[Cooked] A mínissérie do Michael Pollan no Netflix.

Eu estava em compasso de espera para assistir à série Cooked, do Netflix. Michael Pollan é um autor que sigo cada vez mais de perto, muito embora eu ainda não tenha nenhum livro dele em minha biblioteca. O jornalista começou a escrever sobre comida há algum tempo e acabou por se tornar um ativista no resgate das funções social e política da comida preparada em casa e compartilhada em família. 

 Fonte: http://a.fastcompany.net/multisite_files/fastcompany/imagecache/1280/poster/2015/12/3054219-poster-p-1-how-michael-pollan-gets-us-to-actually-listen-to-him-when-he-talks-to-us-about-healthy-eatin.jpg

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Segundo ele, a industrialização chegou ao ponto de consumirmos produtos cada vez mais estranhos àqueles que costumávamos ter em nossas despensas tempos atrás. Muito embora o fortalecimento desta mesma indústria tenha se dado sob o discurso de que alimentos processados possibilitariam acabar com a fome no mundo, o que ocorreu foi um alheamento do processo produtivo da comida, aumentando o desperdício. Essa vitória da indústria sobre nosso hábito de cozinhar a própria comida tem sido responsável pelo desaparecimento de ingredientes e saberes culinários em todo o mundo. Fazemos escolhas cada vez piores e nos alimentamos sozinhos, desconectados do que a comida é, de fato. Isso tem consequências muito ruins. Chegará o dia onde nenhum ser humano sobre a face da terra será capaz de produzir e cozinhar seu próprio alimento?

A série é dividida em 4 episódios, dedicados a cada um dos 4 elementos fundamentais da natureza: fogo, água, terra e ar. Partindo de cada um deles, somos transportados para a história da alimentação e os costumes ancestrais de caça e saberes culinários dos povos, como os aborígenes australianos. O programa fala sobre as vantagens que a humanidade obteve após o domínio do fogo e sua aplicação sobre os ingredientes, proporcionando menor tempo de mastigação e digestão e nos deixando livres para outras atividades. No fim, devemos nossa humanidade e civilização ao fato de termos aplicado o fogo à comida um dia.

Outras descobertas vieram, como a agricultura, e a variedade de formas de conservação dos alimentos nos permitiu um sem número de possibilidades.  Fermentação, desidratação, salga ou cocção em meios ácidos, defumação e cura... Tudo isso nos permitiu driblar as adversidades das estações mais secas e frias, disponibilizando produtos para o consumo ao longo do ano. Isso, aliado à aplicação de técnicas diversas de cocção em meios diversos, além do modo de vida de cada povo. Estes foram ingredientes fundamentais para que tenhamos criado culturas gastronômicas tão diferentes nos quatro cantos do planeta. A riqueza de ingredientes, preparos, apresentações e sabores é uma das grandes maravilhas do mundo. Porém, corremos um risco incrível de perdermos nossas culturas e saberes culinários por conta das características do mundo moderno, como a falta generalizada de tempo. Isto somado ao baixo poder de compra da maioria da população mundial acaba proporcionando vantagens enorme às grandes empresas de fast-food, bem como da indústria de alimentos super-processados. Em consequência disso, a indústria introduziu conservantes, espessantes e melhoradores de sabor na busca por baratear seus produtos ao máximo, comprometendo a qualidade deles. Daí para as doenças comuns no mundo moderno, um pulo!

Uma das teses mais interessantes do autor é que ao termos terceirizado o trabalho de matar os animais que comemos (bem como todo o processo de preparação das peças para que possamos somente cozinhá-las), nós perdemos o respeito pelo sacrifício animal. Ignorando que a carne é produto de uma morte, desperdiçamos uma matéria-prima que até pouco tempo era utilizada em sua totalidade nas casas das pessoas, em preparos diversos. Enquanto o episódio abordava estas questões, eu me lembrava da minha avó matando galinhas no quintal. Depenando-as e limpando a carcaça até chegar aos miúdos, tudo seria aproveitado em vários tipos de preparação. Era um ritual que tomava quase que metade do dia. Hoje em dia compramos pedaços de frango em bandejas de isopor envolvidas em plástico filme. 

Particularmente fiquei chocada com a parte dedicada à cultura alimentar da Índia e países similares, como o Sri Lanka. Estes países têm sua cultura alimentar baseada nos ensopados, com cocção em meio aquoso. Como este tipo de preparo demanda mais tempo para ficar pronto, a indústria alimentícia encontrou terreno fértil para disseminar seus produtos na região. Aqui no Sri Lanka há uma profusão de propagandas da Knorr e da Maggi nas ruas. Estão conseguindo subverter toda a cultura gastronômica local do Rice and Curry e introduziram o miojo num país onde tradicionalmente não consome macarrão. Em toda festa popular que fui até agora, havia carrocinhas de miojo disponíveis e lotada de clientes. 

Com participações de Nathan Myhrvold, passando por uma cozinheira ex-funcionária do Chez Panisse, um especialista em churrasco no estilo americano e chegando a uma freira microbióloga, Michael nos leva a refletir sobre a importância do resgate do ato de cozinhar em casa. Nutrir nossa família como um ato político e de independência. Além de muito amor, é claro!