque, em breve, nos mudaremos de Miami e cada uma vai para um país diferente. 

A receita pode parecer complicada por conta da quantidade de passos a cumprir, até que o bolo fique pronto. Na verdade é mais uma questão de organização do que de complicar a receita. Outra coisa que eu acho bem interessante no trabalho da Christina é que a apresentação dos doces é bem prática, sem muita frescura e bordados. Nada mais americano que praticidade, né? Gostei disso e quis tentar. 

Acabei fazendo algumas modificações na receita original. Alguns dos ingredientes não são comuns de serem usados na minha cozinha:

  • Usei granulados coloridos com corantes naturais, o que fez com que o bolo não tivesse a massa salpicada de cores tão vibrantes como as que você vê no bolo que ilustra a receita publicada na Bon Appetít, que usei de referência.
  • Substituí a essência transparente de baunilha pelo extrato de baunilha que eu já tenho em casa. Ele escurece um pouco a massa e o creme de recheio e cobertura, mas não vi motivos para comprar uma essência artificial, se podia usar o extrato. Entendo que um dos motivos pelos quais elas fez a escolha dos ingredientes era reproduzir o sabor do bolo feito pela mãe dela, com produtos pré-prontos. Porém achei que isso não seria um problema, já que não tenho a mesma memória afetiva que ela.
  • E, por último, usei manteiga no lugar da gordura vegetal. Aqui só é possível encontrar potes gigantes deste ingrediente e, depois de fazer este bolo, provavelmente não usaria isso pra mais nada. Não queria ter de jogar fora. Particularmente não gosto de sentir aquela capa de gordura que fica no céu da boca, quando se come produtos feitos com gordura vegetal. E, além disso, a manteiga é mais saborosa. 

Porém é importante alertar que substituições em receitas podem ser algo complicado, porque cada um tem uma razão de ser. Fiquei um pouco preocupada com a substituição da gordura vegetal, porque a manteiga derrete numa temperatura inferior à ela. Pensei que isso poderia ser um problema e até sonhei com o bolo desmontando na mesa durante a festa. Felizmente, isso não aconteceu. Mas tenho ar condicionado em casa. Numa cidade quente, dependendo do horário da festa e de quanto tempo o bolo ficará exposto na mesa antes de ser cortado, talvez seja prudente usar. Você pode fazer as etapas com antecedência, como eu fiz, e montar o bolo no dia anterior, para ele passar um tempo bom na geladeira. Mas se você quiser fazer tudo de uma vez e tiver um freezer onde caiba o bolo pronto, pode fazer também, desde que o bolo fique no freezer por 3 horas. Fora isso, eu o classifico como de relativa facilidade.

O sabor é de um bolo de aniversário de baunilha, bastante gostoso! Se você tiver condições de usar o sal moído na hora vai fazer diferença, porque os cristais no meio do bolo dão um toque salgadinho bem interessante! E os biscoitinhos também são um achado. Dão uma crocância fundamental na hora de comer o bolo.Vamos lá? Se quiser ter uma panorama geral do modo de preparo, aqui você pode ver a própria Christina fazendo o bolo (em inglês).

Bolo de aniversário com massa tipo formigueiro

Este bolo serviu bem umas 20 pessoas. 

Este bolo serviu bem umas 20 pessoas. 

Utensílios

uma assadeira retangular

Manteiga para untar a forma duas vezes

papel manteiga para forrar a forma

batedeira

pão duro ou espátula de silicone

Para a massa:

2 xícaras de farinha de trigo para bolo

1 e 1/2 colher de sobremesa de fermento em pó

3/4 colher de sobremesa de sal (preferência pelo grosso, moído na hora em grãos irregulares)

granulados coloridos a gosto

1/2 xícara de chá de buttermilk (leitelho*)

1/3 xícara de chá de óleo de girassol ou outro de sabor neutro

1 colher de sobremesa de extrato ou essência de baunilha

1 e 1/4 xícaras de açúcar refinado

1/2 de xícara de manteiga na temperatura ambiente

3 colheres de sopa rasas de açúcar demerara

3 ovos grandes

Tive de fazer uma receita e meia porque tanto a minha forma retangular, quando o meu aro de montagem são maiores dos que os pedidos na receita. 

Tive de fazer uma receita e meia porque tanto a minha forma retangular, quando o meu aro de montagem são maiores dos que os pedidos na receita. 

Modo de preparo:

Pré-aqueça o forno a 180 graus. Forre uma forma retangular de 33 X 22 cm (aproximadamente) com papel manteiga, untando com manteiga antes, pra grudar o papel, e untando depois por cima do papel. Reserve.

Misture farinha, fermento, sal e os granulados numa tigela grande. Eu outra, misture o leitelho com o óleo. 

Usando uma batedeira em velocidade média, bata o açúcar e a manteiga e até que se torne uma mistura fofa e esbranquiçada (aproximadamente 4 minutos). Com a batedeira trabalhando, junte o demerara e a baunilha. Adicione e os ovos, um a um, deixando a batedeira trabalhar um tempo entre eles, para que possam ser emulsionados na gordura. Se você adicionar tudo de uma vez, a mistura desanda.

Usando uma batedeira em velocidade média, bata o açúcar e a manteiga e até que se torne uma mistura fofa e esbranquiçada (aproximadamente 4 minutos). Com a batedeira trabalhando, junte o demerara e a baunilha. Adicione e os ovos, um a um, deixando a batedeira trabalhar um tempo entre eles, para que possam ser emulsionados na gordura. Se você adicionar tudo de uma vez, a mistura desanda.

Com uma espátula de silicone, raspe as laterais e o fundo da tigela de quando em quando, pra que a massa fique bem homogênea. Bata a mistura por mais 4 minutos, ou até que dobre de volume e fique bem leve, esbranquiçada e fofa. Reduza a velocidade da batedeira e adicione a mistura de leitelho e óleo em fio, bem devagar. Mais uma vez: se juntar tudo de uma vez, a mistura não ficará boa e poderá comprometer o resultado final. Bata um pouco para incorporar.

Com uma espátula de silicone, raspe as laterais e o fundo da tigela de quando em quando, pra que a massa fique bem homogênea. Bata a mistura por mais 4 minutos, ou até que dobre de volume e fique bem leve, esbranquiçada e fofa. Reduza a velocidade da batedeira e adicione a mistura de leitelho e óleo em fio, bem devagar. Mais uma vez: se juntar tudo de uma vez, a mistura não ficará boa e poderá comprometer o resultado final. Bata um pouco para incorporar.

Pare a batedeira, adicione os ingredientes secos de uma vez e ligue em velocidade baixa somente para misturar e agregar os ingredientes (algo em torno de 1 minuto).

Pare a batedeira, adicione os ingredientes secos de uma vez e ligue em velocidade baixa somente para misturar e agregar os ingredientes (algo em torno de 1 minuto).

A massa fica assim depois de todos os ingredientes incorporados. Olhando hoje eu acho que poderia ter colocado mais granulados na massa. 

A massa fica assim depois de todos os ingredientes incorporados. Olhando hoje eu acho que poderia ter colocado mais granulados na massa. 

Verta a massa na assadeira previamente untada e forrada. Com a ajuda a espátula, distribua a massa, nivelando-a na forma. É uma massa muito gostosa, com um gosto incrível de sorvete de creme e a consistência é bem espumosa, não se adapta à forma sem ajuda da espátula.

Verta a massa na assadeira previamente untada e forrada. Com a ajuda a espátula, distribua a massa, nivelando-a na forma. É uma massa muito gostosa, com um gosto incrível de sorvete de creme e a consistência é bem espumosa, não se adapta à forma sem ajuda da espátula.

Salpique granulados sobre a superfície da massa e leve-a ao forno por aproximadamente 35 minutos. Faça o teste do palito. Ele deverá sair úmido, mas limpo.

Salpique granulados sobre a superfície da massa e leve-a ao forno por aproximadamente 35 minutos. Faça o teste do palito. Ele deverá sair úmido, mas limpo.

A massa fica com o aspecto de pão de ló, mas depois que você desenforma verifica que ela é até bem densa. Coloque a forma quente sobre uma grade, de modo que entre a forma e a superfície fique um colchão de ar. Dessa forma o bolo esfria mais rápido. 

A massa fica com o aspecto de pão de ló, mas depois que você desenforma verifica que ela é até bem densa. Coloque a forma quente sobre uma grade, de modo que entre a forma e a superfície fique um colchão de ar. Dessa forma o bolo esfria mais rápido. 

Uma vez fria, é hora de cortar o que serão as camadas do bolo. Vire o bolo sobre uma superfície limpa e lise e retire o papel manteiga com cuidado. Raspe o resíduo que ficar no papel. Você poderá precisar dele e, se não, pode comê-lo depois. Delícia! 

Uma vez fria, é hora de cortar o que serão as camadas do bolo. Vire o bolo sobre uma superfície limpa e lise e retire o papel manteiga com cuidado. Raspe o resíduo que ficar no papel. Você poderá precisar dele e, se não, pode comê-lo depois. Delícia! 

Com um aro de 15 cm de diâmetro, corte as camadas da montagem. O bolo dá pra cortar duas fatias: uma perfeita e uma quase. Se você observar bem, verá que a fatia cortada que ainda está junto dos outros pedaços tem uma pequena imperfeição. Não tem problema! Depois de montado, não aparece. As sobras de massa vão compor a camada intermediária, o que vai demandar seus conhecimentos e habilidades de quebra-cabeças. 

Com um aro de 15 cm de diâmetro, corte as camadas da montagem. O bolo dá pra cortar duas fatias: uma perfeita e uma quase. Se você observar bem, verá que a fatia cortada que ainda está junto dos outros pedaços tem uma pequena imperfeição. Não tem problema! Depois de montado, não aparece. As sobras de massa vão compor a camada intermediária, o que vai demandar seus conhecimentos e habilidades de quebra-cabeças. 

Eu fiz o bolo com 3 dias de antecedência. Por isso, depois de cortado, eu embrulhei as camadas em plástico filme, uma a uma, pra colocar na geladeira. aproveitei pra já deixar mais ou menos esquematizado o quebra-cabeças da camada de retalhos. Achei o período de geladeira importante porque a massa ficou mais fácil de usar, mais firme. Na hora de montar, isso fez diferença! 

Eu fiz o bolo com 3 dias de antecedência. Por isso, depois de cortado, eu embrulhei as camadas em plástico filme, uma a uma, pra colocar na geladeira. aproveitei pra já deixar mais ou menos esquematizado o quebra-cabeças da camada de retalhos. Achei o período de geladeira importante porque a massa ficou mais fácil de usar, mais firme. Na hora de montar, isso fez diferença! 

Para os Crumbles ou as pedrinhas de biscoito que enfeitam e recheiam o bolo.

3/4 de xícara de chá de farinha de trigo para bolo

1/2 xícara de chá de açúcar refinado

2 colheres de sopa rasas de açúcar demerara

2 colheres de sopa cheias de granulados coloridos

1/2 xícara de chá de fermento químico em pó

1/2 colher de chá de sal (preferencialmente do grosso, moído na hora e em grão irregulares)

1/4 xícara de chá de óleo de girassol ou outro óleo de sabor neutro

1 colher de sopa de extrato ou essência de baunilha.

Modo de fazer: pré-aqueça o forno a 150 graus celsius. Forre uma assadeira com papel manteiga ou tapete de silicone. Reserve.

Misture a farinha de trigo, os açúcares refinado e demerara, granulados, fermento em pó e o sal numa tigela.

Misture a farinha de trigo, os açúcares refinado e demerara, granulados, fermento em pó e o sal numa tigela.

Adicione o óleo e misture rapidamente com a mão, até que se forme uma farofa e não sobre nenhum ingrediente sem misturar.

Adicione o óleo e misture rapidamente com a mão, até que se forme uma farofa e não sobre nenhum ingrediente sem misturar.

Aperte punhados desta farofa nas mãos, formando bolinhos de formatos irregulares. Procure fazer isso com toda a farofa, para que você tenha bastante biscoitos irregulares pra usar no recheio e na cobertura.

Aperte punhados desta farofa nas mãos, formando bolinhos de formatos irregulares. Procure fazer isso com toda a farofa, para que você tenha bastante biscoitos irregulares pra usar no recheio e na cobertura.

Distribua estas pedrinhas de biscoito sobre a forma que deixou preparada, de modo que haja espaço entre elas, para que assem por igual. Leve ao forno por aproximadamente 12 minutos, ou até que ganhem cor levemente dourada.

Distribua estas pedrinhas de biscoito sobre a forma que deixou preparada, de modo que haja espaço entre elas, para que assem por igual. Leve ao forno por aproximadamente 12 minutos, ou até que ganhem cor levemente dourada.

Retire do forno e deixe esfriar. Reserve. Fiz as pedrinhas com 2 dias de antecedência e acondicionei-as em um saco plástico com fecho do tipo zíper. Pode manter fora da geladeira, mesmo.  

Retire do forno e deixe esfriar. Reserve. Fiz as pedrinhas com 2 dias de antecedência e acondicionei-as em um saco plástico com fecho do tipo zíper. Pode manter fora da geladeira, mesmo.  

Creme de manteiga e cream cheese

1/2 xícara de manteiga sem sal, em temperatura ambiente

1/4 xícara de manteiga sem sal

60g de cream cheese em temperatura ambiente

2 colheres de sopa de glucose de milho 

1 colher de sopa e meia de essência ou de extrato de baunilha

1 1/4 xícaras de açúcar impalpável

1/2 colher de sal

1/4 de colher de chá de bicarbonato de sódio

1/2 colher de sobremesa de suco de limão

Modo de fazer: 

Bata a manteiga e o  cream cheese , usando o batedor tipo raquete, até que a mistura esteja macia e fofa, algo em torno de 3 minutos. Raspe as laterais da tigela com uma espátula de silicone e reduza a velocidade. Adicione a glucose de milho e a baunilha, batendo bem por aproximadamente 3 minutos. Raspe as paredes da vasilha novamente e pare a batedeira. Adicione o açúcar impalpável, o sal, bicarbonato de sódio, o suco de limão e bata, na velocidade mais baixa que puder, até que tudo se incorpore ao creme. Aumente a velocidade e bata até que fique esbranquiçado e fofo (aproximadamente 4 minutos). Reserve.    Montagem :   Para deixar o bolo úmido:   1/4 xícara de leite integral  1 colher de chá de baunilha (se você achar que já tem baunilha demais, pode usar só o leite).

Bata a manteiga e o cream cheese, usando o batedor tipo raquete, até que a mistura esteja macia e fofa, algo em torno de 3 minutos. Raspe as laterais da tigela com uma espátula de silicone e reduza a velocidade. Adicione a glucose de milho e a baunilha, batendo bem por aproximadamente 3 minutos. Raspe as paredes da vasilha novamente e pare a batedeira. Adicione o açúcar impalpável, o sal, bicarbonato de sódio, o suco de limão e bata, na velocidade mais baixa que puder, até que tudo se incorpore ao creme. Aumente a velocidade e bata até que fique esbranquiçado e fofo (aproximadamente 4 minutos). Reserve. 

Montagem

Para deixar o bolo úmido: 

1/4 xícara de leite integral

1 colher de chá de baunilha (se você achar que já tem baunilha demais, pode usar só o leite).

Junte todos os ingredientes do bolo: as fatias cortadas, o creme para recheio e cobertura, os biscoitos e o leite (que eu esqueci de colocar pra tirar a foto). 

Junte todos os ingredientes do bolo: as fatias cortadas, o creme para recheio e cobertura, os biscoitos e o leite (que eu esqueci de colocar pra tirar a foto). 

Dentro do aro que você usou para cortar as 3 camadas de bolo, coloque uma folha de acetato ou plástico transparente, próprio para confeitaria. Surpreendentemente eu tive dificuldades para encontrar isso aqui em Miami. Acho que se estivesse em Brasília teria sido mais fácil. Acabei usando um plástico transparente e mais grosso, que dificultou um pouco a montagem. Coloque a camada com aquela pequena falha lateral na base do bolo e molhe-a com a mistura de leite integral e extrato de baunilha. 

Dentro do aro que você usou para cortar as 3 camadas de bolo, coloque uma folha de acetato ou plástico transparente, próprio para confeitaria. Surpreendentemente eu tive dificuldades para encontrar isso aqui em Miami. Acho que se estivesse em Brasília teria sido mais fácil. Acabei usando um plástico transparente e mais grosso, que dificultou um pouco a montagem. Coloque a camada com aquela pequena falha lateral na base do bolo e molhe-a com a mistura de leite integral e extrato de baunilha. 

Coloque o creme com uma colher e espalhe com as costas dela, ou use um saco de confeitar. Logo acima do creme vai uma parte dos biscoitinhos e um pouco de granulado. 

Coloque o creme com uma colher e espalhe com as costas dela, ou use um saco de confeitar. Logo acima do creme vai uma parte dos biscoitinhos e um pouco de granulado. 

A segunda camada é a de quebra-cabeças. O mais importante aqui é que os pedaços que serão usados nas laterais que ficarão aparentes precisam ser muito bem colocados para que não apareça a emenda. Uma dica! No miolo da camada eu tentei colocar o máximo de massa entre os pedaços soltos, pra ficar uma fatia inteira. Hoje eu faria um pouco diferente e deixaria alguns espaços entre os pedaços pra serem preenchidos com o recheio. Digo isso porque, na hora de cortar, alguns pedaços caíram porque não estavam colados entre si, apenas encaixados. Vai por mim, da forma como estão dispostos na foto das camadas guardadas fica bom. O recheio vai fazer o papel de cola e preencher os espaços, 

A segunda camada é a de quebra-cabeças. O mais importante aqui é que os pedaços que serão usados nas laterais que ficarão aparentes precisam ser muito bem colocados para que não apareça a emenda. Uma dica! No miolo da camada eu tentei colocar o máximo de massa entre os pedaços soltos, pra ficar uma fatia inteira. Hoje eu faria um pouco diferente e deixaria alguns espaços entre os pedaços pra serem preenchidos com o recheio. Digo isso porque, na hora de cortar, alguns pedaços caíram porque não estavam colados entre si, apenas encaixados. Vai por mim, da forma como estão dispostos na foto das camadas guardadas fica bom. O recheio vai fazer o papel de cola e preencher os espaços, 

Finalize as camadas e cubra o bolo. Leve-o à geladeira por no mínimo 24 horas, ou ao freezer por 3 horas. Na hora de servir, retire o acetato/plástico com cuidado e, se precisar, dê uma ajeitadinha nas laterais com uma espátula metálica. Decore o topo do bolo com os biscoitos mais bonitos que você separou e coloque as velas. Agora, é só cantar:

Saudamos o grande dia
em que hoje comemoras
Seja a casa onde moras
a morada da alegria
o refúgio da ventura!
Feliz aniversário!!! (Manuel Bandeira)

[Sá Teresa] Caçarola Italiana e as saudades que sinto de minha avó.

Minha avó tinha uma rotina bastante rígida. Acordava por volta das 7 e já ia preparar o café da manhã. Não raro as preparações do desjejum dividiam espaço com as do almoço, normalmente entre as duas cozinhas que ela comandava: uma dentro de casa e outra, numa casinha extra na horta (quintal) onde ficava o fogão à lenha. Eu sempre passava minhas férias na casa dela e invariavelmente acordava mais tarde. Mas antes de levantar eu já a escutava chamando pela empregada e dando instruções, pegando a galinha no galinheiro pra matar, chamando um ou outro tio que tinha ido tomar um café e pedir a bênção, passar o escovão no chão, atender ao telefone... Quando eu finalmente criava coragem pra levantar, ela já estava num frenesi louco de preparação do almoço, mas sempre nos recebia com um sorriso, logo depois anunciando o cardápio do almoço. "Tome logo o seu café pra gente arrumar a mesa."

Sempre de colar e batom, dona Teresa era a simplicidade e o amor encarnados. Deixou muitas saudades...

Sempre de colar e batom, dona Teresa era a simplicidade e o amor encarnados. Deixou muitas saudades...

De vez em quando ela me gritava da casinha pra me avisar que tinha feijão pagão. Eu corria pra pegar uma caneca marinex âmbar e voava pra casinha pra pegar a minha parte: uma concha dos bagos graúdos e brilhantes do feijão na caneca, um pouquinho de sal, caldo por cima pra ajudar a espalhar o tempero. O cheio de feijão novo cozidinho, a caneca entre as mãos como um tesouro, a vó comentando uma coisa aqui outra ali e a vida sendo perfeita naquele exato momento. E dona Teresa sorria. Ela parecia regozijar-se no prazer que nos dava com sua comida, sua forma mais pura de nos demonstrar o amor que nutria pela família. Aquela rotina pesada de todo o dia valia a pena. 

No almoço, ela ficava de olho nas coisas que escolhíamos por no prato e queria sempre saber por que determinado preparo tinha sido preterido: "Cê não vai comer do chuchu refogadinho? Tá tão gostoso!". Mesmo depois de terminar seu prato ela permanecia na mesa, o queixo pousado nas mãos, observando a gente comer. Era incrível como ela se realizava na nossa saciedade, o amor só era entregue devidamente se a gente gostasse da comida. E não houve uma vez em que isso não aconteceu. Ela tinha o dom das panelas e do amor. Logo depois ela já estava supervisionando o ariar de panelas, organizando a cozinha pra logo mais o café das 3. E só depois da mesa posta, ia descansar um pouco deitada no sofá, a remoer pensamentos e prender a pele das costas das mãos com a boca. De lado, braço de cima dobrado pra levar a mão à boca, as perninhas cruzadas na saia e com os pés descalços.

Há 5 anos, eu viajei a Boa Esperança pra passar uma semana com a minha avó. Eu estava vivendo um período de transformação na minha vida e queria ficar um pouco com ela. Eu tinha recém adquirido um celular que gravava e armazenava e tive a idéia de entrevistá-la para saber sobre suas receitas e as memórias que ela tinha delas. Porque minha avó tinha uma memória tão incrível que não tinha caderno de receitas. E eu não queria que elas caíssem no esquecimento depois que ela não estivesse mais conosco. 

Estas gravações são das maiores raridades que tenho comigo hoje. Quando sinto muitas saudades, escuto uma ou outra história, junto às receitas que nos fizeram felizes por tanto tempo. É bom porque, por meio destes instrumentos - as gravações e suas receitas com medidas imprecisas (lata de cera, pires, prato pelo friso, copo, xícara), mas que a experiência tornou mais que exatas deixando muita balança no chinelo -, eu consigo me conectar com a essência dela e isso me acalma e fortalece. 

Hoje completam-se 2 anos que a minha avó se foi e nos deixou. Setembro começou e eu fiquei pensando numa forma de fazer uma homenagem à ela, minha mais forte referência na cozinha. Dona Teresa personificou aquilo que todo mundo que trabalha com comida possibilita todos os dias: transformou amor, paciência, planejamento e dedicação em reuniões regadas à muita conversa e pertencimento. 

Acredito que esta seja uma das receitas mais simples que ela deixou. E, talvez por este motivo, era uma das favoritas dela. Uma das mais realizadas no final de sua vida, a que recebeu uma versão sem açúcar para que ela pudesse comer com menos culpa, por conta do diabetes. E daí eu pensei que muito mais do que fazer a minha receita favorita, seria mais interessante fazer a preferida dela. E foi bacana porque me senti dividindo o momento com minha avó enquanto comia a Caçarola Italiana. É um bolo neutro, meio com consistência de pudim. E é incrível como me é impossível comer apenas uma fatia. 

Caçarola Italiana (rendimento: 24 bolinhos na forma de cupcakes ou um forma redonda de buraco no meio)

Os bolinhos, já frios. Dá pra comer quente, mas tem de ter muito cuidado. De todo jeito é gostoso!

Os bolinhos, já frios. Dá pra comer quente, mas tem de ter muito cuidado. De todo jeito é gostoso!

Ingredientes:

4 ovos inteiros

1 litro de leite integral

240g de farinha de trigo

240g de açúcar refinado

180g de queijo minas curado e ralado fino

1 colher de café de extrato de baunilha (opcional)

Modo de preparo: Aqueça o forno a 180C/ 356F. Unte a forma com manteiga pomada. Coloque os ingredientes no liquidificador e bata rapidamente para que todos se incorporem. A massa é muito líquida mesmo. Verta-a sobre a forma e leve ao forno por aproximadamente 30 minutos. Faça o teste do palito, se sair limpo, retire do forno. É normal que a massa murche assim que sai do forno. Ela cresce tanto lá dentro que quando sai da até dó de tão rápido que murcha. 

Meia receita é o suficiente para preencher uma forma de muffins de 12 espaços. Polvilhe um pouco de queijo na superfície antes de por no forno.

Meia receita é o suficiente para preencher uma forma de muffins de 12 espaços. Polvilhe um pouco de queijo na superfície antes de por no forno.

Com uns 15 minutos de forno a massa começou a crescer bonita.

Com uns 15 minutos de forno a massa começou a crescer bonita.

É impressionante como o bolo murcha rápido depois de retirado do forno. Dá uma dor no peito de pena... Mas é assim mesmo, não se assuste!

É impressionante como o bolo murcha rápido depois de retirado do forno. Dá uma dor no peito de pena... Mas é assim mesmo, não se assuste!

O bolinho murcha até quase a metade. 

O bolinho murcha até quase a metade. 

O bolinho por dentro. 

O bolinho por dentro. 

A caçarola não é um bolo bonito, mas é muito gostoso. E sempre dura muito pouco, principalmente se servida na mesa com café, pra todos comerem enquanto batem papo. É um bolo/pudim leve e despretensioso, que tem cheiro de amor de família na mesa do café, conversando e rindo. Vó: obrigada por me fazer companhia enquanto eu comi meus pedaços ontem. E, olha: saudades demais, viu? Beijo grande, Dona Teresa!

Naked Cake: o bolo de aniversário de um apaixonado por chocolate com frutas vermelhas.

Aniversários têm um gosto de infância pra todo mundo, né? Pelo menos pra mim é assim. Brigadeiro, beijinho e docinho de leite em pó, o bolo de glacê branco - que aparecia grudado na boca açucarada, enquanto a gente mastigava e os pais não podiam esperar pra bater aquela fatídica foto com os amiguinhos, depois dos parabéns.

Ultimamente a hora de cantar para o aniversariante, com as velinhas já acesas no bolo, tem me dado uma saudades sem tamanho dos aniversários em Boa Esperança. Os quitutes maravilhosos: as empadinhas de frango da tia Zezé; os cigarretes e os risólis de milho e molho branco da tia Antônia; as balas de mel da tia Diana; os bolos da tia Silvane; os torrones da vó Teresa e os olhos de sogra de uma doceira da cidade, não podiam faltar. Havia, também, as garrafinhas de Sodinha (um refrigerante de abacaxi da região) ou Guaraná Caçula, com furinho feito com prego na tampa de metal que a gente tampava com o dedo e chacoalhava a garrafa, só pra ter momentos de vencedor de Fórmula 1 e molhar os outros. A maioria destas imagens estão guardadas na minha memória, aquecidas com muito amor por tê-las vivido de maneira simples e gostosa.

Uma forma de apaziguar minhas saudades tem sido cantar a música do vídeo abaixo, que substitui o pasteurizado "Parabéns à você", com letra de Manuel Bandeira e melodia de Heitor Villa-Lobos - que pouca gente conhece, mas que para os dorenses é parte indissociável de uma boa festa. 

Saudamos o grande dia
em que hoje comemoras
Seja a casa onde mora
a morada da alegria
o refúgio da ventura.
Feliz Aniversário!
— Manuel Bandeira

Comemoramos o aniversário de Bruno neste final de semana. Desde que chegamos a Miami, nunca tínhamos comemorado o aniversário dele. Já tinha passado da hora e como ele completou 40 anos, achei que não deveria mesmo deixar passar em branco. Fiz uma mesa de petiscos de inspiração mediterrânea e o primeiro Bolo Pelado/Naked Cake do meu currículo, que é a receita deste post. No momento de cantar os parabéns, me invadiu uma vontade enorme de cantar Manuel Bandeira pro meu marido. Mas fiquei com muita vergonha de cantar sozinha na frente de todos e me rendi ao parabéns comum. Se arrependimento matasse... Jamais sentirei vergonha novamente (vou ter de fazer a festa de novo)!

O bolo na mesa já preparada para receber os convidados.

O bolo na mesa já preparada para receber os convidados.

Bruno costuma dizer que Deus criou o cacau, as frutas vermelhas e arrumou um jeito de fazer o homem inventar o chocolate. Quando isso aconteceu, o todo poderoso sussurrou em seu ouvido: "Junte-o às frutas vermelhas que vai ficar bom pra porra!" - Esse Deus aí teria a voz do James Earl Jones e sotaque pernambucano. ;) Pensando nisso, resolvi tentar fazer o tal do bolo pelado, que acho bem bonito e nunca tinha feito. E como eu sou meio atrevida, não pesquisei muito à respeito antes de fazer. Peguei uma receita de massa aqui, bolei um recheio simples, fiz uma ganache e mandei ver. O resultado ficou bom, o bolo ficou bonito e foi bastante elogiado, principalmente porque não ficou muito doce. Não sobrou nada! Mas eu aprendi uma série de coisas durante a execução e percebi alguns erros que pretendo corrigir no próximo. Só preciso arrumar uma ocasião pra fazer um novo! Vamos a receita:

Bolo Pelado/Naked Cake de Chocolate com Frutas Vermelhas

Foto de Simone Mota.

Foto de Simone Mota.

Massa:

140g de chocolate meio amargo

140g de manteiga sem sal

7 gemas

40g de açúcar impalpável

140g de farinha de trigo

210g de clara de ovo

180g de açúcar refinado

5g de fermento químico em pó

q/n de essência de baunilha

Unte uma forma, de 26 centímetros de diâmetro, com manteiga em temperatura ambiente. Forre o fundo com papel manteiga e unte-o, também, com a manteiga. Reserve. Pré-aqueça o forno a 180 graus.

Unte uma forma, de 26 centímetros de diâmetro, com manteiga em temperatura ambiente. Forre o fundo com papel manteiga e unte-o, também, com a manteiga. Reserve. Pré-aqueça o forno a 180 graus.

Separe e pese todos os ingredientes. Aqui, o chocolate já foi derretido, em banho maria, junto com a manteiga.

Separe e pese todos os ingredientes. Aqui, o chocolate já foi derretido, em banho maria, junto com a manteiga.

Derreta o chocolate e a manteiga em banho maria. Assim que forem convertidos em uma calda brilhante, sem nenhum pedaço de chocolate, reserve e deixe esfriar. Numa tigela funda, peneire a farinha de trigo, o fermento, o sal e o açúcar impalpável. 

Bata as claras, com o açúcar refinado, até o ponto de merengue.

Bata as claras, com o açúcar refinado, até o ponto de merengue.

Adicione as gemas ao chocolate já frio e misture bem, usando um fouet, até que fique uma mistura lisa. Neste momento você terá 3 tigelas: uma com merengue, outra com chocolate e uma com os ingredientes secos. Será preciso adicionar o merengue e os secos, alternadamente, à mistura de chocolate, manteiga e gemas. Comece colocando 1/3 da quantidade de merengue na tigela de chocolate. Com uma espátula, mexa, com movimentos elípticos em 45 graus de inclinação. Como se você estivesse desenhando o símbolo de arroba. É o que chamamos de "movimentos envolventes". Assim que o merengue agregar ao chocolate, coloque metade dos ingredientes secos sobre ele, repetindo os mesmos movimentos e girando a tigela de chocolate. Lembre-se de raspar as bordas da tigela de vez em quando. Adicione a segunda parte do merengue e mexa. A última parte dos secos, misturando até que se incorporem. Verifique no fundo da tigela se não há nenhuma sobra de farinha escondida. Adicione a última parte do merengue e incorpore-o à massa.

O resultado deverá ser como este aqui. Uma massa leve e bem misturada.

O resultado deverá ser como este aqui. Uma massa leve e bem misturada.

Verta a massa na forma untada, nivele-a e leve ao forno por 180 graus, por aproximadamente 25 minutos.

Verta a massa na forma untada, nivele-a e leve ao forno por 180 graus, por aproximadamente 25 minutos.

Faça o teste do palito, tomando o cuidado de dar uma batida na porta do forno antes de abrir e verificar se o centro do bolo está firme. O palito deve sair limpo. Retire a assadeira do forno e coloque sobre uma grade para deixar esfriar. 

Recheio

1 lata de leite condensado

1 lata de creme de leite com o soro

1 colher de sopa de manteiga sem sal

1 colher de chá de extrato de baunilha

50g de chocolate branco picado

Frutas vermelhas frescas, lavadas e secas, uma a uma, com papel absorvente.

Modo de fazer: coloque todos os ingredientes numa panela de fundo grosso e leve ao fogo médio, mexendo sempre. Quando a massa desgrudar da panela (vire a panela 45 graus pra ver o recheio desprender da panela), desligue o fogo e transfira o recheio pra um prato. Deixe esfriar completamente.

Cobertura de Ganache

100g de Chocolate ao leite picado 

200ml de creme de leite fresco 

Modo de fazer: ferva o creme de leite numa panela pequena. Assim que levantar fervura, apague o fogo e tire a panela de cima do queimador utilizado. Adicione o chocolate ao creme quente e mexa até que o chocolate derreta e a mistura se transforme numa calda de chocolate. Deixe esfriar completamente.

Mistura para umedecer a massa

1 colher de sopa de cacau em pó

50 ml de leite

30ml de vinho do porto

1 colher de sopa de açúcar

Montagem:

Corte a massa, já fria, do bolo ao meio com uma faca de chef (fio liso, sem dentes). Se você tiver um prato giratório pra ajudar neste serviço, use-o.

Coloque a parte de cima do bolo virada pra baixo e umedeça esta primeira camada de bolo com metade da mistura de cacau e leite. Utilize um pincel de silicone ou uma colher pra fazer isto. 

Coloque a parte de cima do bolo virada pra baixo e umedeça esta primeira camada de bolo com metade da mistura de cacau e leite. Utilize um pincel de silicone ou uma colher pra fazer isto. 

Molhe as mãos ligeiramente e pegue a massa do recheio, colocando no centro do bolo. A umidade ajudará a manipulação, evitando que a massa grude nas mãos. Use as costas de uma colher de sopa umedecida para espalhar e nivelar o recheio até as bordas, tomando o cuidado para não transbordar. Coloque as frutas vermelhas, de modo a cobrir toda a superfície do recheio com elas. 

Só assim já fica bonito e gostoso, né?

Só assim já fica bonito e gostoso, né?

Finalizando esta parte eu cometi dois erros que só fui perceber no momento de partir o bolo:

  1. Eu coloquei a outra camada de massa por cima das frutas vermelhas, sem nada que afixasse uma parte na outra. Erro primário, né? Mas eu confesso que nem me lembrei disso enquanto fazia. Numa próxima vez, farei o dobro de recheio e colocarei metade embaixo e a outra metade em cima.
  2. Descobri por quê costumam-se colocar morangos partidos virados com a parte cortada pra cima e não em contato com o doce. O morango começa a soltar água e vai, devagarinho, derretendo o recheio. Escorreu um pouquinho e pareceu proposital, mas foi um erro bobo também. Como devo colocar recheio embaixo e em cima das frutas, penso ser melhor concentrar os morangos cortados somente nas bordas do recheio, para que fiquem à mostra, mas não tenham contato direto com o doce. E muito perto de servir o bolo.

Imagino que a maioria das pessoas, que fazem este tipo de bolo, só coloquem frutas nas laterais e não no recheio todo, como eu fiz, justamente pra concentrar mais doce no centro e unir bem as camadas de massa. Mas eu achei o efeito das frutas no recheio todo inigualável. Elas dão uma boa quebrada no dulçor, a fatia cortada fica linda e elas ainda agregam muito frescor ao bolo, vale a pena manter!

Coloque a segunda parte da massa, com a parte debaixo do bolo (que fica com as quinas mais marcadas e darão um acabamento melhor ao bolo) virada pra cima. Pressione levemente, para que as frutas desloquem o recheio um pouco pra fora. Umedeça esta outra parte com o restante do preparado de leite com cacau em pó.

Coloque a segunda parte da massa, com a parte debaixo do bolo (que fica com as quinas mais marcadas e darão um acabamento melhor ao bolo) virada pra cima. Pressione levemente, para que as frutas desloquem o recheio um pouco pra fora. Umedeça esta outra parte com o restante do preparado de leite com cacau em pó.

Coloque a ganache completamente fria, aos poucos, no centro do bolo e vá deixando escorrer pela superfície. À medida em que ela se aproximar das bordas, coloque um pouco de ganache próximo às bordas, para que ela escorra pela lateral do bolo, dando o acabamento desejado. Vá intercalando estes pontos de concentração de cobertura, pra que o recheio fique aparente, como na foto. Use toda a ganache. Deixe secar por 1 hora. Organize as frutas, bem secas com papel absorvente, por cima da ganache, distribuindo-as como você desejar. Morangos e cerejas inteiros, com as folhinhas e os cabinhos, dão um charme extra ao bolo. Se quiser, polvilhe um pouco de açúcar impalpável sobre as frutas, com o auxílio de uma peneira fina. Pronto! 

Meu objetivo é postar, ao longo da semana, as receitas que fiz pra festa de Bruno. O povo tá me cobrando e eu já estou começando a ter leitores fiéis, o que é ótimo! 

Bolo de Limão com Framboesas e Pistache.

Dias atrás eu estava no caixa do supermercado e dei de frente com a Bon Appétitedição especial com receitas de verão. A capa, com uma convidativa torta de cerejas num fundo cor-de-rosa manchado, está tão linda que me foi impossível resistir. Costumo visitar o site da publicação com bastante frequência, porque eles publicam receitas muito bem fotografadas e apetitosas. De vez em quando eu faço algumas delas. Mas dessa vez eu quis ter a revista. E qual não foi a minha surpresa ao me deparar com esta receita! Provavelmente eu não teria acesso à ela tão cedo no site.

Sempre gostei de bolo de limão. A combinação azedinha-doce é uma das minhas preferidas e há várias receitas que a utilizam com perfeição. Na faculdade de gastronomia, tive uma colega que fazia um bolo incrível e volta e meia a gente ganhava uma fatia. Bons tempos... Em confeitaria, a combinação de limão e framboesas é, para mim, uma das campeãs junto a banana com chocolate, goiabada com queijo, mel com especiarias, café com doce de leite ou doce de leite com morango, dentre outras. A inclusão do pistache na finalização do bolo agrega valor e charme, além de ser um elemento crocante que faz diferença incrível no resultado. 

A receita original pedia que eu polvilhasse os pistaches crus na massa, antes de assá-la. Acontece que eu tinha pistaches torrados em casa e não quis sair pra comprar outros. Com receio de eles se queimassem, optei por colocá-los depois da calda, com um pouco de açúcar de confeiteiro pra decorar.

A receita original pedia que eu polvilhasse os pistaches crus na massa, antes de assá-la. Acontece que eu tinha pistaches torrados em casa e não quis sair pra comprar outros. Com receio de eles se queimassem, optei por colocá-los depois da calda, com um pouco de açúcar de confeiteiro pra decorar.

Esta receita dá um resultado muito bom. Bolo aerado, cuja massa contrasta com a cremosidade da framboesa fresca - que cozinhou dentro da massa - passando pela acidez-doce da calda rala de limão, com a crocância dos pistaches moídos por cima. É fácil de fazer, é bonito e vai tornar seu café de tarde mais alegre. Eu fiz algumas alterações na receita original, mas caso você queira consultá-la, basta clicar aqui (em inglês). Por exemplo:

  1. na receita original, pede-se para utilizar azeite de oliva no lugar do óleo que usei. Há a orientação de que se use um azeite que tenha um sabor mais frutado e suave, pra que o resultado final fique a contento. Provei o meu azeite e achei que ele mascararia o sabor delicado do limão. Por isso preferi o óleo de girassol.
  2. Em lugar do extrato de baunilha, resolvi usar extrato de limão que eu já tinha em casa. 
  3. Eu tinha pistaches torrados e salgados aqui. Daqueles pra ficar beliscando em festa. Como era quantidade mais que suficiente eu fiz o seguinte: tirei-os da casca e levei-os ao fogo numa panela, imersos em água fria, até que a água fervesse. Desta forma, extraí o sal e ainda me foi possível retirar aquela película marrom que envolve a castanha, deixando só a parte verde linda do pistache. 
Fatia do bolo pra ver como ficam as framboesas na massa. 

Fatia do bolo pra ver como ficam as framboesas na massa. 

Bolo de Limão, Framboesas e Pistache (Rendimento: 8 fatias generosas)

Óleo vegetal em spray ou manteiga pomada pra untar

1 + 1/4 xícara de chá de farinha de trigo

1 +1/2 colher de sobremesa de fermento em pó

1/2 colher de sobremesa de sal

4 ovos grandes

1  xícara de chá de açúcar refinado

2 colheres de sobremesa de extrato de limão (pode ser essência de baunilha)

2 colheres de sopa de raspas de limão siciliano

1 colher de sopa de suco de limão siciliano

3/4 de xícara de óleo de girassol

1 xícara de framboesas frescas

1/4 de xícara de chá de suco de limão siciliano

1/4 de açúcar refinado

3 colheres de sopa de pistaches não torrados e sem sal. 

Açúcar de confeiteiro pra decorar.

Modo de fazer: 

Pré-aqueça o forno a 180 graus. Unte a forma de 23 cm de diâmetro com o spray ou a manteiga pomada, com a ajuda de um pincel. 

Massa:

Peneire e misture numa tigela a farinha de trigo, o fermento e o sal. Reserve.

Numa batedeira, bata os ovos inteiros com 1 xícara de açúcar refinado (o 1/4 restante é pra calda!), até que a mistura incorpore muito ar e vire um creme bege e fofo. Com a batedeira funcionando, adicione o extrato e 1 colher de sopa de suco de limão, acrescentando depois o óleo, em fio, até acabar. Cuidado pra não colocar o óleo todo de uma vez, vá aos poucos. Bata até que os ingredientes estejam bem incorporados. 

É assim que tem de ficar a mistura de ovos inteiros com açúcar!

É assim que tem de ficar a mistura de ovos inteiros com açúcar!

Misture as raspas de limão à mistura de farinha, fermento e sal e acrescente o batido de ovos. Mexa a massa com um pão duro, fazendo movimentos de baixo para cima, como se estivesse desenhando um círculo na diagonal da tigela. Enquanto faz isso, gire a tigela com ajuda das mãos para que seja possível incorporar os ingredientes o mais rápido possível. É como se você estivesse procurando simular os movimentos de uma batedeira elétrica. 

Verta a massa na forma untada e nivele levemente, se precisar. Mergulhe levemente as framboesas na massa, procurando cobrí-las com a massa. 

Na hora de colocar as framboesas eu dividi a massa em duas e coloquei as frutas no meio, cobrindo com o restante da massa depois. Recomendo que você siga as instruções da receita original: mergulhe-as na massa depois que toda ela estiver na forma, dando uma leve batida da forma na bancada pra retirar alguma bolha maior de ar, antes de acrescentar as frutas. 

Na hora de colocar as framboesas eu dividi a massa em duas e coloquei as frutas no meio, cobrindo com o restante da massa depois. Recomendo que você siga as instruções da receita original: mergulhe-as na massa depois que toda ela estiver na forma, dando uma leve batida da forma na bancada pra retirar alguma bolha maior de ar, antes de acrescentar as frutas. 

Leve ao forno aquecido por 30/45 minutos. Faça o teste do palito. Saindo limpo do bolo, está pronto. 

Cobertura:

Numa panela, coloque o açúcar e verta o suco de limão por cima, deixando-o tomar conta da superfície e umidecendo o açúcar. Leve ao fogo e deixe ferver até que o açúcar se dissolva por completo. Desligue o fogo e pincele a calda na superfície do bolo ainda quente. 

Pique os pistaches grosseiramente com uma faca e misture 1 colher de sopa de açúcar impalpável a eles. Polvilhe-os por cima do bolo. Sirva morno.

Considerações:

Eu cometi alguns erros que tiveram impacto significativo no resultado final:

  1. Usei uma forma de diâmetro maior. Isso fez com que o bolo ficasse mais baixo do que deveria, deixando as framboesas muito próximas do fundo da forma. Portanto não faça isso! A massa tem de preencher, segundo Harold Mcgee em seu "Dicas para cozinhar bem", entre 2/3 a 3/4 da altura da forma. Já aprendi (quer dizer, lembrei!)
  2. Ao fazer o teste do palito, abri o forno antes do tempo e, ao furar o centro da massa, o ar retido escapou. É possível ver que isso aconteceu na foto onde mostro a fatia cortada: o centro do bolo está mais baixo. Este erro deu-se também em consequência do uso da forma maior, que precisava de mais tempo de forno. Portanto, antes de fazer o teste do palito, dê uma batidinha na porta do forno pra ver se o centro do bolo está firme o suficiente pra ser espetado. Se não estiver, o centro vai se mover mostrando que ainda está meio líquido. As bordas do bolo assam mais rápido. 

Mesmo assim, meu resultado foi bastante bom. O sabor deste bolo é incrível, principalmente quando está ainda morno. É uma excelente opção pra um café/chá da tarde. Na revista há a informação de que o bolo pode ser feito com até 2 dias de antecedência do dia a ser servido. Vou guardar uma fatia pra provar e depois escrevo se vale a pena esperar, ou não. Espero que gostem!

Atualização em 03 de julho 2014: 

Sobre o bolo feito com 2 dias de antecedência, como sugerido na revista, posso dizer que ele permaneceu gostoso, mas que a temperatura ideal para serví-lo é realmente a morna. Aqueci a fatia no micro-ondas por 20 segundos e foi o suficiente. Quando servido assim, o aroma é mais presente e o sabor da calda com os pistaches açucarados é muito mais interessante e divertido do que com o bolo à temperatura ambiente. Sugiro guardar o bolo em recipiente fechado na geladeira. 

Carrot Cake: como os americanos criaram um bolo de cenoura tão bom quanto o nosso.

Aqui nos EUA há um calendário onde cada dia do ano festeja, nacionalmente, uma guloseima diferente. 2014 já teve o dia da panqueca de blueberry, o dia do Croissant, do bolo de chocolate e até dos salgadinhos de milho! Cada mês é também dedicado a alguma comida, como fevereiro o é às frutas vermelhas frescas. E as semanas também tem sua comida de homenagem! Imagina tentar seguir religiosamente o calendário? Termina-se o ano com quantos quilos a mais?

Dia 3 de fevereiro último foi o dia Nacional do Bolo de cenoura. Para os brasileiros, bolo de cenoura é sinônimo de coisa caseira, feito para o lanche da tarde e coberto com bastante calda de chocolate das mais variadas receitas. Na minha casa sempre foi feita aquela de achocolatado, água e manteiga, que depois de fria fica craqueladinha por cima. Porém, para os americanos, o bolo de cenoura é uma sobremesa, que como tal deve ser bem apresentada, com recheio e cobertura. Vários restaurantes especializados em comida americana o servem com pompa, duas camadas de bolo, recheio e cobertura. É um clássico delicioso que merece ser provado!

Algumas diferenças significativas: enquanto batemos a cenoura no liquidificador com os líquidos e depois misturamos aos ingredientes secos, o que deixa nosso bolo bem amarelinho, na receita americana as cenouras são usadas raladas finamente e podem ter a companhia de frutas como côco, abacaxi e/ou passas e nozes. Além disso eles usam especiarias, que não temos na nossa versão brasileira. Aqui pode-se usar canela, cravo, gengibre, cardamomo, noz-moscada... É quase como um bolo de maçã, daqueles bem ricos. Como qualquer receita clássica, há inúmeras variações disponíveis para experimentar. Eu escolhi uma de um restaurante que figura entre os meus favoritos aqui em Miami, o Yardbird, sobre o qual escreverei em breve aqui no blog. Optei por fazer a receita sem camadas e recheio porque aqui em casa somos só eu e meu marido, 3 camadas seriam demais. Fiz meia receita e este foi o resultado. É um bolo bastante rico, com abacaxi, nozes e passas na massa. Eu gostei demais!

Carrot Cake (rendimento: 10 fatias de bolo com 3 camada, recheio e cobertura)

Para o bolo:


2 xícaras de açúcar (eu usei metade de mascavo).

1 xícara de chá e meia de óleo vegetal.

4 ovos inteiros.

2 xícaras de chá de farinha de trigo.

2 colheres de chá de fermento em pó.

2 colheres de chá de canela em pó.

meia colher de chá de bicarbonato de sódio.

1 colher de chá de sal.

meia colher de café de cardamomo (opcional).

meia colher de café de cravo em pó (opcional).

1 colher de café de gengibre em pó (opcional).

noz-noscada ralada à gosto (opcional).

283g de abacaxi amassado com garfo, sem o miolo.

3 cenouras médias raladas na parte fina.

1 xícara de chá de passas brancas.

1 xícara chá de nozes.


Para o recheio e a cobertura:


284g de manteiga pomada, sem sal.

340g de cream cheese.

284g de açúcar de confeiteiro.

2 colheres de chá de extrato de baunilha (pode ser essência).


Modo de fazer:


Bolo: Pré aqueça o forno a 180 graus. Misture o açúcar com o óleo e junte os ovos inteiros, misturando bem para que fique homogêneo. Peneire todos os ingredientes secos juntos previamente. Junte-os à mistura de ovos, óleo e açúcar. Adicione o abacaxi amassado, as cenouras raladas, as passas brancas e as nozes. Divida a massa em 3 formas redondas, de mesmo tamanho (23 cm de diâmetro). Leve ao forno por 25 minutos. Faça o teste do palito no centro dos bolos. Se sair limpo, estão prontos. Retire-os do forno e deixe-os resfriar.


Cobertura: Numa batedeira, bata a manteiga até que ela esteja lisa. Acrescente o cream-cheese e bata novamente até que a mistura incorpore. Tome o cuidado de raspar o fundo da tigela da batedeira co um pão-duro, para evitar que haja manteiga acumulada sem misturar. Acrescente o açúcar de confeiteiro e bata novamente, em velocidade baixa, para evitar que o açúcar seja jogado para fora da tigela. Acrescente a baunilha. O resultado deve ser um creme levemente amarelado, liso, aveludado e firme. Caso o seu esteja muito macio, como se fosse chantilly, leve-o à geladeira antes de trabalhar com ele.


Montagem: Desenforme os bolos depois de frios. Recheie os dois espaços entre as 3 camadas de bolo e cubra o bolo, usando uma espátula ou saco de confeitar, com o restante da mistura. É bom levar o bolo à geladeira depois disso para que a cobertura fique firme novamente.


Algumas pessoas colocam côco ralado por cima da cobertura. Como meu bolo não tinha côco na composição, achei melhor não colocar nada. Uma idéia legal é cortar uma cenoura em cubinhos, cozinhá-los em calda rala de açúcar até ficarem macios e usar estas cenouras em calda na decoração. Eu preferia fazer uns desenhos com o saco de confeitar.


Fonte da receita: http://www.cookingchanneltv.com/recipes/carrot-cake0.html

Bolo de bananas contrabandeadas

De origem asiática, a banana tornou-se fruta sinônimo de brasilidade por culpa de Carmem Miranda e suas frutas fixadas em seus turbantes. Freddie Mercury usou um cacho delas na cabeça só pra fazer uma homenagem à pequena notável, de quem era fã incondicional e a quem ele era insistentemente comparado. Não por acaso, o gênero ao qual pertence a banana chama-se Musa.

Sempre que minha mãe me perguntava o que eu gostaria que minha irmã trouxesse na bagagem quando viesse me visitar, eu dizia: "-Banana!". Creio que a banana deva ser um dos principais elementos a fazer um brasileiro sentir-se, de fato, expatriado. Pelo menos o é, no meu caso. Você pode adaptar-se bem à nova cidade, ao novo idioma e às novas pessoas, mas jamais se adaptará à banana disponível no novo país. Ela sempre te fará lembrar que você está longe da sua terra. EUA, França e Venezuela são países dos quais tive relatórios contundentes e definitivos sobre a sem-graceza deste fruto de corpo alongado e casca amarela. E olha que a banana daqui é linda! Tão perfeita que parece ser feita de plástico. Mas não tem gosto de nada... Digna de ser denunciada ao Procon por propaganda enganosa.

Por isso o meu pedido à minha mãe. É claro que eu sei que não se pode trazer produtos "in natura" na bagagem. Era tudo uma brincadeira e procurei alertar a minha mãe disso. Mas não é que o amor materno falou mais alto e ela as mandou? Minha irmã foi parada na alfândega por conta disso, mas no fim a oficial deve ter-se compadecido dela, liberando-a com as bananas na mala. Gosto de acreditar que a oficial já tinha provado as bananas brasileiras...

Algumas bananas chegaram bem amassadas. Daí me lembrei de um bolo de banana que faço, que na verdade é uma adaptação de uma receita do Blog Mixirica. O fato é que a adaptação ficou tão boa que acabou virando um dos hits lá de casa. Já fiz até pra dar de presente e bombou! Daí, arregacei as mangas e fiz a casa inteira cheirar a banana e chocolate.

IMG_3386.JPG
A massa do bolo é mais compacta mesmo. Por isso é importante mexer a massa o mínimo possível. Coloque os ingredientes na ordem em que aparecem na receita, menos a farinha. Mexa tudo pra incorporar, acrescente a farinha, as castanhas e o chocolate e misture o suficiente pra que sejam absorvidos pela massa.

A massa do bolo é mais compacta mesmo. Por isso é importante mexer a massa o mínimo possível. Coloque os ingredientes na ordem em que aparecem na receita, menos a farinha. Mexa tudo pra incorporar, acrescente a farinha, as castanhas e o chocolate e misture o suficiente pra que sejam absorvidos pela massa.

Aqui o bolo numa outra vez que eu fiz. 

Bolo de Banana, gotas de chocolate e Castanha do Brasil

4 bananas prata, amassadas com o garfo*

2 xícaras de chá de açúcar mascavo (ou 200g)**

1 colher de sopa (8g) de cacau em pó (chocolate em pós tem açúcar. Se for usar, diminua a quantidade do mascavo)

1 colher de sobremesa de extrato de baunilha***

1 colher de sobremesa de fermento em pó (8g)

1 pitada de sal

2 ovos inteiros

1/2 xícara de chá de óleo (100ml)

1/2 xícara de chá de castanhas do Brasil picadas (podem ser outras castanhas)

1 xícara de chá de gotas de chocolate meio-amargo ou amargo

2 xícaras de chá de farinha de trigo

** Se for utilizar aquele mascavo escuro, é melhor usar uma xícara dele e uma xícara de açúcar refinado comum. Isto evita que o bolo fique com gosto muito forte do açúcar mascavo. Também é recomendável provar as bananas antes de adicionar o açúcar. Se elas estiverem muito doces, convém reduzir um pouco a quantidade de açúcar. 

Modo de preparo: Misture todos* os ingredientes numa tigela grande, com exceção da farinha de trigo. Quando estiver tudo bem misturado, acrescente a farinha de trigo e mexa delicadamente até incorporá-la à massa. Verta a massa na assadeira untada e enfarinhada. Cubra a assadeira com um papel alumínio nos primeiros 30 minutos e leve ao forno pré-aquecido (210 graus). Retire o papel alumínio e volte o bolo pro forno. Depois de 10 minutos, faça o teste do palito que deve sair seco. O meu bolo levou 50 minutos pra assar, mas eu usei forma de silicone. Em formas de metal o tempo costuma ser menor.

*A banana ideal para o bolo é quando ela está com a casca bem escura e a casca fina. Ou seja, bem madura! Já fiz este bolo com bananas fora deste ponto e observei que quando as uso ainda com o sabor adstringente, não posso mexer a massa demais. Acontece que a composicão da fruta, neste estágio (com a casca bem amarela e ainda grossa), é basicamente amido e água. E quanto mais você mexe a banana, mais ela se aproxima de uma liga elástica, prejudicando o crescimento do bolo ao final. Por isso, observe que se estiver usando a banana com a casca amarela e grossa, é melhor acrescentá-la à massa ao fim do preparo, junto com a farinha de trigo.

*** Pode ser substítuído pela essência de baunilha. Neste caso, aumente a quantidade para 1 colher de sopa.

Obs.: Cubra o bolo com papel alumínio e deixe os 20 primeiros minutos. Retire o papel alumínio e deixe até soltar das laterais. Faça o teste do palito. A consistência do bolo deve ser úmida. Lembre-se que há gotas de chocolate na massa, que uma vez derretidas, podem confundir na hora do teste. Certifique-se de que espetou o palito em uma parte de massa, não de chocolate!

Rende duas formas de bolo inglês de 22,5x10,5x7 cm ou uma forma de bolo com buraco no meio.