O tempo passou muito rápido. E ao mesmo tempo tanta coisa aconteceu que parecem uns 2 anos. Hoje eu ouvi uma mensagem de áudio que mandei pra minha mãe logo na primeira semana em que cheguei. Eu ainda vivia os efeitos do choque-cultural. É engraçado perceber como a minha relação com a cidade e o país mudaram tão rápido. E isso me deu vontade de escrever um pouco sobre algumas características interessantes do país. Muito mais do que fiz nos relatos anteriores sobre as minhas impressões da vida no país, o que quero fazer aqui é um apanhado de coisas sobre o Sri Lanka e a sua cultura, para poder dar uma dimensão pra quem quiser saber mais.
Quando cheguei a Colombo e fui dar minhas primeiras voltas pela cidade o cheiro que invadiu minhas narinas foi o de Naftalina. Pareceu-me que a preocupação com traças e baratas era algo muito comum por aqui. O aroma surgia, principalmente, quando mulheres passavam por mim usando o Saree tradicional daqui. Saree é aquela vestimenta tradicional indiana, que também é adotada por aqui e é obrigatória para as funcionárias públicas do país. Consiste em uma peça de tecido, com aproximadamente 6 metros de comprimento, que é literalmente enrolado ao redor do corpo da mulher, como uma dobradura. Há sarees lindos, com o tecido bordado ou pintado à mão e com estampas que vão variando ao longo do tecido. E a maneira como este tecido é usado no corpo é algo impressionante.
Abaixo, um vídeo onde mostra-se como vestir um desses.
Trabalhoso, pra dizer o mínimo, né? Eu, que sempre gostei de trabalhar de uniforme pra não ter de me preocupar com o que vestir no dia seguinte, me arrepiei só de pensar em fazer isso todo dia, logo pela manhã. Meu máximo respeito às mulheres que usam saree para trabalhar. Eu quero comprar um pra mim, porque os acho lindíssimos. Mas se tivesse de usar isso todos os dias eu estaria lascada. Uma coisa boa é que aqui mulheres não precisam ser magérrimas como a menina do vídeo. Usualmente ostentam-se barrigas e pneuzinhos com orgulho usando o saree. Aqui as mulheres não fazem questão de esconder estas ditas "imperfeições".
Falando ainda em vestimenta típica, as de casamento são um capítulo à parte. Com influências indianas, portuguesas e holandesas, o vestido da noiva, e mesmo a roupa do noivo, procuram invocar a realeza e são muito bonitas.
Foto de um casamento Sinhala. O de origem Tâmil é diferente, onde o vermelho predomina.
Não nos referimos mais aos srilanqueses como 'cingaleses', como no início. Aprendemos que há três povos diferentes na ilha: os Tâmil, que são minoria e os Burgers que são mestiços com europeus, enquanto a maioria é de Sinhalas. A língua deles é diferente. As placas de rua e de prédios oficiais estão escritas nas duas línguas, além do inglês (que não aparece sempre. Só em locais onde há mais turistas).
O sotaque srilanquês é muito bonitinho. Você percebe a musicalidade dele na inflexão das palavras em inglês, coisa que eu não consigo perceber quando eles falam o idioma oficial mais falado por aqui, o Sinhala. O interessante é que eles fazem uma mistura do inglês com o Sinhala e às vezes usam sentenças inteiras no meio da conversa no idioma nativo. Me fez lembrar dos latinos falando spanglish em Miami, em menor medida é claro. No video abaixo você pode ver que o inglês deles tem uma característica que eu defini como “crocante”.
Os Srilanqueses são também um povo muito musical. Há um estilo de música chamado Baila, que é uma herança portuguesa e africana, com influências do Calipso (o estilo musical, não a banda paraense), o que resulta em músicas como a do vídeo abaixo. A música latina também é muito famosa por aqui. Eles gostam de dançar.
Outras coisas "caribenhas" famosas são: Fidel Castro e Cuba (o único país da América Latina, além do Brasil, a ter embaixada por aqui.), Che Guevara, Bob Marley e Jack Sparrow. As imagens dos 3 últimos são muito comuns nos tuktuks, que são muito decorados interna e externamente e que além das imagens também têm frases de sabedoria como as de parachoque de caminhão no Brasil.
O sotaque torna a compreensão do idioma muito mais complicada e eu, ainda hoje, me perco tentando entender o que eles falam. Pra complicar o nível de compreensão da mensagem, ainda há o balanço de cabeça completamente atípico para nós ocidentais. Apesar de parecer sempre o mesmo, cada balanço de cabeça só pode ser compreendido junto ao que está sendo dito, mais o movimento das sobrancelhas. Pode significar concordância, discordância, raiva e tantas outras coisas que a sensação de "Lost in Translation" parece ser eterna e sem solução à médio prazo.
Ah! E ainda tem as palavras em inglês que são usadas aqui. Nos EUA as pessoas tendem a simplificar o vocabulário ao máximo, além das supressões de sílabas e contrações de palavras para tornar a conversa o mais simples, limpa e direta possível. Já aqui há uma mistura do inglês britânico, do indiano e do australiano. Eu realmente achei que tinha perdido o meu inglês quando cheguei. Haja vocabulário para interagir com todos.
