Os impactos da COVID 19 nos hábitos de comer fora dos chineses.

Muita gente pode não ter-se dado conta quando vai a um restaurante chinês, mas o horário da refeição para os chineses é também um momento de confraternização. Quando você vem à China, isso fica evidente no momento em que você entra num restaurante. Mesas redondas, de 6 ou mais lugares e uma espécie de mesa menor e giratória no centro. Você encontra, sim, mesas menores com dois lugares. Porém, ao chegar num estabelecimento sozinho, o recepcionista vai olhar atrás de você e se perguntar onde estão seus companheiros de refeição. Essa é a minha experiência quando saio sozinha para experimentar um lugar novo aqui em Pequim. Uma vez, descobri um restaurante perto da escola de mandarim e resolvi almoçar lá. Cheguei e anunciei que estava sozinha. Me vi sentada numa mesa de 6 lugares e logo depois 2 garçons diferentes perguntaram se eu estava esperando alguém. Resposta negativa, trouxeram-me o cardápio.

Puxando pela memória, você vai lembrar que nunca foi a um restaurante chinês onde eram servidos pratos individuais. Eles são para serem compartilhados, como um almoço brasileiro em casa de família. A única coisa que servem em porção individual (aqui na China e em outros países da Ásia) é o arroz branco, estrela principal das refeições e que vem numa tijelinha com uma colher de porcelana. A etiqueta chinesa manda que sejam pedidos um número diverso de pratos (entre frios e quentes, vegetais e de origem animal), equivalentes em número à quantidade de pessoas à mesa, mais um extra. Portanto, para mim que almoço quase sempre sozinha, significa pedir dois pratos grandes e levar as sobras num daobao (quentinha) de volta pra casa. Isso só não acontece em casas de jiaozi (o equivalente ao Guioza dos japoneses). A sensação de se almoçar sozinho num restaurante chinês aqui é de derrota. A comprovação de sua inabilidade social ou, no meu caso, pura dificuldade de comunicação mesmo.

Os pedidos chegam e são colocados na mesa de centro giratória e cada um dos comensais vai se servindo aos poucos, girando a mesa para alcançar o prato desejado. O que, por vezes, atrapalha o outro colega que estava se servindo. Nos EUA, batizaram esta mesa giratória de Lazy Susan. Na casa da minha mãe, que também tem uma dessas, batizamos de “sirva-se se for capaz”. Hahahah!

Os chineses riem e se divertem, conversam, servem-se um pouco de cada coisa usando o próprio kuaizi, que são mais longos que os hashi japoneses, justamente porque também são usados para serviço. Normalmente usa-se a parte de trás do kuaizi para pegar a comida no prato compartilhado, usando-se a extremidade mais fina para levar o alimento à boca. Mas com a pandemia, depois de controlado o vírus dentro do país, resgatou-se o uso do Kuaizi de serviço. Portanto em cada lugar da mesa há dois pares de palitinhos: um para servir-se de comida, outro para levar a comida à boca. Bem semelhante ao uso dos talheres de serviço que usamos cotidianamente no Brasil.

Dado este contexto de confraternização durante as refeições, há de se mencionar o impacto que a COVID 19 teve neste hábito tão primordial na vida dos chineses. Mesas cheias passaram a ser proibidas. A lotação dos restaurantes foi reduzida à metade. Para sentarem 2 pessoas juntas só se fosse numa mesa de 4 lugares, cada um numa posição diagonal ao outro. O clima de festa ao comer estava suspenso indefinidamente.